Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Afrânio Boppré

90ª Sessão Ordinária - 09/11/2006

O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Sr. presidente, srs. deputados, funcionários da Assembléia Legislativa que nos acompanham nesta sessão, telespectadores da TVAL e radiouvintes da Rádio Assembléia, bom-dia.

Eu gostaria, na manhã desta quinta-feira, de me reportar à capa de um grande jornal de circulação nacional, que é a Folha de S.Paulo.

Recordo-me que há praticamente quatro anos, quando tomávamos posse, os 40 deputados, em sessão solene nesta Assembléia Legislativa, fiz um protesto estampando no plenário da Assembléia uma pequena faixa com o seguinte: "Guerra, não". Nós estávamos vivendo o período prévio ao ataque dos Estados Unidos ao Iraque. Hoje, quatro anos depois, a Folha de S.Paulo traz a seguinte manchete: "Caos no Iraque derrota Bush; Secretário da Defesa renuncia".[sic] Num outro caderno, Mundo, a matéria diz: "Não, americanos usam voto para protestar contra Bush e dão à oposição democrática controle do Congresso." E nada mais nada menos, em ato instantâneo, rolou a cabeça do secretário da Segurança. O sr. Rumsfeld foi demitido porque todos interpretaram como sendo um fracasso a intervenção militar e que significou, inclusive, uma mudança substantiva na composição do Parlamento, no império estadunidense.

Essa visão de futuro, de olhar as ações de hoje e medir as suas conseqüências no futuro, é indispensável para a vida política e econômica do país e do planeta. Por isso trago, também da Folha de S.Paulo, deputado Julio Garcia, um artigo do primeiro caderno, cujo título é: "O enfrentamento das alterações climáticas", escrito, nada mais nada menos, pelo secretário-geral da ONU, o sr. Kofi Annan.

Quero fazer esse paralelo do Kofi Annan com declarações recentes do governador Luiz Henrique da Silveira. O governador criticou os ambientalistas, em especial de Florianópolis, porque estariam fazendo terrorismo ecológico diante de um conjunto de posturas, ações, de opiniões que os ambientalistas estão dando sobre o futuro da Ilha de Santa Catarina.

Eu quero fazer essa analogia dizendo que o secretário-geral da ONU faz a seguinte reflexão:

(Passa a ler)

"Se ainda há alguma dúvida sobre a necessidade urgente de combater as alterações climáticas, dois relatórios publicados na semana passada deveriam alertar o mundo e fazê-lo prestar atenção".[...][sic]

Diz ele que um estudo de um economista, chefe do Banco Mundial, chamado Nicholas Stern, definiu as alterações climáticas como "o maior e mais nocivo fracasso do mercado jamais conhecido". E até parece que o secretário-geral da ONU escreveu um parágrafo dialogando com o governador Luiz Henrique da Silveira, parece que ouviu as palavras dele dez ou 15 dias atrás.

Num parágrafo ele diz assim:

(Continua lendo)

"Os poucos céticos que ainda tentam semear a dúvida deveriam ser vistos como aquilo que são: pessoas que deixaram de ter seguidores, que carecem de argumentos e prestes a serem ultrapassadas."[...][sic]

Vejam, virou moda para desqualificar o debate ambiental do planeta, segregar os ambientalistas e dar cacetada, inclusive impingindo termos pejorativos, ecochatos, etc. Ou seja, como se o problema ambiental fosse de um grupo seleto, de pessoas esclerosadas, obcecadas com a temática ambiental. E o governador Luiz Henrique é mais um daqueles que finge que nada está acontecendo e que o problema é de uma comunidade pequena, isolada, que está vendo aquilo que não existe, que está procurando chifre em cabeça de cavalo.

Mas não é isso que está acontecendo, deputados Julio Garcia e Antônio Ceron. Não é um problema, e não podemos desqualificar. Quem está chamando a atenção, hoje, para os problemas ambientais (e parece que agora alguns estão querendo dar ouvidos) é a comunidade científica, são os cientistas, que estão preocupados e trazem as informações. Gradativamente, começam a vazar informações. As florestas estão em brasa. Na semana passada, não sei quantos hectares, aqui na Serra do Tabuleiro, estavam em chamas. Os rios estão evaporando; os oceanos, ameaçando elevar de nível.

Nós estamos vendo uma mudança completa. Sugerem, inclusive, que dentro de 50 anos em torno de 100 milhões de pessoas deverão abandonar a costa marítima, dada a elevação dos oceanos. Esses são números, dados, indícios do aquecimento global! E esse tipo de visão, que antes era fácil dizer que era uma preocupação bestial dos ecologistas, hoje passa ter o apoio, o aval, a subscrição por parte de toda a comunidade científica. E quem está falando é o secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Portanto, não vamos desqualificar. Diz ele, numa passagem do texto:

(Continua lendo)

"[...] as alterações climáticas são consideradas, com muita freqüência, um problema ambiental, quando deveriam ser vistas à luz de objetivos econômicos e de desenvolvimento mais gerais. Enquanto não reconhecermos a dimensão global da ameaça, nossa resposta continuará sendo insuficiente.

[...]

Não se trata mais de saber se as alterações climáticas se produzem, mas de saber se nós conseguiremos mudar para enfrentar a emergência"[...][sic]

Isso já é óbvio! As alterações climáticas estão acontecendo. O que se está discutindo é a capacidade de a humanidade mudar de rumo.

Por isso, quero deixar aqui o registro de uma reflexão. Também gostaria de dizer que o governador Luiz Henrique deveria trazer programas para colaborar com o Protocolo de Kyoto. As iniciativas de leis, poucas que tomamos aqui, foram obstruídas nesta Casa, a exemplo da regulamentação da plantação de pínus, do problema da água (todas foram obstruídas), mas é necessário colocar na Agenda de Santa Catarina ela como responsável por esse tema também.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)