61ª Sessão Ordinária - 22/07/2008
O SR. DEPUTADO SARGENTO AMAURI SOARES - Sra. presidente, srs. deputados, telespectadores da TVAL, ouvintes da Rádio Alesc Digital, realizamos, no espaço físico da Assembléia Legislativa, neste último fim de semana, o IV Encontro Nacional do Fórum de Unidades Comunistas. Foram dois dias inteiros, e mais a noite de abertura, discutindo questões profundas e de grande importância para o futuro da sociedade humana e daqueles que trabalham para sobreviver.
Desde 1956 os comunistas brasileiros têm mais se dividido do que atuado conjuntamente. Ciente das dificuldades ocasionadas por essa dispersão, o Partido Comunista Brasileiro - PCB -, a Refundação Comunista e a Corrente Comunista Carlos Prestes, acerca de três anos, de comum acordo, decidiram criar o Fórum de Unidades dos Comunistas para debater com profundidade e com o tempo necessário os temas centrais da luta dos trabalhadores contra a exploração e a opressão. E esse debate é absolutamente necessário para uma possível caminhada conjunta de retorno à unidade dos comunistas brasileiros.
Foram seis meses de debates, com os mais qualificados expositores e com mais de uma centena de militantes comunistas vindos de diversas regiões do Brasil. Tivemos presenças internacionais importantes como: Miguel Urbano Rodrigues, de Portugal; Nageeb Amado, do Partido Comunista do Paraguai; Carlos Lozano, do Partido Comunista da Colômbia; e Carolus Wimmer, do Partido Comunista Venezuelano, que é deputado na Venezuela e vice-presidente do Parlamento Latino, o Parlatino.
Queremos agradecer aqui a todas as pessoas que contribuíram para o êxito do evento, aos militantes que trabalharam de forma incessante durante semanas. Agradeço, de forma especial, também à Mesa Diretora da Assembléia Legislativa, a sra. deputada Ana Paula Lima, na pessoa do presidente, agora afastado, Julio Garcia, que se colocou prontamente favorável à realização do evento aqui no espaço, mostrando grandeza e espírito democrático.
Agradeço também à diretora da imprensa, Lúcia Helena, e a todos os servidores, trabalhadores da imprensa da Assembléia Legislativa, assim como aos demais servidores deste Poder, que contribuíram, até a noite de sábado, quando não tinham a obrigação de estar trabalhando, para a realização do evento.
O encontro, como eu falei, discutiu vários assuntos importantes, dentre os quais a atualidade da América Latina e, mais especificamente, a questão do conflito na Colômbia. Os comunistas colombianos, assim como nós, defendem uma saída política para a situação daquele país. É preciso, no entanto, que essa saída negociada compreenda a real situação e a história do povo colombiano.
A guerra civil atual, deputado Moacir Sopelsa, já dura 60 anos. Então, não podemos falar como sendo um episódio que tenha começado no ano passado, no mês passado ou há dez anos; ela já dura 60 anos. Começou em 1948, quando um grupo de agricultores posseiros, que não tinham, portanto, o título da terra, resistiram à agressividade dos fazendeiros, da oligarquia colombiana. Resistiram com armas e desde lá dura a atual guerra civil na Colômbia. Não é uma situação criada artificialmente; ela está enraizada no solo, no sentimento do povo colombiano.
Estou falando só da última guerra civil, porque toda a história da Colômbia é de uma guerra civil, e para quem quiser conhecer mais, ou ter alguma idéia, mesmo que vaga, é só ler Gabriel Garcia Márquez, o maior escritor do povo colombiano, no livro Cem Anos de Solidão.
Até 60 anos atrás, a guerra civil foi entre liberais e conservadores, e não dava dez anos de paz entre uma e outra. A atual, como falei que já dura 60 anos, tem nos últimos 44 anos um conflito entre comunistas e a oligarquia histórica do povo colombiano. Então, abordando e compreendendo essa questão é que, na condição de militante social, na condição de comunista e na condição, permitam-me dizer, de uma pessoa que entende alguma coisa de negociação, de conflito, quero dizer que a solução que se busca dar para o conflito, nesse momento, está profundamente equivocada, pois pretende arrasar, massacrar uma das partes.
Nós tivemos, e acompanhamos pelos meios de comunicação no último final de semana, um grandioso e ufanista ato na cidade de Letícia, na Colômbia, onde esteve presente, inclusive, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva. E aquele ato, a nosso ver, reveste-se de um cinismo enorme, porque estamos falando de uma paz em que um dos lados de um conflito histórico, permanente, enraizado no seio, no tecido social do povo colombiano, não é qualquer coisa artificial que se inventou. E pensam que irão resolver esse conflito armando ainda mais um dos lados.
A insurgência colombiana não vai ser derrotada pelo governo Álvaro Uribe Vélez ou pelo seu sucessor, muito embora todos os governos da
Colômbia estejam há 60 anos dizendo que na semana que vem terão uma vitória final. A insurgência colombiana não será derrotada assim, e o presidente atual da Colômbia não é a pessoa mais adequada para dirigir esse processo, até porque ele não reprime apenas a insurgência. O governo da Colômbia, srs. deputados, reprime o movimento social pacífico e organizado da Colômbia.
Só neste ano de 2008 já foram assassinados 28 sindicalistas e 17 lideranças estudantis. Estou falando de dirigentes sindicais e militantes estudantis, e não de guerrilheiros que foram assassinados nas ruas e nas escolas da Colômbia. O governo Álvaro Uribe Vélez nasceu do paramilitarismo que, inclusive, em documentos confidenciais da década passada, do Departamento de Estado Americano, figurava no número 82 como os dirigentes, os patrocinadores na Colômbia do narcotráfico. E temos esse documento.
Esse governo, que é filho do movimento paramilitar, não está habilitado para conduzir a Colômbia à paz. Não adianta fazer um ato com milhares de pessoas vestidas de branco. E o governo brasileiro, deputada Ana Paula Lima, permita-me dizer, participa de uma farsa. É cínica essa paz que Álvaro Uribe quer desenvolver na Colômbia, e o governo brasileiro - e isso precisa ser dito aqui porque não foi falado nos meios de comunicação - vende armas para a Colômbia. Como fazer um discurso pela pacificação, pela mediação política do conflito, se o governo, se o presidente Lula vai à Colômbia para reforçar, e não só para vender arma a partir de agora, mas para construir uma indústria com o governo colombiano. O Lula disse que agora não basta mais só vender armas, que é preciso uma ação conjunta na construção de uma indústria bélica comum. E a Colômbia é o principal país mais armado na América Latina e do Caribe.
O presidente, que foi reeleito e quer o terceiro mandato - e isso também não é dito no Brasil -, não pode, em hipótese alguma, ter o apoio, o fortalecimento, mais armamento, porque os Estados Unidos já armam o governo da Colômbia. A Colômbia, com relação ao Uribe, é aquilo que significa Israel no Oriente Médio: o braço armado do imperialismo dos Estados Unidos! E essa paz que tanto eles têm falado é cinismo porque para construir a paz na Colômbia é preciso construir uma negociação em que participem as forças vivas da sociedade colombiana, e essas forças estão sendo massacradas pelo governo de Álvaro Uribe, inclusive aqueles que estão na via pacífica organizando os trabalhadores.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)