Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Nelson Goetten

121ª Sessão Ordinária - 08/11/1999

O SR. DEPUTADO NELSON GOETTEN - Sr. Presidente e Srs. Deputados, estamos vivendo um episódio nacional de criminalidade, de corrupção em todos os cantos deste País. Parece-me que perdemos a capacidade de controlar o crime organizado.

Muito condenamos o regime militar, o qual aprendemos a odiar no decorrer de nossas vidas, e conseguimos conquistar um regime democrático, que nos daria direito à liberdade e, acima de tudo, o respeito ao cidadão. Mas esse regime mostra-se impotente, cego, surdo e mudo perante a população brasileira. Ele não enxerga as nossas crianças abandonadas nas ruas, não enxerga que temos milhões e milhões de brasileiros passando fome e necessidade, eis que não consegue entender que sem oportunidade de trabalho não há solução para este País. É um regime que se omite e que acaba condenando não o verdadeiro criminoso: aquele que explora o cidadão através de juros absurdos.

O que poderia gerar mais miséria do que essa concentração absurda de renda, acobertada por esse regime que tanto queríamos para a Nação brasileira? Sou favorável à liberdade, sim, mas liberdade não significa corrupção, não significa criminalidade, não significa quadrilhas montadas para assaltar o cidadão nem colocar um País de joelhos a serviço dos grandes poderes econômicos.

Liberdade não significa ver a população morrendo de fome e sem ter onde morar nem o cidadão ter de abandonar a sua propriedade porque não pode tirar da terra o sustento para si e sua família. Liberdade não significa tirar o direito do cidadão de viver melhor.

Está-se construindo neste País hoje um pequeno universo de cidadãos que têm direito a tudo, que podem tudo; aos outros 160 milhões de brasileiros só cabe a desgraça. A esses só cabe pagar a conta, trabalhar para sustentar alguns poucos, que são beneficiados pela cegueira, pela omissão desse sistema democrático que conseguimos neste País, que sequer conseguiu manter as estradas construídas durante o regime militar, o qual tanto condenávamos, que sequer conseguiu manter a Vale do Rio Doce. As grandes empresas estatais foram todas construídas durante aquele regime, e este tão falado, tão sonhado sistema democrático não teve a capacidade de manter isso.

Que regime construímos? Que Constituição nos comanda? A que ponto chegamos nesta Nação brasileira, em que saímos de casa e não sabemos mais se voltamos? Há uma onda de crimes, de assaltos tão grande que se teme mandar um filho sozinho para a escola. E as escolas nos grandes centros urbanos, por sua vez, estão equipando-se em termos de segurança. A população não tem mais tranqüilidade nem nos melhores ambientes de lazer do País. Quem vai fazer uma viagem não sabe mais se volta, devido às condições das nossas rodovias, e as que recebem manutenção é porque o cidadão está pagando para tal.

Aquele malfadado regime, que aprendemos a odiar, construiu uma dívida de 10 bilhões de reais no País, e esse regime que queríamos, o democrático, teve a capacidade de elevar essa dívida para mais de 400 bilhões de reais, colocando-nos a serviço dos grandes, dos poderosos, que hoje nos dominam com a concordância das autoridades, as quais também estão envolvidas com as redes de tráfico, com a corrupção, por isso protegem as quadrilhas, a maior delas formada pelos exploradores deste País.

O Brasil é tão competente para executar o ladrão de galinha, que, por ter se criado na miséria absoluta, acaba não tendo mais nada a perder e assalta, seqüestra, mas é impotente para colocar na cadeia quem conduziu esse cidadão para a vala da miséria, que são aqueles que sangram o País todos os dias com cifras astronômicas de juros e, acima de tudo, aqueles grandes empresários.

Há dados que mostram que 43% dos grandes empresários brasileiros sequer pagam um real de imposto!

Onde estão os verdadeiros criminosos, se não são esses? Este País não tem capacidade de executá-los, mas quando se trata de um pequeno empresário, que com muito esforço tenta salvar o emprego de muitas famílias, aí o sistema é competente, aí ele manda fiscalizar e fechar a sua empresa, aí ele atua com força!

Em que País estamos vivendo? Que regime democrático espetacular criamos? Para onde foi levada essa população? Foi criada uma Constituição que lembrou dos direitos do cidadão, mas não escreveu os deveres de cada um.

Nós, que temos a nossa identidade, que fazemos parte deste País e que queremos ter também a nossa oportunidade, merecemos respeito das instituições e das autoridades. A que ponto chegamos, se nem o Poder Político consegue mais ser potente? Se peneirarmos bem, quem está se salvando neste Brasil?

Colocar toda essa imensa riqueza que temos a serviço de alguns é muito triste para nós, para o povo que sofre. Nós, Parlamentares, queremos ser úteis ao povo, mas, com todas essas dificuldades, sentimo-nos como um grão de areia nesse universo.

Srs. Deputados, este Deputado nascido na costa do Morro do Funil, caboclo lá da serra, filho mais velho de uma família de onze irmãos, quer deixar registrado nesta tribuna que quer e vai fazer a sua parte nessa questão.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)