44ª Sessão Ordinária - 22/06/2004
O SR. DEPUTADO FRANCISCO KÜSTER - Sr. Presidente, Sras. Deputadas, Srs. Deputados e imprensa, que registra todos os acontecimentos - os bons, os menos bons e os ruins.
Quero nesta tarde falar um pouco de Leonel Brizola, mas antes, fazendo coro ao pronunciamento do Deputado Onofre Santo Agostini, quero externar meus sentidos de pesar pela perda do ilustre Juiz, Magistrado, Desembargador Genésio Nolli.
Leonel Brizola era o último dos moicanos; podemos dizer, sem medo de incorrer em heresias, em exageros que era uma instituição, pelo que representava para a política brasileira. Tinha lealdade absoluta ao que acreditava, aos seus ideais.
Alguns diziam que Brizola não evoluiu, mas em momento algum destoou da sua batida. Poderíamos dizer também, sem incorrer em exageros, que era o maior defensor das classes obreiras da história deste País; lutava como ninguém por um Estado genuinamente brasileiro, porque ele era um nacionalista, lutava pelo reconhecimento e pela valorização dos trabalhadores.
Eu conheci bem o Brizola, até porque fui militante enquanto jovem, ainda sem ser eleitor do Partido Trabalhista Brasileiro. Na época, na nossa região, faziam parte Evilásio Caon, Doutel de Andrade, que partiram na frente, e Brizola. Acompanhamos toda aquela epopéia de 1961. Estava no Exército, no II Batalhão Rodoviária e acompanhei toda a movimentação de tropas para defender a legalidade, para defender a Constituição.
Era assim Leonel Brizola! Falava, tinha coragem! Era determinado! Depois ocorreram muitas coisas, que culminaram com o golpe de 1964. Nesse meio tempo houve um ensaio de parlamentarismo (e eu sou parlamentarista), que queimou a proposta no País por décadas e décadas e acabou revertendo novamente no presidencialismo, através de um plebiscito.
Com isso, Jango assumiu a Presidência da República. João Goulart era de têmpera diferente de Brizola. Leonel Brizola era ousado e corajoso. João Goulart era um cidadão (e isso eu conheço da história dele) que não gostava do confronto, porque se gostasse teríamos tido, em 1964, não uma quartelada bem sucedida, mas um revolução, pois Brizola escorava.
Tudo isso aconteceu e os políticos da época (eram políticos de estampa, sabe!) foram cassados. Brizola fugiu para o Uruguai, permanecendo no exílio até 1969. Com o advento da anistia, ele retornou ao Brasil e nós, em caravana, fomos ver a sua chegada, pois queríamos tê-lo conosco no velho MDB de guerra!
Mas, ousado como ninguém, ao chegar ao Brasil ele disse que a oposição verdadeira estava no exterior, estava exilada. E nós aqui, àquela época, já estávamos de há muito sofrendo com as agruras, com a truculência do autoritarismo, da ditadura! Naquele momento eu decidi: temos de caminhar talvez na mesma direção, mas trilhando caminhos diferentes! Talvez na mesma direção, porque nós achávamos que ele não devia ter feito aquela afirmação, naquele momento.
Aí, ele tentou ressuscitar o trabalhismo, com o seu PTB! Não foi possível. O maquiavelismo de Golbery do Couto e Silva impediu que ele realizasse o sonho. Ele criou, então, o PDT! E retomou a sua caminhada. Foram muitos mandatos: Deputado Estadual, Prefeito de Porto Alegre, Deputado Federal pelo Rio Grande do Sul, Deputado Federal pela Guanabara, Governador de três Estados! Era uma lenda viva!
Brizola parte, mas coerente com o que pensava. Alguns ousavam dizer (e até nós mesmo) que ele tinha parado no tempo. Mas não! Eu acho que ele tinha uma visão de mundo um pouco diferente da nossa, porque ele também remontava a um tempo anterior ao nosso.
Assim Brizola trilhou o seu caminho, fez história. Eu diria o seguinte: ele parte para a eternidade porque a vida é uma passagem. Nós somos passageiros. Alguns passam rapidamente, outros passam não tão rapidamente, mas desapercebidos. Outros passam de mau jeito. Alguns se dedicam à causa do individualismo e outros, à causa do coletivo. Brizola é um desses brasileiros que se dedicaram à causa do coletivo! Dedicou-se como ninguém àquilo que acreditava!
Sr. Presidente, caros Colegas, mesmo não sendo do PDT, mesmo não tendo realizado o sonho de tê-lo conosco no velho MDB de guerra, mesmo assim eu o admirava. Às vezes divergia, porque ele não tinha papas na língua! O que tinha que dizer, dizia! E era irônico, às vezes.
Existe um desejo célebre de Brizola, que era mais ou menos o seguinte: ele adoraria ver (naquela época ainda eram muito difíceis as coisas, a democracia ainda era muito débil, o processo de redemocratização era lento) as elites nacionais e também as crias do Tio Sam engolirem um sapo barbudo, referindo-se a Luiz Inácio Lula da Silva, de quem, em seguida, foi companheiro de chapa numa eleição presidencial na qual não saíram vitoriosos.
