Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Nelson Goetten

44ª Sessão Ordinária - 31/05/2006

O SR. DEPUTADO NELSON GOETTEN - Sr. presidente e srs. deputados, ouvindo os deputados Eduardo Cherem e Paulo Eccel tecer os seus comentários, achei muito interessante a grandeza, a importância do debate, deputado Vieirão, quando saímos das questões político-partidárias para um debate mais produtivo. No momento em que começam a acirrar os ânimos sobre as questões políticas, fazer um debate desse calibre, sobre um assunto dessa grandeza, é muito importante.

Mas quando eu estava ouvindo esse pronunciamento, eu voltei um pouco no tempo, aos meus 25 anos, em uma comunidade de um pequeno município de Santa Catarina conhecida por sua grande produção de arroz. Eu me criei naquela comunidade, onde meu pai vive até hoje. Naquela época, os meus dois primeiros filhos já eram nascidos, portanto, já era casado. Foi aí que se inaugurou, numa bela festa, a energia elétrica naquela comunidade. Ao chegar a energia elétrica, pareceu-me que chegava a transformação, a realização de um sonho e um milagre para aquela comunidade. Uma coisa bela! E aí começaram os nossos problemas, pois chegava a questão do conhecimento. V.Exa. falou bem: o conhecimento, quando é empurrado de forma direcionada ao consumismo, como é o caso dos nossos veículos de comunicação, na sua maioria, acabam nos levando a essa situação que estamos vivendo hoje.

Quando chegou a energia, que era para ser festejada - e deve ser, porque a tecnologia e a modernidade fazem parte do mundo e são importantes - nós não estávamos preparados, deputado Sérgio Godinho, para aquele choque de crescimento tão rápido. E se me dissessem, naquela época, que em pouco tempo iríamos ver o agricultor com o seu celular na lavoura e que teríamos acesso ao computador, à internet e que nos poderíamos comunicar com o mundo inteiro através dela, eu iria pensar que havia acontecido um segundo milagre.

Mas não! Era uma realidade que vinha do conhecimento e nós não estávamos preparados para esse choque de conhecimento com tanta rapidez. Houve conseqüências, sim, e conseqüências violentas para nós, porque chegavam à nossa casa informações que nos induziam ao consumo, informações para as quais não estávamos preparados nem financeiramente. Acabávamos comprometendo até a nossa atividade para acessar a uma oferta de consumo para a qual não tínhamos recurso, mesmo aumentando de forma significativa a produção.

Então, começamos a viver a insatisfação! Como se não bastasse isso, começamos a enfrentar a dificuldade da educação virar um grande comércio no Brasil e nós não tínhamos a preocupação de formar um cidadão preparado para enfrentar essa indução ao consumo.

Depois disso, veio uma coisa pior, que é a questão do jovem ou das pessoas expostas à marginalidade. O jovem, hoje, com 16 anos de idade, que não pode trabalhar por causa da lei, acaba ficando na rua. Os pais têm que trabalhar de manhã à noite e os filhos, como só estudam de manhã, acabam ficando na rua, pois a lei não permite que eles trabalhem. Então, acabamos expondo esses jovens a problemas gravíssimos, comprometendo o seu futuro.

Essa é uma realidade que preocupa todos nós. Eu acredito que não há, deputado Valmir Comin, nada mais importante para mudar e para criar rumos novos para o nosso país do que a educação, do que o conhecimento! Eu mesmo sou fruto da dificuldade do conhecimento. E onde eu fui parar? Eu fui ser vereador, prefeito da minha cidade e duas vezes deputado sem uma hora sequer de aula para preparação, deputado Antônio Carlos Vieira! Ninguém me deu uma hora de aula nem me perguntou se eu queria enveredar para a vida pública ou se queria pelo menos fazer um cursinho básico para isso.

