64ª Sessão Ordinária - 07/07/2010
O SR. DEPUTADO SARGENTO AMAURI SOARES - Eu até deixei para falar em Explicação Pessoal, justamente para ter tempo de ler a carta inteira de uma servidora da Saúde, que expressa um pouco da realidade do serviço público no estado de Santa Catarina.
(Passa a ler.)
"Excelentíssimo senhor deputado
Peço dois minutos da sua atenção para um breve relato, diante da situação em que passa a saúde em Santa Catarina, especialmente os trabalhadores do setor que efetivamente colocaram a mão na massa, como esta que vos escreve.
Tenho 40 anos, dentre os quais 23 dedicados à saúde, área que sempre me interessou desde a infância e pela qual me apaixonei ainda jovem. Meus pais sempre me diziam que para trabalhar com doentes é preciso ter vocação e muito amor ao ser humano, eles tinham razão. Com base nestes princípios exerci e exerço minhas atividades acreditando poder contribuir para minimizar o sofrimento das pessoas, e quando isso não for possível pelo menos tratá-los de forma digna para que não se sintam desamparados.
Durante estes anos, nunca participei ou até mesmo simpatizei com movimentos de greve, paralisações, qualquer coisa que pudesse tirar meu foco daquilo que sempre me propus a fazer. Porém nos últimos tempos muitas coisas estão fazendo com que eu reavalie a minha vida profissional.
Nos últimos seis anos em que atuo como técnica de enfermagem em hospital, percebo que as condições técnicas para a prestação dos meus serviços aos pacientes têm piorado na grande maioria dos aspectos. Faltam leitos, equipamentos, remédios, material hospitalar e de limpeza, falta treinamento e pessoal motivado para ajudar a fazer o serviço.
Alguns exemplos:
Falta de material: eu uso uma luva tamanho pequeno, pois sou mulher e minha mão é pequena, mas muitas vezes só temos disponíveis luvas de tamanho grande (para homens). Então sou obrigada a utilizar estas luvas folgadas, consequentemente não tenho a mesma segurança ao manipular um instrumento ou material, colocando em risco a minha vida e a de terceiros.
Trabalhando com instrumentos cortantes e com falta de sensibilidade/ato, por diversas vezes já me feri. Coisa pouca, bobagem, há quem diga, mas com saúde não se brinca.
A sobrecarga de trabalho dos meus colegas: Muitos colegas não conseguem manter-se apenas com o salário do hospital, então para sobreviver fazem hora plantão e trabalham também em outros locais, emendando plantões, trabalhando às vezes 36 horas direto ou até mais para poderem somar aos seus salários e sustentar com dignidade suas famílias.
No meu caso em particular, não me vejo forçada a fazer tais loucuras (meu companheiro não trabalha na saúde), mas vivencio esta situação de estresse trabalhando ao lado de quem protagoniza tal situação.
Às vezes me pergunto: como pode um profissional fazer o seu trabalho com segurança após 36 horas de pé? O quanto aumenta o risco de ele cometer algum erro estando sob tais condições?
Eu não quero correr o risco de ser atendida por alguém nestas condições, mas será que os nossos pacientes têm opção?
Situação salarial: quando iniciei minhas atividades no hospital que hoje trabalho, meu salário era equivalente a pouco mais que dois salários mínimos. Hoje, passados mais de seis anos, o meu salário é de um pouco menos que dois salários mínimos (que legal). Mas o governo deu um tal de abono, migalhas que somadas ao salário mal repõem o que a inflação comeu. Na iniciativa privada é proibido o pagamento de valores não incorporados ao salário, já o governo não quer incorporar os abonos (as tais migalhas) ao salário, garantindo com isso um futuro ainda pior para os trabalhadores, que terão uma aposentadoria ainda mais miserável.
Alguém precisa dizer ao governo que nós trabalhadores não precisamos de esmola, nem esperamos qualquer tipo de reconhecimento que não seja a justa remuneração pelos nossos serviços.
Estas e muitas outras situações, me fizeram aderir ao atual movimento de paralisação dos funcionários da Saúde. Agora talvez eu entenda melhor aquele espírito que motivou tantas classes trabalhadoras e estudantes deste país a lutarem por melhores condições, respeito e dignidade.
Sabemos que sem luta não há conquista, e estamos dispostos a mudar esta situação.
Senhor deputado" (e ela escreveu isso a todos nós, aos 40 deputados), "caso vossa excelência sinta-se sensibilizado com a nossa causa, peço que de alguma forma prática nos apóie, para que juntos possamos mudar esta triste realidade, para o bem da sociedade catarinense.
Cordialmente
Uma servidora pública da Saúde de Santa Catarina."
Essa servidora trabalha no Hospital Governador Celso Ramos. A greve já acabou, como falei ontem. E inclusive agradeci aqui aos deputados, autoridades do governo, deputados da base do governo e da oposição que trabalharam, contribuíram para que houvesse uma negociação na última sexta-feira.
Mas é preciso que façamos uma reflexão sobre esta carta que chegou às minhas mãos, hoje, porque o senso comum, a ideia comum, aliás muito difundida pelos principais e grandes meios de comunicação, é de que o servidor público não se preocupa com a instituição, com o seu serviço e com a sociedade. E na maioria dos casos isso não é verdade. Ou seja, a maioria dos servidores se preocupa com o que faz, quer fazer bem o seu serviço, quer poder ir para casa no outro dia e falar para os filhos, a esposa ou o marido, o pai, a mãe, o vizinho e a comadre que no dia anterior, durante o serviço, salvou uma vida, ajudou uma pessoa.
Isso vale para os trabalhadores e trabalhadoras da Saúde, para os policiais e bombeiros e inclusive para os agentes prisionais. Isso vale para quem trabalha no Magistério e para quem trabalha em outra área do serviço público. Todo ser humano quer ser útil para os seus. Todo ser humano precisa se sentir útil para não se tornar um cínico e um canalha.
Infelizmente, no estado, no poder público, entre os comissionados, há muito oportunista que suga, que parasita o serviço público. Eu não estou xingando aqui os comissionados, há muitos que trabalham com empenho, 18, 20 horas por dia para tentar resolver os problemas. Mas há muito parasita, isso ninguém pode negar, que nem sabe o que está fazendo, que não conhece a instituição que está comandando, que não sabe o sacrifício da atividade profissional dos servidores públicos. Não há um policial, um bombeiro, um agente prisional, um professor, uma professora, um técnico, um enfermeiro ou qualquer profissional que exerça um labor que não queira se sentir útil no sentido de resolver os problemas da sociedade, os problemas dos seus iguais.
Infelizmente o estado, como instituição, nas esferas federal, estadual e municipal, está dentro de uma filosofia embutida há mais de 20 anos por organismos internacionais como o Banco Mundial, no chamado Consenso de Washington, que ainda não foi varrido da face da terra, de dizer que servidor público é malandro, que é preciso privatizar, destruir e passar o serviço para um grupo de amigos de uma empresa privada. Estão fazendo isso na saúde pública do estado de Santa Catarina. Estão privatizando a própria segurança.
É cada vez maior o número de vigilantes privados. É cada vez maior a precarização do trabalho. É cada vez maior o esquartejamento do serviço público, para prejuízo de 70% da população que não tem dinheiro para pagar plano de saúde privado, segurança privada e escola privada. Aliás, era preciso criar um projeto de lei dizendo para o deputado, o vereador, o senador, o secretário de estado, o governador colocar o seu filho em escola pública, porque aí valorizariam o serviço público, fortalecendo...
(Discurso interrompido pelo término do horário regimental.)
(SEM REVISÃO DO ORADOR)