74ª Sessão Ordinária - 04/10/2005
O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Inicialmente, agradeço aos srs. deputados Antônio Carlos Vieira e Francisco Küster pela manifestação.
No dia de hoje venho à tribuna para formalizar, comunicar a minha filiação ao Partido Socialismo e Liberdade, o P-SOL.
Confesso que uma decisão desse porte, dessa magnitude, a mim não foi fácil e não a tomei de maneira isolada; foi produto de uma reflexão profunda, de um espaço de discussão que promovemos durante um bom período, num calendário com várias reuniões que fizemos pelo estado, e também em decorrência de uma discussão feita em âmbito nacional.
Também acompanhei a decisão do companheiro, nosso candidato a presidente do partido no Processo de Eleição Direta - PED, no último dia 18 de setembro, Plínio de Arruda Sampaio, assim como do companheiro deputado federal Ivan Valente, do deputado federal Chico Alencar, de Orlando Fantazzini, da deputada federal Maninha Barbosa, do deputado João Alfredo, de vários deputados estaduais, a exemplo da deputada Brice Bragato, do Espírito Santo; do deputado Randolfe Rodrigues, do Amapá, de vereadores, a exemplo da companheira Marinor Brito, de Belém; da deputada Araceli Lemos, do Pará. Enfim, foi pelo esforço de uma discussão coletiva, de uma reflexão que chegamos à conclusão que com todo esse trabalho, esses anos de construção partidária, o Partido dos Trabalhadores alcança um esgotamento, enquanto instrumento de luta da transformação da realidade brasileira.
Por isso a necessidade de concluirmos a leitura dos dados oferecidos pela própria militância do PT na eleição interna, no dia 18 de setembro. A chamada esquerda do PT, representada nessa eleição pela candidatura de Plínio de Arruda Sampaio, Valter Pomar, Raul Pont, Marco Sokol, já possuía, em termos de representação no diretório nacional, 33%. E o resultado fez com que essa mesma representação chegasse a 35%. Nós consideramos um acréscimo muito insignificante para o tamanho dos erros e desacertos desenvolvidos nos últimos tempos, tanto na direção partidária como com relação ao governo federal.
Nós concluímos que o chamado campo majoritário do PT não tem apenas uma maioria numérica, ele tem uma adesão política intransponível para o conjunto da militância do PT. A conclusão é que o Partido dos Trabalhadores se transformou num instrumento que se esgota, enquanto instrumento de transformação da realidade brasileira.
Tenho dito a vários companheiros e companheiras do PT que a nossa decisão, a minha, em particular, não é uma separação, uma saída do partido de maneira litigiosa, pelo contrário: pretendo cultivar uma separação amigável porque sei que dentro do PT há inúmeros companheiros lutadores sociais e ainda comungamos de seus ideais, e que se não podemos mais atuar dentro da própria instância partidária, encontrar-nos-emos na luta do povo pobre, do trabalhador, do explorado e oprimido deste país.
E aqueles companheiros e companheiras que pensam que vamos fazer da nossa decisão, da nossa atitude um gesto de agressão ao Partido dos Trabalhadores verão frustrar suas expectativas. Não sou daqueles que por sair do PT pretendem quebrar a carteirinha de filiado; não vou atear fogo na bandeira que carregamos e que durante 25 anos cultivamos como uma esperança de mudança e de transformação da realidade brasileira; não vou rasgar as nossas fotografias, as nossas imagens, sempre muito presentes na nossa vida militante de construção da história do Partido dos Trabalhadores.
Os documentos que sempre guardei e cultivei com muito carinho, já amarelados inclusive, registram a história do Partido dos Trabalhadores, em âmbito nacional, a exemplo do Boletim Nacional, que o PT distribuía - nós fazíamos a assinatura para conseguir manutenção financeira do partido -, este que tenho em mãos, de dezembro de 1985, quando o PT elegeu a prefeita de Fortaleza.
(Passa a ler)
"Mulher, nordestina (...) Maria Luiza Fontenelle,(...)" A capa deste boletim.
Estes são documentos que registram a história do PT. Ou ainda o Jornal dos Trabalhadores, este de 13 de agosto de 1982, que traz como matéria de capa a invasão da polícia à sede do PT de Florianópolis, quando da visita do general Figueiredo à capital.
Diz a matéria:
(Passa a ler)
"Com o general Figueiredo em Florianópolis, a repressão invadiu e depredou a sede do PT. No dia seguinte, tentou outra vez, mas os membros do PT e os populares resistiram e não deixaram".
São documentos que durante anos resolvi guardar como registro da nossa história.
Portanto, não saio do PT para fazer uma política antipetista; pelo contrário: vou para o Partido Socialismo e Liberdade - o P-SOL, porque, no meu modo de entender, das cinzas podemos ressuscitar. E para nós, neste momento, o Partido Socialismo e Liberdade é um cantinho aconchegante que encontramos para continuar erguendo as mesmas bandeiras que nos fizeram ir para o PT. Então, é com este sentimento de pesar, de dor, mas, ao mesmo tempo, estamos dando um passo ousado a uma situação de futuro incerto.
Não temos aqui a pretensão de ter o dom da verdade, de sinalizar o caminho único e verdadeiro. Não temos essa pretensão. Mas a de apontar uma outra perspectiva; uma perspectiva que possa honrar o conjunto da luta dos trabalhadores.
O Sr. Deputado João Henrique Blasi - V.Exa. nos concede um aparte?
O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Pois não!
O Sr. Deputado João Henrique Blasi - Deputado Afrânio Boppré, quero apenas partilhar com v.exa. este momento importante para dizer que, com certeza, como foi há pouco dito, v.exa. não está tomado pelo sentimento de insatisfação. V.Exa., muito provavelmente pelas ligações afetivas, pelo tanto que participou na construção do PT, hoje pode ser tomado por um sentimento, digamos, de alívio por ter tomado uma decisão que precisava ser tomada, mas que com certeza o que foi construído nesse partido que merece o respeito de todos nós, fica assinalado como uma parte importante da história de Santa Catarina, de Florianópolis e do Brasil.
O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Obrigado, deputado João Henrique Blasi!
Digo que não me arrependo de nada do que fiz nos 25 anos de militância no PT. O PT cumpriu com o seu papel histórico; teve a sua função social. Diferentemente do que esperam, que vamos beligerar, nós estaremos, deputado Pedro Baldissera, atuando com todos aqueles combatentes, da luta pelo nosso povo.
Todos esses documentos, todos esses símbolos, da bandeira à carteirinha, dos manifestos, dos santinhos de campanha, todos eles, eu guardarei com muito carinho como o registro histórico da nossa caminhada.
Então, queria comunicar aos colegas companheiros e às companheiras, aos deputados, funcionários da Casa, à imprensa e a todos os eleitores de Santa Catarina, que tomamos a decisão, cônscios de estarmos dando um passo no sentido de reencontrarmos as lutas que nos fizeram ir para o próprio partido.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)