Ninguém está proibido de se envolver na vida pública, mas tem que ter um mínimo de conhecimento. Mas não! Eu sou fruto apenas da vontade de uma comunidade que precisava escolher alguém para representá-la, buscando um dos seus membros, sem se preocupar se ele tinha ou não conhecimento. E quantas são as conseqüências disso para o escolhido - que sofre muito pela falta de conhecimento - e para a sociedade?!

E no interior, deputado Vieirão, é pior ainda. O povo, para o qual agradeço muito, da minha terra, do meu município, Taió, elegeu-me prefeito, como elegeu também um cunhado meu prefeito do município de Mirim Doce e muitos prefeitos desse interior. A esses prefeitos, que são apenas humildes cidadãos, sem conhecimento administrativo e nem de leis, é oferecido um salário de R$ 1.500,00 para que ele contrate um assessor jurídico, um procurador. Imaginem v.exas. quem ele vai contratar por R$ 1.500,00! Qual é o conhecimento desse procurador e quais são as conseqüências pelas quais depois vai ter que responder esse cidadão, que muitas vezes é um homem cheio de boas intenções?!

Esse cidadão é cheio de boas intenções, mas sem conhecimento! Não domina nem a arte da administração pública e muito menos tem conhecimento das leis. E depois fica essa pessoa muitas vezes pagando pelo resto da vida, sendo humilhado, subindo escada de fórum por causa de um ato que assinou e que nem sabia o que estava assinando, pois não detinha conhecimento, como também os seus assessores e procuradores, vendo o seu futuro comprometido. É muito angustiante isso.

Por isso concordo, deputado Eduardo Cherem, que a saída para o Brasil é o conhecimento. E se nós vivemos a situação que vivemos hoje, é por termos pecado quanto ao acesso ao conhecimento.

Quando eu escuto falaram que o presidente Lula, hoje, tem 48% das intenções de voto, tenho que me penitenciar. Se ele conseguiu esse índice é porque nós erramos muito no passado! É porque nós temos uma dívida muito grande com a sociedade no passado e que hoje ela nos está cobrando essa conta. Porque senão isso não aconteceria, até porque o presidente Lula não merece esses índices, hoje, por uma série de razões que todos nós conhecemos. E até o próprio PT concorda!

Mas como nós temos uma dívida a pagar à sociedade pela nossa incompetência, nós, hoje, estamos pagando esse preço. Mas estou convencido, deputado Ronaldo Benedet, de que o futuro do Brasil ainda depende de investimento maciço em educação. Uma pessoa bem preparada, com oportunidade na vida, tem mais conhecimento para enfrentar e solucionar os problemas da vida. Uma menina que engravida com dez anos, 13 anos é porque falta a ela preparo e conhecimento, porque se ela fosse dotada de conhecimento, é lógico que isso não aconteceria.

Quando um jovem vai para a marginalidade é por falta de conhecimento, porque se ele ficasse de manhã à noite na escola, ocupado em cursos técnicos, é lógico que teria uma oportunidade de futuro. Mas nós não estamos oferecendo ao jovem essa oportunidade de futuro, pois deixamo-lo exposto às ruas para que os marginais possam usá-lo como instrumento do crime. Nós estamos entregando o nosso jovem como instrumento do crime, porque os marginais que atingiram a maioridade ficam usando os menores para que eles cometam o crime, beneficiando, assim, os quadrilheiros, aqueles que organizam o crime, usando o nosso jovem de forma terrível.

Então, para finalizar, eu quero dizer que gostei muito de escutar o comentário dos deputados Eduardo Cherem e Paulo Eccel, pois foi um debate produtivo, sendo abordado um assunto muito importante, que interessa à sociedade. Nós temos divergências, é claro. Cada um tem um partido e cada um tem um candidato, mas nem por isso precisamos aqui acirrar os ânimos e partir para uma briga, ofendendo-nos ou machucando-nos. Podemos fazer uma campanha respeitando...

(Discurso interrompido por término do horário regimental.)

(SEM REVISÃO DO ORADOR)