Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Sérgio Godinho

94ª Sessão Ordinária - 22/11/2006

O SR. DEPUTADO SÉRGIO GODINHO - Sr. presidente, srs. deputados, quero também saudar os vereadores mirins que participam desta sessão, agradecendo-lhes a presença.

Eu gostaria de usar a tribuna no dia de hoje, para registrar o aniversário da cidade de Lages, que está completando 240 anos. E para fazer este registro nesta Casa, gostaria de registrar um fato muito importante, que foi o sertanejo do Desterro, como Florianópolis era chamada antigamente. O primeiro sertanejo que descobriu a região do planalto serrano fez a ligação da ilha até a cidade de Lages.

(Passa a ler)

"As imponentes montanhas da Serra do Mar, vistas da Ilha de Santa Catarina, são uma impressionante paisagem para quem tem como destino a serra catarinense.

No entanto, o cenário para o observador do século XVIII representava um paredão intransponível a discorrer do segredo dos sertões das Lages, recém povoado e pertencente à Capitania de São Paulo."

Então, esse registro aqui é uma homenagem e um agradecimento ao povo ilhéu, ao manezinho da ilha, que ajudou no crescimento da nossa cidade de Lages.

(Continua lendo)

"Muitos meses de uma dura viagem se passaram. Quase oito meses sertão adentro, incluindo as duas saídas do litoral. Os mantimentos estavam acabando e as dificuldades não eram poucas. Mas finalmente surgiu um alento, quando, no dia 5 de agosto daquele mesmo ano, o alferes Costa encontrou um 'rio espaçoso', o hoje conhecido rio Canoas. Aprontaram uma jangada e nela Antônio José da Costa foi o primeiro homem branco, e também o primeiro catarinense, a descer o rio a partir do afluente Santa Clara até a 'guarda do Canoas', lugar em que encontrou soldados do regimento da capitania de São Pedro e onde hoje passa a BR- 116, na cidade de Correia Pinto.

O caminho para o 'sertão das Lagens' estava 'descoberto'. Ilha e serra estavam ligadas para sempre. O alferes Costa foi o primeiro homem a ligar a Ilha de Santa Catarina com a 'Vila das Lagens' e esta ligação foi um dos aspectos fundamentais para, mais tarde, Lages ser desmembrada da capitania de São Paulo e ser anexada à capitania de Santa Catarina, em 9 de setembro de 1820.

Antônio José da Costa, o catarinense da Ilha de Santa Catarina que 'descobriu' Lages, ficou impressionado com o que viu, quando avistou os campos serranos e as matas cobertas por araucárias, sassafrás, ipês amarelos e roxos, canelas e outras árvores. As imensas coxilhas de pastos abrigavam o gado alçado (chucro, bravio, solto), que se multiplicara na região muito antes de outro Antônio, o português Antônio Correia Pinto de Macedo, chegar para povoar as 'paragens das Lagens', em 22 de novembro de 1766.

O alferes Antônio José da Costa, ao chegar e avistar a região de Lages, em 8 de agosto de 1787, contemplou-a e, em tom profético, pensando nas oportunidades potenciais oferecidas pelo lugar a sua própria gente que vivia nos perigos e incertezas da costa do mar, constatou e apreendeu o que diria e escreveria um mês mais tarde, 8 de setembro de 1877, ao expor aquela belíssima região.

Na história de Lages essas palavras são revestidas de grande significado e importância. Nelas estavam 'inscritas' as principais vocações de Lages e, por extensão, as da região serrana, com destaque para a indústria da madeira.

O alferes Costa foi um homem de visão, que custeou as próprias despesas da expedição para ligar a Ilha de Santa Catarina à região dos campos de Lages. Foi também o primeiro catarinense de que se tem notícia (o fundador, Correia Pinto, era português) a beneficiar a madeira, o pinheiro araucária para uso próprio que existia naquela região.

A 'empresa' de Antônio José da Costa não foi revestida de inocente intenção patriótica. A iniciativa não foi um ato cívico heróico planejado para os anais de uma história/monumento para as gerações futuras. O próprio alferes Antônio José da Costa tiraria proveito financeiro do desbravamento. O que não diminui os seus méritos. Ele investiu dinheiro de seus próprios recursos e pela exposição que fez às autoridades de Desterro, no seu retorno, soube valorizar o seu 'descobrimento' e vender a idéia do potencial econômico e estratégico da região serrana dos campos de Lages para a província de Santa Catarina.

