Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Ronaldo Benedet

63ª Sessão Ordinária - 02/09/2003

O SR. DEPUTADO RONALDO BENEDET - Sr. Presidente e Srs. Deputados, venho à tribuna desta Casa para falar hoje do nosso companheiro Jorge Feliciano, falecido no último domingo e sepultado no dia de ontem. Falarei sobre a questão das lutas de Jorge Feliciano e da crise do estado em que vivemos hoje, suas lutas e alternativas.

Porém, necessário se faz uma rápida resposta ao pronunciamento do Deputado Nelson Goetten. Primeiro, digo ao Deputado Nelson Goetten que não ofendi, em momento algum, a sua família, muito menos é minha intenção adentrar nas questões familiares nesta Casa. Apenas o que fiz foi citar documentos nos quais, de uma forma ou de outra, infelizmente, aparecem pessoas da família do Deputado Nelson Goetten. Mas de forma alguma o que falei foi ofensivo a essas pessoas.

Quero dizer ao Deputado Nelson Goetten que ele deve pensar bem o que é ética na política, para estar vindo aqui fazer uma confusão de coisas e querer justificar tudo o que tem acontecido e os seus atos. São questões de subvenção social para uma entidade, atendimentos médicos. Eu até pensei que os médicos, e tenho aqui depoimentos, Deputado Nelson Goetten, que os médicos que davam atendimento eram pagos pelo Deputado com o seu salário. Hoje ele diz que é essa entidade.

É um pouco contraditório, Deputado Nelson Goetten.

Quero dizer que V.Exa. falta com a verdade quando diz que nós recebemos esse dinheiro. Quero dizer que deste dinheiro da Codesc nunca recebi um centavo, não o vejo, não sei para onde vai. Vai para entidades, enfim, como V.Exa. tem colocado, se é que isso ocorre. Não o recebo. Esse dinheiro não vem para mim, Deputado Nelson Goetten. Pelo menos para nós, que estamos aqui. Recebemos, Deputados Manoel Mota e Genésio Goulart? Acho que nós nunca recebemos esse dinheiro. Pelo menos eu nunca recebi.

Se V.Exa. quiser, vamos fazer um debate sobre ética, e aí nós vamos aprofundar, Deputado Herneus de Nadal, o que é ética na política, como é que se elege com ética e como é que não se elege, neste Estado e neste País. Se for isso que V.Exa. quer, nós poderemos falar sobre isso, mas em uma outra hora, porque agora não posso queimar o meu horário, pois ele está programado para um discurso, um debate sublime, para enaltecer aqui a vida e a história de Jorge João Feliciano.

Jorge Feliciano foi um homem com história, filho de um pequeno agricultor, gente de família humilde, homem lutador, que começou sua luta como líder sindical, um líder sindical que trabalhava embaixo do solo, nas minas, na região carbonífera.

Um colega de trabalho nas minas, um homem que chorava copiosamente a morte do amigo Jorge Feliciano, falou-me ontem que não conseguiu ver nenhum trabalhador, Deputado José Paulo Serafim, nenhum mineiro que fosse tão bom na pá e na picareta quanto Jorge Feliciano tirando carvão.

Transformou-se num líder sindical respeitado na nossa região, na região carbonífera. Um homem que era recebido, com freqüência, pelo Ministro da do Trabalho da época João Goulart e depois pelo então Presidente da República João Goulart.

Um homem coerente, respeitado, Deputado Altair Guidi, pelos adversários políticos, pela sua coerência, pelas suas lutas, chamado de subversivo, comunista por aqueles que não queriam sua eleição, aqueles que se opunham quando pegava uma causa quando julgava justa.

Muitas vezes, até, políticos da Esquerda o criticavam em determinadas posições, e os da Direita, na maioria das vezes, querendo a sua cabeça, acabavam o entregando e denunciando. Em 1964, foi preso pelo Golpe Militar. Novamente foi preso, em 1974, sob efeito de tortura, para contar o que nunca fez. Foi torturado, Deputado Manoel Mota, para confessar o que nunca realizou.

