Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputada Ideli Salvatti

13ª Sessão Ordinária - 11/03/1999

A SRA. DEPUTADA IDELI SALVATTI - Sr. Presidente, Srs. Deputados e Sra. Deputada, eu retorno à tribuna no dia de hoje porque ontem não era o dia escalado para o meu pronunciamento, mas tive que fazê-lo por conta dos acontecimentos da sessão de ontem, em que o Deputado Pedro Uczai, muito gentilmente, cedeu-me o seu horário.

Volto à tribuna para tratar do mesmo assunto, sob uma outra ótica, no dia de hoje, porque estamos encerrando, nesta quinta-feira, a semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, que iniciou na segunda-feira com uma sessão especial que trouxe um tema de relevância, que inclusive é tema do editorial do jornal O Estado, o assunto que nós tratamos aqui, a questão da contaminação da Aids, em especial o crescimento da contaminação das mulheres.

Nessa semana, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, eu já tive a oportunidade - na própria sessão de segunda-feira - de me admirar com o espírito de poesia, de homenagem, de sensibilidade dos Parlamentares da Casa para com a atuação das mulheres, para com o papel das mulheres. Inclusive, fiz uma brincadeira ao dirigir os trabalhos, e estava guardando todas as poesias feitas na sessão especial do dia 8 de março, porque queria saber até quando iríamos ter esse clima respeitoso para com as mulheres. Isso não durou três sessões. Já no dia de ontem tivemos aqui, neste Plenário, uma demonstração inequívoca do comportamento machista da ampla maioria de diversos Parlamentares desta Casa.

Se as declarações que provocaram todas as manifestações no dia de ontem tivessem sido proferidas por um homem, por um Parlamentar, eu tenho absoluta certeza de que a discussão passaria por outro viés, passaria por outros argumentos, passaria, indiscutivelmente, por outros adjetivos. Mas como as declarações - a análise política do que está colocado com grandes perspectivas de acontecer dentro desta Assembléia Legislativa, dentro deste Poder - foram feitas por uma mulher, a linha de argumentação, a desqualificação colocada nesta tribuna, nos microfones de aparte, veio eivada, repleta de afirmações machistas na desqualificação pessoal, como um ranço de séculos e séculos de amortização, de eliminação da perspectiva, da participação e da emancipação das mulheres.

Adjetivos como malcriada, mal-educada, mal-amada e bruxa não seriam em hipótese alguma colocados para um homem! Mas para uma mulher, sim, quando uma mulher tem coragem de falar o que pensa, de enfrentar e de encarar os homens! Aí a discussão não é política, a discussão é pessoal, a discussão é desqualificar a pessoa da mulher.

Então, não poderia deixar de encerrar a semana com essas observações e o repúdio, exigindo, inclusive, como foi exigido deste microfone, providências da Mesa, sim, porque discriminação é crime! E ontem eu me senti discriminada. Não sei se a Deputada Odete do Nascimento também se sentiu. Quando uma mulher é desqualificada e é nominada com esse tipo de adjetivos, seja lá o que ela tenha feito, eu, como mulher, me sinto ofendida, sinto-me profundamente ofendida.

É importante, inclusive, ter algumas aulinhas de história quanto a determinados adjetivos, como a questão da bruxa, pois é muito importante saber por que bruxas existiram e foram queimadas durante a Inquisição. É importante, inclusive, saber historicamente por que isso aconteceu, por que a imposição da Igreja Católica se colocou de forma muito ostensiva, com o apoio do Estado, na época, para queimar mulheres que se detinham nas religiões célticas.

Basta ler o livro Brumas de Avalon para entender o papel que as sacerdotisas desempenhavam na sociedade a partir da cura, a partir do conhecimento das ervas, da medicina, do parto, das questões de fertilidade. E a Igreja Católica - com o apoio do Estado, da sociedade e das classes dominantes da época - só tinha um jeito de se impor e de acabar com o poder que as mulheres tinham: era considerá-las bruxas e queimá-las na fogueira, para poder ter o controle absoluto da cultura, do conhecimento e da medicina.

Então, quem não tem conhecimento de história, pode vir aqui e falar a palavra bruxa sem saber o significado e a profunda dor que isso causou, a profunda opressão que isso significou com relação às mulheres ao longo da história da humanidade.

Então, é lamentável que a semana - em que se comemorou o Dia Internacional da Mulher com flores e poesias - tenha terminado da forma machista como aconteceu na sessão do dia de ontem.

Muito obrigada!

(SEM REVISÃO DA ORADORA)