Outro aspecto notável a destacar é que o alferes não contratou um expedicionário que o representasse na abertura da picada até o planalto lageano. Ele próprio sentiu na pele, junto com seus homens, o rigor das chuvas e do frio congelante da serra nos meses de julho e agosto, expondo-se igualmente a todo tipo de perigos já mencionados. Além disso, o grupo liderado pelo sertanista não possuía agasalhos adequados ao intenso frio, não pelo menos até chegar à vila de Lages. Posteriormente, no relatório de viagem, o alferes lembrou as dificuldades pelas quais passaram para chegar até à cidade de Lages.

As 'dificuldades da derrota', a abertura da picada na mata, foram consideráveis. Julgava-se, até então, que era um sertão impenetrável e sua transposição, impraticável. Antes dele houve outras tentativas incipientes de vencer o sertão, mas sem êxito. Por outro lado, além do comércio vislumbrado, uma das outras intenções no empreendimento - ligar a Ilha de Santa Catarina a Lages - tinha como objetivo, já mencionado, possibilitar uma rota de fuga e um lugar para o estabelecimento da pólvora retirante em caso de invasão espanhola aqui na ilha. Isso poderia indicar uma razão menos nobre. No entanto, sem entrar em um determinismo histórico, é preciso lembrar que havia um sentido prático em sua visão.

A ilha já fora invadida dez anos antes, em 1777, sem qualquer resistência da armada portuguesa fundeada para defender a população de inimigos invasores. Seria inteligente esperar pelo futuro e improvisar quando o pior acontecesse? Foi neste contexto que o alferes, com visão comercial e ao mesmo tempo com visão de previdente estrategista, tornou-se um dos mais importantes sertanistas catarinenses. Ele visualizou, como ninguém o havia feito, o potencial para o estabelecimento do povo da vila do Desterro, na região de Lages, em caso de necessidade de fugir dos espanhóis. Sem se dar conta, ele anteviu e predisse o futuro desta região no revolucionário 'ciclo da madeira de araucária' da serra catarinense, o qual ocorreu muito mais tarde, quando o seu equivalente a muitas vilas do Desterro afluiu para Lages em busca do cobiçado 'ouro verde' da aparentemente interminável 'quantidade tão prodigiosa de pinheiros'.

'Rasgado o primeiro picadão na selva', o traçado tornou-se, durante um século, o meio de comunicação entre a capital, 'Desterro', e o interior, dos campos de Lages, na serra. Após a descoberta, o capitão voltou para a ilha através do mais antigo e distante caminho, a serra dos Conventos, que o levou de Araranguá até Laguna.

O sertanista é referido, à época, em algumas fontes como capitão, (Costa, Otacílio 1944). No entanto, as fontes mais antigas (Coelho, Almeida 1877) atribuem-lhe o título de alferes no momento histórico aqui tratado. Na história de Lages, Antônio José da Costa foi uma importante figura, tal qual o colonizador Antônio Correia Pinto, que havia chegado à região, em 1766, para fundar a vila de Lages. A façanha do sertanista catarinense 'descobridor' de Lages e, de um ponto de vista econômico-estratégico, desbravador de sertões resultaria, com o tempo, em grandes desdobramentos sócio-políticos e no estabelecimento de descendentes da própria família Costa, luso-brasileira do Desterro, nesta região dos campos serranos de Lages."

Então, com este relato agradecemos, em nome do povo lageano, a participação valiosa na história de Lages de Antônio José da Costa, que foi o primeiro ilhéu a fazer a ligação da Ilha de Santa Catarina até a cidade de Lages.

Quero parabenizar toda a população do município de Lages pelo seu aniversário e desejar a todos que possamos, integrados nessa união de lageanos, serranos e ilhéus, proporcionar melhor qualidade de vida para aquela região tão próspera e tão feliz hoje completando os seus 240 anos.

(Discurso interrompido por término do horário regimental.)

(SEM REVISÃO DO ORADOR)