101ª Sessão Ordinária - 12/12/2006
O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Sr. presidente e srs. deputados, assomo à tribuna na tarde de hoje, primeiramente para reforçar a idéia, a defesa da necessidade de mantermos as estruturas públicas defendidas, entre elas o Besc.
Aproveito para reiterar aqui o esforço que precisamos fazer, enquanto Assembléia Legislativa, para tirar o Besc da lista do Plano Nacional de Desestatização. Acho importante a deputada Ana Paula e o deputado Paulo Eccel virem buscar uma linha de coerência, uma linha de defesa do patrimônio público. Mas o governo federal, o governo Lula está devendo a Santa Catarina, pois o Banco do Estado de Santa Catarina está na lista do Plano Nacional de Desestatização. Está lá há quatro anos hibernando, porque não se sabe exatamente qual é o destino, se é o da privatização, se é jogar o Besc para o mercado financeiro, se é a reestadualização ou se é mantê-lo federalizado. Mas se é para mantê-lo federal, que seja retirado imediatamente do Plano Nacional de Desestatização.
O Besc é a bola que está na marca do pênalti, mas não se sabe para onde vão chutar. Por isso a necessidade, a melhor medida de defender o banco público é tirá-lo do Plano Nacional de Desestatização, porque ele está na iminência. Ele foi jogado nessa lista pelo Fernando Henrique Cardoso, pelo PSDB, mas ele precisa ter um encaminhamento, não podemos deixar esse banco hibernando para sabermos qual será o seu destino.
Mas, sobretudo quero chamar a atenção, na tarde de hoje, para as declarações do presidente Lula no dia de ontem, quando participou do aniversário de 30 anos da revista IstoÉ. Eu sou obrigado aqui a fazer alusão às manifestações. Disse o presidente Lula, no dia de ontem, para uma platéia seleta de empresários e políticos, que a vida vai definindo a posição político-ideológica das pessoas pela sua faixa etária: "É a evolução da espécie humana:(...)" Meio darwinista, o Lula agora virou um estudioso da evolução da espécie humana.
(Continua lendo)
"(...)quem é mais de direita vai ficando mais de centro, quem é mais de esquerda vai ficando social-democrata." Ou seja, é a tese de que os dois extremos convergem, basta deixar a idade ir passando.
Eu gosto muito do trecho de uma música cantada pelo Cazuza que diz assim, deputado Reno Caramori: "Suas idéias não correspondem aos fatos." É bom lembrar que é isso que está acontecendo com o presidente Lula, as idéias dele não correspondem aos fatos, porque senão eu aceitaria a idéia de que, por exemplo, Luiz Carlos Prestes teria saído de uma posição de centro ou de esquerda, e morrido no centro ou na direita.
Como justificar, por exemplo, a retidão, a conduta, de um professor Florestan Fernandes que, de cabelos brancos, morreu falando e lutando pelo socialismo? Como justificar, por exemplo, Jacó Goerender?
As idéias do presidente Lula são de que a idade faz modificar a posição política por uma natureza de maturidade, como se fosse um abacate. Deixa amadurecer que a ideologia muda. Não é da natureza a definição ideológica, ela é social, é determinada socialmente, politicamente. A ideologia não é da natureza.
O presidente Lula diz da seguinte forma:
(Continua lendo)
"As coisas vão confluindo de acordo com a quantidade de cabelos brancos e de acordo com a responsabilidade que você tem. Não tem outro jeito. Se você conhecer uma pessoa idosa esquerdista é porque está com problema. Se acontecer de conhecer alguém muito novo de direita é porque também está com problema. Quando a gente tem 60 anos, está no equilíbrio porque a gente não é nem um e nem outro."[sic]
Esse depoimento do presidente Lula é simplesmente para justificar a sua traição. Como ele traiu a classe, como ele traiu a sua origem política, ele quer agora encontrar uma maneira de justificar. Dizer que se encontrar alguém muito idoso de esquerda, essa pessoa é problemática? Então o dom José Gomes, deputado Pedro Baldissera, é problemático, na opinião do presidente Lula. O Jacó Goerender é problemático, na opinião do presidente Lula. Os jovens do PP, do PFL, do PSDB, do PMDB e do próprio PT, que têm uma posição à direita, são problemáticos?
Ora, essa é uma tentativa de desqualificar, é uma tentativa do presidente Lula de desqualificar as posições políticas e ideológicas. A ideologia já não é mais construída pelos veículos de comunicação. Não! A idade resolve a ideologia! Não é mais a escola que forma a posição político-ideológica. Não são mais as instituições: o Parlamento, o Executivo, o Judiciário; a sociedade não forma mais posição ideológica. É a idade! Sendo jovem tem DNA de esquerda, e se é idoso tem DNA de direita.
Ora! É muito próximo àquele artigo que foi escrito pelo governador Luiz Henrique este ano, que se aproximava da idéia nazista de que as posições políticas estavam definidas por uma definição de DNA. Está na natureza, ao nascer já se carrega uma posição de esquerda ou de direita, ou seja, o meio social não interfere.
Então, quero simplesmente aqui na tribuna lamentar a manifestação do presidente Lula, no dia de ontem. Eu sei que ele precisa agradar, precisa ganhar o interesse do mercado, até porque o financiamento de campanha foi generoso, dos banqueiros, das grandes empresas. Inclusive hoje as contas estão sendo julgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral. Empresas que fornecem serviços ao governo federal, à União, jorraram milhões de recursos para a campanha do PT. Então ele tem que justificar que ele agora não é mais da esquerda, que está indo para o centro, que virou amigo do Delfin Neto, dizendo: Critiquei o Delfin, mas agora sou amigo.
Mas quero lamentar, registrar aqui na tribuna, a posição do presidente Lula. Não porque ele me surpreenda agora dizendo que está cada vez mais à direita. Não me surpreende, porque eu assisti isso dentro do PT, vivi e combati esse tipo de postura. O que eu critico é a tentativa dele querer desqualificar, por exemplo, alguém de cabelo branco e que seja de esquerda, ou querer desqualificar alguém jovem que seja de direita. Essa é uma postura autoritária do presidente Lula onde a política não pode estar mais em disputa independente de faixa etária.
Então essa postura autoritária, equivocada do presidente Lula, merece aqui da tribuna da Assembléia Legislativa, no meu modo de entender, ser combatida, negada, porque se aproxima cada vez mais de uma justificativa do presidente que traiu seus interesses, traiu sua trajetória e precisa publicamente justificar, porque cada vez mais ele, o PT e o seu governo se abraçam com a direita deste país.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)