19ª Sessão Ordinária - 01/04/2004
O SR. DEPUTADO WILSON VIEIRA - Sr. Presidente, Sras. Deputadas, Srs. Deputados, público que nos prestigia e telespectadores da TVAL.
(Passa a ler)
"Os anos de Chumbo e os Homens de Fibra
No final de março de 1964, um golpe de estado implantou no Brasil uma ditadura que ninguém esperava que durasse mais de duas décadas. A interrupção do processo democrático impossibilitou que a superação do populismo fosse decorrência do desenvolvimento institucional do País. O impacto que os anos de autoritarismo produziu em nossa cultura política é muito difícil de ser dimensionado. Toda uma geração de brasileiros foi formada em um contexto de cultura de medo, de censura, de prepotência, de centralização político-administrativa e de corrupção.
O cenário político internacional marcado pela guerra fria e a revolução cubana, que ocorreu poucos anos antes e assumiu caráter socialista, contribuiu para emoldurar o quadro terrível do golpe ocorrido no Brasil. Entretanto, a intervenção imperialista dos Estados Unidos, através da atuação clandestina da CIA na desestabilização do Governo eleito pelo povo, constitui apenas um dos fatores que levaram à implantação da ditadura militar.
As classes dominantes de nosso País se valeram muito do discurso anticomunista e do terrorismo de Estado para manter seus privilégios, agravando ainda mais nossas enormes desigualdades sociais. A censura ajudou a acobertar os escândalos de corrupção. As instituições financeiras governamentais socorriam empreendimentos desastrados, criando uma espécie de capitalismo sem riscos. As elites aprofundaram a prática de privatizar os lucros e socializar as perdas. As empresas estatais eram geridas por militares comprometidos com os interesses da elite civil predatória. Com as obras faraônicas, o endividamento público se multiplicou. O País cresceu, enriqueceu, e o povo trabalhador, que construiu esta riqueza, continuou cada vez mais pobre.
No final de abril de 1984, a população brasileira tomou as ruas em manifestações que reivindicavam eleições diretas para a Presidência da República. Nesta época, os movimentos sociais puderam se manifestar porque nos tempos mais difíceis houve quem mantivesse acesa a chama da liberdade.
Da ditadura militar ficaram lições que nunca devem ser esquecidas. Uma das mais belas páginas de nossa história foi escrita por aqueles que representaram a resistência democrática. Aqueles que não se curvaram ante as baionetas e os coturnos, não deitaram candidamente sua cabeça nos ombros de generais nem acenaram cinicamente de sacadas palacianas ao lado de ditadores para o povo em fúria na praça. Se hoje podemos escolher livremente nossos governantes, não podemos ignorar que devemos isso aos que, com sua fibra e sua coragem, resistiram ao autoritarismo e defenderam a democracia e a liberdade.
O passado não pode ser mudado, como muitos gostariam. Para alguns, é motivo de vergonha e deveria ser esquecido ou ignorado. Para outros, que lutaram e resistiram, como por exemplo o Ministro José Dirceu, o passado é motivo de grande orgulho. Sim, ele é um brasileiro que pode ser citado como exemplo do nosso povo, pois se mostrou capaz de honrar nossas melhores tradições de solidariedade e de amor à liberdade.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)