Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Volnei Morastoni

60ª Sessão Ordinária - 19/06/2002

O SR. DEPUTADO VOLNEI MORASTONI - Sr. Presidente e Srs. Deputados e visitantes.

(Passa a ler)

“Acabo de chegar de um Simpósio Internacional Sobre Saúde do Trabalhador, realizado na Câmara dos Deputados, em Brasília. Seria sobre este assunto que gostaria de me manifestar nesta tribuna.

No entanto, outro assunto dominou as conversas de bastidores neste encontro. O absurdo das declarações do megaespeculador americano George Soros, em recente entrevista à Folha de S. Paulo, segundo o qual os Estados Unidos irão impor Serra, e Lula seria o caos, nas eleições deste ano.

Oportuno, aproveito para reproduzir carta que recebi, de autoria de Dom Demétrio Valentini, da CNBB-Pastoral Social, intitulada: ‘Eleições e Soberania’: mesmo em meio à pausa concedida pela copa mundial, não é possível que passem em branco as afirmações de George Soros sobre a situação do Brasil diante das eleições presidenciais.

Ele declarou, simplesmente, que o sistema financeiro mundial já escolheu o futuro Presidente do Brasil. E tem que ser o escolhido deles, se o País quiser evitar o caos.

Sem nenhuma cerimônia nem constrangimento explicou que ‘no capitalismo global só votam os americanos, os brasileiros não votam’. Justificou sua afirmação dizendo que assim era também no Império Romano, esclarecendo que ‘na Roma Antiga só votavam os romanos’ que eram considerados cidadãos de primeira classe. Os demais cidadãos de segunda classe não votavam, não tinham nenhum direito. Realmente eram escravos e muito menos tinham qualquer direito além de Roma, aquilo que poderíamos também chamar de províncias.

Portanto, segundo este ‘megaespeculador’, representante típico do império dos poderosos que enriqueceram colhendo lucros fabulosos da crise financeira em que se encontram países estrangulados pela dívidas, nós não teríamos mais nada a fazer em outubro.

As eleições brasileiras não seriam para valer, não mudariam nada, só teriam como justificativa ratificar uma decisão já tomada pelos senhores do império e cumprir o ritual da vassalagem dos escravos dos tempos de Roma, de que a história registra alguns requintes de crueldade.

Sabemos, por exemplo, que os condenados à morte precisavam passar diante de César e reverentes se prostrar diante dele, em macabra liturgia que continha a famosa expressão: ‘Ave, Caesar, morituri te salutant’.

Faltaria a justiça eleitoral exigir dos eleitores que trouxessem esta frase como senha, em latim mesmo, ou em tradução adaptada às circunstâncias de hoje: ‘Salve, Bush, os que vão morrer te saúdam’!

As declarações de George Soros nem mereceriam ser citadas, se elas se reduzissem ao que não deixam também de ser: expressão de prepotência e de arrogância de quem acha que o dinheiro compra tudo, até a dignidade dos povos e a soberania das nações.

Mas acontece que Soros não está sozinho. Ele é expressão de um sistema que aparenta neutralidade e que se justifica como fruto de uma realidade econômica irreversível, advogando para si própria uma lógica determinista que estaria acima da liberdade humana. Mas que na verdade é resultante de tramas muito bem urdidas, que aplainaram os caminhos para o capital financeiro gozar de toda proteção para agir segura e livremente, removendo todos os itens do arcabouço jurídico penosamente construído pelas democracias modernas, de proteção ao trabalho e de defesa dos direitos humanos.

Os especuladores acham que o que vale é só o dinheiro e advogam para ele cancha livre à vontade, mesmo que para isto sacrifique a soberania nacional, como propõe Soros para o Brasil.

Ora, o assunto é sério demais. Ele exige um posicionamento dos candidatos, pois a dignidade nacional urge que votemos em candidatos que são nossos, não dos americanos ou de outros especuladores.

Um candidato eleito pelo voto dos especuladores internacionais não teria nenhuma legitimidade para governar o Brasil. O assunto exige também um posicionamento atual do Governo, pois a soberania nacional não pode estar comprometida por nenhuma dependência financeira. Assim como não se vende a alma ao diabo para fazer qualquer negócio, não se aliena a soberania de um país por motivos financeiros.

As eleições vão acontecer, e queremos que o Grito dos Excluídos, programado para a Semana da Pátria, com o lema providencial já escolhido acertadamente: Soberania não se negocia. Nenhum ‘Soros’ especulador, nem outros ‘soros caseiros’ têm o direito de nos impor qualquer candidato, seja ele quem for.

Concluo, Sr. Presidente, dizendo que nas eleições de outubro próximo o povo brasileiro vai decidir entre eleger Lula, que representa a soberania nacional, dignidade, estabilidade econômica com desenvolvimento social, saúde, educação, reforma agrária, moradia, emprego, distribuição de renda, ou o povo tem a opção de continuar com Soros e seus prepostos, no rastro dos especuladores internacionais que semeiam fome, miséria, doenças, violência, e só lhes interessa o lucro ganancioso sem medida, sem fim, sem limites.

Convém também neste momento lembrar que na mesma entrevista em que Soros fez essas afirmações que acabo de me referir, ele também declarou que o Brasil é o melhor aluno do atual modelo político econômico hegemônico do mundo capitaneado pelos Estados Unidos. Mas convém também lembrar que há muito pouco tempo esse mesmo modelo também considerava como o melhor aluno a Argentina, antes de começar a espiral que a levou a um poço sem fundo. Não obstante, ‘a melhor aluna’, a Argentina, foi abandonada por esses especuladores à própria sorte.

Por isso, afirmamos que eles, os especuladores e seus asseclas, seus apoiadores, é que são os semeadores do caos. Ou melhor, eles são o próprio caos.

Portanto, não podemos aceitar essa situação de humilhação. No mínimo, queremos o Brasil para os brasileiros!”

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)