E ele, numa noite, ao conversamos, pois éramos do mesmo Partido, me dizia que foi torturado no COE, em São Paulo, para confessar que tinha ido buscar no Uruguai dinheiro dado pelo Leonel Brizola para treinar guerrilha nas encostas do Timbé do Sul. E quando foram lhe praticar a tortura final, a derradeira, que iria acabar comprometendo a sua saúde e a sua vida, talvez nem tivesse chegado aos 74 anos de idade, ele disse: "eu quero conversar com o Comandante para dizer o seguinte: Comandante" - o Comandante da tortura -, "nunca fui no Uruguai buscar dinheiro do Brizola, muito menos treino uma tropa de guerrilheiros nas encostas do Timbé do Sul, porque a minha luta é democrática. Agora, se soubesse que o Brizola estava dando dinheiro no Uruguai, teria ido buscar mesmo. Só que não fui! E, com isso, ele acabou convencendo o Comandante da tortura".

Em seguida, veio a anistia e Jorge Felicitando foi candidato a Deputado Estadual. Eu tive o prazer de defendê-lo, de ser seu cabo eleitoral, em 1982. E a nossa vida passou a ter uma proximidade bastante grande.

Jorge Feliciano, um homem de poucas Letras, cursou até o 3° ano do primário, como ele dizia, mas era um homem de uma sabedoria em política que não conheci nenhum outro, Deputado Manoel Mota. A sua sabedoria era de um doutor em Ciências Políticas. Ele era o nosso conselheiro. Ele era aquele que nos aconselhava, um homem que preparou e encaminhou Eduardo Moreira na política e o colocou no bom caminho das políticas públicas, de saúde pública, de discussão com a comunidade, de debates com a sociedade. Um homem que orgulhou e orgulha o PMDB, mesmo agora depois de passado o seu tempo aqui terra.

Jorge Feliciano é um exemplo de coerência, de dignidade, de ética na política. Era um homem que não aceitava as coisas como são. Era um revolucionário, verdadeiro, um revolucionário que ficou no PMDB com as lutas porque dizia que a nossa trincheira era essa, mas que a democracia ainda não havia se consolidado totalmente em nosso País. Jorge Feliciano é o nosso orgulho!

Quero dedicar este discurso a ele, em sua homenagem póstuma, à sua família, à sua esposa Mariazinha, aos seus filhos, aos seus netos, aos seus bisnetos. Ele deixou pouco patrimônio material, mas deixou um patrimônio político de orgulho para os seus filhos, os seus netos, os seus bisnetos e para nós, seus correligionários.

As idéias, os princípios de Jorge Feliciano são de um homem ético, decente, coerente na política, que defendia as bandeiras de luta neste País, na nossa região, a causa do trabalhador, a causa dos mais humildes, a causa dos injustiçados.

Jorge Feliciano é um orgulho para a história do PMDB, do MDB de Criciúma, da região carbonífera do Estado de Santa Catarina e do Brasil. Ele é um dos conquistadores da democracia no Brasil.

Por isso, o nosso orgulho de estar aqui defendendo o nome de Jorge Feliciano, o nome desse baluarte, desse herói nacional, que preso por motivos políticos sempre foi para nós o nosso orgulho a sua prisão, a prisão daquele que combateu a ditadura militar e lutou pelo restabelecimento da democracia no Brasil.

O Sr. Deputado Manoel Mota - V.Exa. me concede um aparte?

O SR. DEPUTADO RONALDO BENEDET - Com muito prazer, Deputado Manoel Mota, concedo a V.Exa. um aparte.

O Sr. Deputado Manoel Mota - Gostaria de cumprimentá-lo pelo seu feliz pronunciamento.

Ontem, nós acompanhamos todo o episódio lamentável ocorrido em Criciúma, mas quantos aqui vêm para este microfone como salvador da Pátria e ajudou a torturar muitas pessoas dessas? Quantas pessoas e amigos que não existem mais, que desapareceram na época da ditadura? Agora vêm aqui com este discurso de puritanos e salvadores da pátria!

Jorge Feliciano era um homem íntegro, enfrentou tudo isso e em nenhum momento da história da sua vida baixou a cabeça. Por isso, ele é uma marca que fica entre nós, daquele que tem passado, que tem história, em cuja vida podemos nos espelhar.

Por isso, foi uma perda muito grande para todos nós do Sul de Santa Catarina o seu falecimento, e muito mais para aqueles que se mobilizaram contra a ditadura, contra àqueles atos arbitrários, através dos quais prendiam, torturavam, mas ele nunca cedeu, mesmo passando por momento difíceis.

Hoje, aqui, Deputado Ronaldo Benedet, gostaria de deixar registrada esta marca de um homem e de uma família que orgulha Criciúma e a região Sul.

Quero, também, com pesar....

(Discurso interrompido por término do horário regimental.)

(SEM REVISÃO DO ORADOR)