Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Clésio Salvaro

73ª Sessão Ordinária - 18/09/2007

O SR. DEPUTADO CLÉSIO SALVARO - Sr. presidente, sras. deputadas, srs. deputados e telespectadores que nos acompanham através da TVAL, muito boa-tarde!

Assomo à tribuna nesta tarde de terça-feira para fazer um relato da viagem que fizemos ao México, na semana passada. Viagem essa motivada há muito tempo para seguir os caminhos daqueles imigrantes que saíram da região sul de Santa Catarina e migraram em direção aos Estados Unidos.

Foram mais de 30 mil pessoas da região sul do nosso estado que para lá foram em busca de um sonho, em busca de uma oportunidade para poder trabalhar, para poder lá ganhar dinheiro, sustentar a sua família e tirar o seu próprio sustento.Sonho esse que o nosso chão, que a nossa pátria lhes negou, porque ninguém vai para lá, deputado Décio Góes, a passeio. Ninguém arriscaria a sua vida, nem deixaria uma vida inteira para trás, para ir para os Estados Unidos, entrando pelo México, apenas por prazer! Vão para lá em busca de uma oportunidade.Nós fomos, inclusive, também porque um jovem de aproximadamente 35 anos para lá rumou em agosto de 2005 e nunca mais voltou. Apenas no dia 26 de agosto daquele ano manteve o último contato. De lá para cá nunca mais se comunicou com a família.

Nós entramos em contato com os coiotes ou com os boieiros, como lá são chamadas as pessoas contratadas para fazer a travessia dos imigrantes para pisar em solo americano. Contratamos um coiote e para lá rumamos no dia 8 deste mês, na semana passada; chegamos na cidade do México no domingo e mantivemos vários contatos com as autoridades mexicanas. Na segunda-feira mantivemos contato com o embaixador do Brasil no México e depois rumamos para a cidade de Monterey. De lá contratamos um guia, um coiote, um boieiro, como é conhecido e percorremos 250 quilômetros de carro rumo a cidade de Novo Laredo.

Novo Laredo é dividida da cidade de Laredo por um rio que tem aproximadamente 100 metros de largura e uma correnteza muito forte, e é exatamente nesse rio, conhecido como rio Grande, onde, à noite, mais de mil pessoas fazem essa travessia por semana. Ali, as pessoas praticamente nuas - os homens ficam apenas de calção e as mulheres de calcinha e sutiã -, pintam-se de preto e fazem a travessia. Pelos dados que temos, por ano, aproximadamente 300 pessoas morrem afogadas tentando atravessar esse rio para pisar em solo americano. Depois, em solo americano é feita outra caminhada de aproximadamente 500 quilômetros para chegar à cidade onde serão enviados para seus destinos, onde há um parente, um amigo, um conhecido que os aguarda para levá-los até o local de trabalho para ganhar US$ 1,5 mil, US$ 2 mil por mês, que é mais ou menos o que as pessoas ganham.

Estivemos no hotel onde Paulo Sérgio esteve hospedado, estivemos na prefeitura, na justiça municipal e encontramos várias fotos e vários processos de pessoas que tentaram atravessar o rio e estão desaparecidas.Estivemos na Casa de Nazaré que dá apoio aos imigrantes de várias cidades do mundo, lá encontramos o processo de alguém que foi encontrado aproximadamente dez dias depois de ter morrido. Várias fotos foram tiradas dessa pessoa, e o seu corpo, assim como outros 300 por ano, foi enterrado no cemitério para indigentes.

Trouxemos essas fotos para cá. Eu, a jornalista Thaize Pizoni, do Jornal da Manhã, a Gladis, da Casa do Catarinense, e a minha esposa não tivemos a menor dúvida, pelos peritos de lá e pelos médicos legistas daqui, que aquele corpo é do Paulo Sérgio. Ele tentou a vida em outro chão, em outro território, nos Estados Unidos, para sustentar a sua família. Deixou aqui a esposa e duas filhas, uma delas agora teve um neném.

Essa é uma travessia que não sugerimos a ninguém, mas às margens do rio Grande perguntamo-nos: "Meu Deus, por que as pessoas tentam fazer isso?" E a resposta, é claro, vem de nós mesmos: a luta pela sobrevivência, a falta de emprego, a falta de condições para criar sua família é que leva as pessoas a fazer essa loucura, a arriscar a própria vida.

A nossa região carece de muito emprego. Não há mais emprego, e é por isso que as pessoas vão para lá, é por isso que mais de 30 mil pessoas já estão trabalhando nos Estados Unidos, por falta de emprego na nossa região.

O Sr. Deputado Décio Góes - V.Exa. nos concede um aparte?

O SR. DEPUTADO CLÉSIO SALVARO - Pois não! Nobre deputado, quando v.exa. foi prefeito, esteve na capital de Massachusetts conversando com os criciumenses, os sul catarinenses que trabalham na cidade de Boston. Tenho certeza de que suas palavras vão enriquecer, apurar ainda mais as nossas colocações.

O Sr. Deputado Décio Góes - Nobre deputado, agradeço a oportunidade e cumprimento-o pelo seu depoimento. Quero lembrar, como o senhor já falou, que quando fui prefeito tive a oportunidade de visitar e de sentir de perto todo o drama da travessia e da sobrevivência na região de Boston. Foi uma das experiências mais emocionantes que tive como prefeito. Fica a lição de não estimularmos esse tipo de travessia, mas de nos preocuparmos com eles e oferecermos alguma forma de apoio. Foi isso que fizemos por muito tempo enquanto estivemos na prefeitura. Devemos lutar pela geração de emprego e renda na nossa comunidade, para que não aconteça mais esse tipo de estímulo. Deixo aqui a minha solidariedade e meus cumprimentos.

O SR. DEPUTADO CLÉSIO SALVARO - Muito obrigado, por suas palavras.

O Sr. Deputado Sargento Amauri Soares - V.Exa. me concede um aparte?

O SR. DEPUTADO CLÉSIO SALVARO - Pois não!

O Sr. Deputado Sargento Amauri Soares - Deputado Clésio Salvaro, quero apenas parabenizar v.exa. pelo trabalho que fez, pela viagem e pelo assunto que traz a essa tribuna, que é muito importante para todos nós, catarinenses e brasileiros, que vivemos essa situação, vendo pessoas saírem daqui para tentar a vida em outro país, da forma como está acontecendo.

Não vou fazer discurso apresentando razões inclusive de ordem política, programática e ideológica, porque existe um muro de segregação como pudemos ver e v.exa. atestou isso.

Parabéns pelo seu trabalho, pela viagem, pela pesquisa, pelo estudo e pelo seu pronunciamento.

O SR. DEPUTADO CLÉSIO SALVARO - V.Exa., que é da Polícia, precisa também conhecer o esquema dos boieiros, para saber como funciona a organização dos coiotes e dos boieiros, porque a organização daqueles que promovem a travessia do rio Grande da cidade de Novo Laredo para Laredo nos Estados Unidos é de causar inveja a qualquer organização governamental, principalmente os da Polícia aqui do estado de Santa Catarina.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)