132ª Sessão Ordinária - 30/11/1999
O SR. DEPUTADO FRANCISCO DE ASSIS - Sr. Presidente e Srs. Deputados, aconteceu nesse final de semana o II Congresso do Partido dos Trabalhadores em Belo Horizonte, o qual tive a oportunidade de acompanhar e de participar por dois dias.
Entrei no PT em 1990, depois de ficar dois anos namorando-o. Como trabalhador, vi nesse Partido um sonho: o de um dia mudarmos essa sociedade e proporcionar aos brasileiros uma sociedade igualitária, uma sociedade socialista, com direitos iguais.
Foi esse sonho que me cativou e que me cativa ainda hoje. Milhares de trabalhadores brasileiros tinham esperança de ter um Partido que pudesse representá-los na sociedade brasileira e do qual pudessem se orgulhar, e esse sonho socialista de uma sociedade mais igualitária é que está nos nossos documentos, nos nossos encontros e que nos mantêm ainda unidos.
Quero deixar aqui expressado o meu sentimento de que essa talvez tenha sido a única vitória no Congresso Nacional de um Partido ainda socialista, porque, no mais, perdemos muita coisa. E assim como eu, com certeza milhares de trabalhadores deste País e do nosso Partido estão decepcionados com as decisões tomadas.
Uma delas que quero destacar aqui é em relação à dívida externa. A Igreja católica tem uma posição clara ao colocar para a sociedade a moratória da dívida externa: não sugar mais o suor do trabalhador brasileiro, que trabalha e gera riqueza neste País para pagar essa dívida, que já está paga há muitos anos só com os juros!
O nosso Partido não teve a coragem de dizer um não. A maioria do Partido prefere a rediscussão da dívida externa. A política de aliança, da mesma forma.
Hoje, pelo que foi aprovado no congresso, é possível coligarmos com os Partidos que defendem o projeto neoliberal, que massacram o trabalhador brasileiro, que acabam com o nosso País, que o entregam ao poder internacional, ao FMI. E o nosso Partido, infelizmente, aprovou também no seu congresso nacional a possibilidade de uma política ampla de aliança, tudo isso descaracterizando aquilo que defendíamos.
Não faço parte desse bloco que defendeu isso dentro do Partido. Agora, com certeza, essa maioria do Partido hoje irá ter a responsabilidade não de nos levar para o buraco, mas de resgatar o princípio do nosso Partido. E vai ter essa responsabilidade durante os próximos anos, com a recondução do Presidente José Dirceu à frente do Partido dos Trabalhadores.
Claro que estou indignado, porque não penso assim, não comungo com isso, mas respeito a decisão da maioria e vou ter de me curvar a essa decisão. Mesmo sendo Oposição, vou ter de cumprir com as determinações partidárias, e, com certeza, vou ter de respeitar as decisões desse II Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores.
O Sr. Deputado Pedro Uczai - V.Exa. me concede um aparte?
O SR. DEPUTADO FRANCISCO DE ASSIS - Concedo um aparte a V.Exa., para que possa completar esse meu pensamento.
O Sr. Deputado Pedro Uczai - Nobre Deputado, o Partido dos Trabalhadores, nesses vinte anos, construiu-se democraticamente e democraticamente permitiu a existência de correntes internas, de tendências dentro do próprio Partido, o que permite V.Exa. fazer esse pronunciamento e eu aparteá-lo para dizer que também avalio esse II Congresso Nacional em duas direções.
A conquista maior é manter a resolução de que a nossa utopia, o nosso sonho, é transformar essa sociedade que explora, que produz desigualdade social, miséria e morte para a maioria; é ter a perspectiva da construção de uma sociedade socialista, em que se socializa a riqueza, o poder, o saber.
Por outro lado, as derrotas que tivemos permitem-nos tornar a nossa posição pública: que queríamos a suspensão da dívida externa, que apoiávamos o "Fora FHC", o "Fora FMI", porque são os responsáveis pela destruição da soberania do patrimônio público, pela desigualdade social, pelo desemprego neste País. Também queríamos um arco de aliança no campo democrático e popular.
Nesses pontos fomos derrotados, mas vamos continuar a nossa luta dentro do Partido dos Trabalhadores. Democraticamente, iremos lutar ao lado dos movimentos sociais e populares, para não acontecer igual ao PMDB, que do MDB passou para o PMDB e acabou dando sustentação à política neoliberal do Fernando Henrique, pois, quem sabe, não corremos o risco de caminhar também nessa direção?
Está de parabéns o Líder do PT, Deputado Francisco de Assis, por trazer democrática e eticamente o nosso posicionamento, o que elogiamos nos nossos encontros e o que temos como críticas. Mas iremos nos manter coesos na perspectiva de construir um país socialista, democrático, com justiça e igualdade social...
(Discurso interrompido por término do horário regimental.)
(SEM REVISÃO DO ORADOR)