Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputada Ideli Salvatti

86ª Sessão Ordinária - 30/08/1999

A SRA. DEPUTADA IDELI SALVATTI - Sr. Presidente, Sra. Deputada e Srs. Deputados, inicialmente quero fazer desta tribuna a homenagem, em nome do Partido dos Trabalhadores, a uma das figuras humanas mais respeitadas em nível nacional e internacional, que infelizmente perdemos neste final de semana, que foi a pessoa do Arcebispo Dom Helder Câmara.

Dom Helder Câmara foi a voz inequivocamente colocada ao lado dos despossuídos da terra, dos excluídos; foi a voz que durante toda a sua trajetória clamou pela justiça no nosso País - e a lembrança da comemoração dos 20 anos da Lei da Anistia feita pelo Deputado Ronaldo Benedet coincide com essa figura de Dom Helder Câmara.

No Brasil temos figuras humanas desse porte que engrandecem a nossa Nação, que fazem com que ainda acreditemos na raça humana, que fazem com que ainda acreditemos na possibilidade dos homens e das mulheres terem uma magnitude, uma amplitude enquanto pessoas - comportamento, ética, moral - e que nos animam, indiscutivelmente, a continuar buscando a sociedade da fraternidade e da justiça.

Dom Helder Câmara, indiscutivelmente, é uma dessas figuras. É figura comparativa a um Martin Luther King, a um Gandhi, a um Mandela, ou seja, a figuras que indiscutivelmente nos fazem pensar e meditar pelas suas ações.

Então, não poderíamos deixar de registrar desta tribuna o nosso pesar pelo passamento de Dom Helder Câmara, assim como também não poderíamos deixar de registrar a sua importância na história brasileira.

Sr. Presidente e Srs. Deputados, o outro assunto que me traz à tribuna é a Marcha dos 100 Mil. Na última quinta-feira, juntamente com outros Companheiros da minha Bancada - os Deputados Neodi Saretta, Francisco de Assis e Pedro Uczai -, estivemos compondo a Marcha dos 100 Mil, em Brasília. Cem mil, 120 mil, 75 mil, muitos mil! Mil suficiente para que a voz rouca das ruas, como chamamos, de uma vez por todas possa ser ouvida pelos dirigentes desta Nação! Voz rouca das ruas que coloca, de forma inequívoca, que este País precisa mudar de rumo!

O Presidente Fernando Henrique e seus assessores tentaram, ao longo dos últimos dias que antecederam a Marcha, desqualificá-la dizendo que quem estava indo para Brasília, quem estava comandando, quem estava chamando era um bando de sem rumo. Mas quem tenta desqualificar um protesto da magnitude que foi a Marcha dos 100 Mil, ocorrida na última quinta-feira em Brasília, indiscutivelmente, só por esta tentativa de desqualificação, já demonstra que não tem mais condições de dirigir este País.

Quem está, indiscutivelmente, sem condições de dar algum rumo para este País é o Sr. Fernando Henrique, que não conseguiu ouvir, ao longo do último período, a greve dos caminhoneiros, a manifestação dos ruralistas e todas as demais manifestações colocadas e apontadas na pesquisa de opinião, a qual coloca o Sr. Fernando Henrique abaixo dos índices de popularidade do Sr. Fernando Collor, no ápice do processo de impeachment.

A imprensa, que tem sido tão servil, que tem sido tão submissa às imposições da política neoliberal de desmonte da nossa Pátria, da nossa Nação, essa imprensa que tem se submetido a fazer coro na contramão da história contra os interesses do nosso País, do nosso povo, não poderia ter comportamento diferente. Colocamos mais de 100 mil pessoas a protestar em Brasília, mas a preocupação foi apontar na cintura do Lula um celular. Essa foi a preocupação da revista Veja. Isso até me fez lembrar aquele debate final da campanha de 89, no qual o Lula foi acusado de ter um aparelho de som em casa.

Essa é uma tentativa de desqualificar tudo o que está posto e que é emblemático, que é sintomático na capacidade que existe hoje de reunir as pessoas nas ruas, no maior protesto que Brasília já teve a oportunidade de sediar ao longo de tantos anos de existência enquanto Capital do País.

A reportagem tenta desqualificar o movimento, mas virando a página, como fumaça ao vento, Deputado Nelson Goetten, vemos estampada a exata dimensão da manifestação do povo protestando, em Brasília, contra a política econômica implementada por Fernando Henrique e todos aqueles que lhe dão apoio.

Sabemos, como foi dito por diversos manifestantes que se pronunciaram no protesto, que esse é o início. Nada vai mudar neste País apenas com a Marcha dos 100 Mil. Vamos ter agora, no próximo dia 7 de setembro, mais uma edição do Grito dos Excluídos; vamos ter durante o mês de setembro greve de diversas categorias, as quais já estão sendo chamadas; vamos ter no início de outubro a Marcha pela Educação; e teremos, ao longo deste ano, uma sucessão crescente, estou convencida disso, de manifestações públicas dos setores que vêm sofrendo essa política econômica, essa política de exclusão social, de aumento da concentração de renda e da absoluta indisponibilidade daquilo que construímos, enquanto patrimônio, neste País.

Portanto, estou convencida de que a fumaça não foi ao vento e que a questão não é o celular na cintura do Lula. A questão está posta num Governo que acredita e impõe a este País um rumo que não queremos mais. Vamos construir um outro rumo para este País, com muita gente na rua, porque essa é a sinalização de tudo o que se apresenta para o próximo período.

Muito obrigada!

(SEM REVISÃO DA ORADORA)