42ª Sessão Ordinária - 30/04/2014
O SR. DEPUTADO SARGENTO AMAURI SOARES - Sr. presidente, srs. deputados, sra. deputada, quem nos acompanha pela TVAL e Rádio Alesc Digital, público aqui presente ainda neste final de expediente do último dia legislativo desta semana, já que amanhã temos feriado e apenas voltaremos a ter sessão na próxima terça-feira.
Mas aguardei porque preciso falar sobre algumas questões relativas ao Dia do Trabalho, ao Dia do Trabalhador comemorado amanhã. E aí até queria começar brincando, mas falando sério com relação ao discurso do deputado Maurício Eskudlark lá no começo da sessão, antes das 15 horas ainda, quando ele falava sobre alguns salários de R$ 2 milhões por mês e que, se o sujeito não trabalha, vai para R$ 1 milhão e ele fez a comparação com outros salários ou com a maioria dos salários no Brasil, especificamente, com trabalhadores da segurança pública.
Com certeza cabe uma reflexão de que tipo de sociedade em que vivemos que proporciona essas distorções. Ele não fez uma confissão, e até se autodefendeu dizendo que não era o caso de defender uma sociedade socialista, justamente no momento em que eu quase já trazia uma ficha de filiação ao deputado Maurício Eskudlark, que também asseverou que, por parte dos empresários, todos gostariam de pagar o melhor salário possível, de preferência aquele salário que o Gugu Liberato ganha, no valor de R$ 2 milhões, cortado pela metade, que absurdo, R$ 1 milhão, se ele não estiver trabalhando.
Eu queria dizer que não se trata de uma questão moral apenas, em nenhum momento nas nossas ações mais objetivas falamos em questões morais. No caráter da nossa sociedade é que existe uma competição entre as próprias empresas, dentro do mesmo ramo, inclusive, que o sistema força ao enxugamento, cada vez maior, do custo do trabalho e da produção em geral, do rebaixamento ou encurtamento do poder aquisitivo do salário e da aceleração da produção.
Ele falava também que os trabalhadores fazem seus trabalhos com vontade, e até citou uma moça que estava curando pessoas enfermas, que disse não estar ali pelo dinheiro e, sim, pelo prazer de se sentir um ser humano melhor fazendo aquela atividade da qual ela gostava. É verdade, pois conhecemos exemplos maravilhosos de pessoas de todas as profissões e carreiras que se empenham de forma abnegada pela profissão e acham razão para viver justamente porque se realizam e se sentem úteis através do desempenho da sua atividade profissional. Na segurança pública entendemos que a maioria das pessoas que conhecemos e convivemos têm esse matiz, dedicam a própria vida e, às vezes, entregam a vida na defesa da sociedade.
Isso é fato, é objetivo. Não que uma pessoa queira, mas ela está numa profissão e, em determinados momentos, entende que precisa tomar atitudes, mesmo sabendo dos riscos que corre. Então, não tem como não homenagear essa gama, esse conjunto imenso de trabalhadores deste estado, deste país que tem essa abnegação, mas é necessário observar que a maioria dos trabalhadores catarinenses e brasileiros realiza aquilo que se chama na sociologia clássica marxisista de trabalho alienado, ou seja, ele vende o tempo para ficar na fábrica e realiza aquela tarefa exigida pelo chefe e sequer pensa na importância social daquilo que está fazendo e que, muitas vezes, nem é tão grande assim.
Nós temos aqui a campanha do Maio Amarelo pela prevenção aos acidentes e trânsito, que de fato é uma tragédia nacional e mundial. É verdade! E a gente adota esta campanha, no entanto, a lógica da sociedade atual não permite pensar outra forma de mobilidade que não seja priorizada pelo automóvel particular. E até aí não tem problema cada família ter o seu automóvel. O problema é que todas as pessoas precisam usar esse carro todos os dias para ir de casa para o trabalho ou de casa para a escola, porque não existe outro sistema de transporte mais racional na sociedade que seja viável, possível, que seja minimamente confortável e que possa, inclusive, ser mais rápido do que o automóvel e que seja mais barato e de preferência gratuito. Essa é uma bandeira que a gente precisa adotar e ainda não estamos falando da sociedade socialista. Isso ficaria em reformas dentro da sociedade atual e seria racional para o conjunto da sociedade, inclusive para os setores dominantes e para os empresários também.
Então, infelizmente, a maioria do trabalho é alienada e talvez até esteja a serviço de uma lógica destrutiva. E falei aqui da produção de automóveis, imagine se tivesse falado da produção de armas nucleares e outras. E o principal motor da indústria dos Estados Unidos, a maior economia do mundo é a indústria bélica, porque o estado compra armas para usar ou deixar estocada. Esse é um trabalho com certeza nada produtivo.
Por falar nos Estados Unidos, e não quero manifestar aqui uma posição anti-imperalista, deputado Ismael dos Santos, tanto o Dia do Trabalho quando o Dia da Mulher são datas construídas historicamente que fazem referência ao massacre contra trabalhadores e trabalhadoras nos Estados Unidos da América, que é referência de civilização para a humanidade ou pelo menos para o Ocidente. E essa mesma potência quer instituir essa mesma lógica também no Oriente. Então, é necessário que façamos uma reflexão sobre o tipo de sociedade e de trabalho que desenvolvemos.
Não quero terminar a semana porque ando com esse jornal Diário Catarinense de domingo, desde a segunda-feira, para ler uma nota na coluna Visor, do jornalista Rafael Martini, que dá uma no cravo e outra na ferradura. E vou ler:
"Pensando alto
A Justiça calcula em R$ 109 mil o gasto com a mobilização de 455 policiais militares entre 23 de dezembro de 2013 e 21 de abril deste ano por conta da Ocupação Amarildo. Mas será que alguém arriscaria fazer uma estimativa das condições de vida das 15 mil famílias na fila de espera por moradia na Capital?"
Essa foi na ferradura, porque é fácil estabelecer valores de gasto com o movimento popular, mas isso precisa ser discutido e avaliado. E, sobre os custos sociais das 15 mil famílias que estão esperando há décadas por uma moradia, não se fala? Aliás, R$ 109 mil é muito para quem ganha um salário mínimo ou dois. Mas temos neste estado, nos Poderes, há servidor que ganha mais do que isso em um único mês, mais do que o custo com os policiais militares para conter, ajudar, apoiar a Ocupação Amarildo.
São debates necessários e reflexões que precisamos fazer no Dia do Trabalho. Também neste estado existem pessoas pagas pelo erário que têm um salário maior do que o custo de 555 policiais para trabalhar durante quatro meses. Essa reflexão precisa vir para o debate e também nos meios de comunicação.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)