Era assim o Brizola. Já deixa saudade pela sua maneira de ser! Alguns tentam imitá-lo, outros tentam construir o seu caminho, outros se ajustam na legalidade vigente dando a sua interpretação e fazendo dessa interpretação o norte a seguir. Mas Brizola tinha o seu guarda-chuva legal no seu estilo de ser, de fazer, de pensar, de se expressar, de realizar e com isso exercer a vida pública, Deputado Onofre Santo Agostini.
Portanto, perde o Brasil um grande político, um grande brasileiro que entra para a galeria onde já se encontram o seu velho ídolo Getúlio Vargas, o Dr. Ulysses Guimarães, o Dr. Tancredo Neves, o Mário Covas e tantos outros. E eu lembro mais desses pois neles nós procuramos, não raras vezes, nos espelhar, e se estamos na vida pública é porque queremos lutar pelo bem-estar do povo, pelo bem-estar da sociedade, pelo bem-estar do coletivo, é porque queremos defender aquilo que é de todos e não apenas, egoisticamente, defender, na individualidade, o interesse pessoal.
Por isso, nós estamos na vida pública. E essas figuras que citamos trilharam a sua longa jornada pensando e agindo dessa forma e, é claro, com uma melhor formação acadêmica que nós, pois souberam fazer de melhor forma, tanto é que triunfaram na vida pública.
Não tenham dúvidas, a política com "P" maiúsculo fica um pouco mais pequena com o desaparecimento de Leonel Brizola. E isso exige de nós um esforço para compensar, para fazer com que a política readquira essa grandeza do "P" maiúsculo, que façamos as reformas que darão uma blindagem à democracia brasileira, que se faça justiça social neste País, que deixemos de contemplar a ganância dos gulosos, dos grandes capitalistas.
Perdemos um grande brasileiro, não era do meu Partido e nem eu do seu Partido, mas eu sempre o respeitei. Siga com Deus, Brizola!
Antes de encerrar, Sr. Presidente, gostaria de pedir, com a devida vênia, a transcrição, na íntegra, dessas duas páginas do jornal Diário Catarinense, as páginas quatro e cinco, para que figure nos Anais desta Casa o que aqui escreveram sobre Leonel Brizola. Eu não quis ler absolutamente nada porque quis falar com o coração, pois assim posso externar o sentimento com a perda desse ilustre brasileiro.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Onofre Santo Agostini) - Esta Presidência defere o requerimento de V.Exa.!
O SR. DEPUTADO FRANCISCO KÜSTER - "O ex-Governador Leonel de Moura Brizola morreu ontem à noite, no Rio de Janeiro, aos 82 anos, depois de ser internado em estado grave no Hospital São Lucas.
Nos momentos derradeiros de vida, apesar de debilitado, Brizola insistia em conversar com assessores sobre o que mais gostava. Desde as 21h20min, o Brasil está sem a fala, os gestos, o vigor e a teimosia cívica de um de seus mais brilhantes homens públicos.
O Presidente Nacional do PDT havia retornado quinta-feira da sua fazenda no Uruguai queixando-se de dores no corpo. Brizola também tinha febre e estava com disenteria há quatro dias. À tarde, foi levado a uma clínica para exames. Depois, foi internado com suspeitas de uma forte gripe ou pneumonia.
Constatou-se que Brizola sofrera um enfarte. Os exames mostraram um coágulo nos pulmões. Transferido para a UTI, suando muito e com insuficiência respiratória, Brizola teve seu quadro agravado.
Morreu no Estado que o elegeu Governador por duas vezes e sem nunca admitir que poderia se retirar da política.
’Tem muita gente desejando que eu passe de uma vez e assuma a aposentadoria, mas isso não vai acontecer porque serei um cavalo inglês. Só vou morrer na cancha’, disse o ex-Governador em l988, quando foi derrotado na eleição à Presidência da República, à qual se candidatou como vice de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Brizola construiu uma carreira única. Foi precoce, ousado, persistente, valente e admirado até pelos adversários pela capacidade de combater com lealdade. Na sua primeira aparição pública, em 1946, ao lado do maior político brasileiro do século 20, Getúlio Vargas, Brizola cometeu a ousadia dos diferenciados: em um comício em Porto Alegre, discursou de improviso, enquanto outros políticos liam discursos datilografados.
Em l947, aos 25 anos, elegeu-se Deputado Estadual. Na trajetória meteórica foi Deputado Federal, Governador do Rio Grande do Sul, Governador do Rio e líder nacional do trabalhismo. O filho dos agricultores José e Oniva, nascido em 22 de janeiro de 1922, em Cruzinha, Distrito de Passo Fundo, que em 1931 passou a pertencer a Carazinho, era um dos últimos grandes nomes da geração que cresceu ao lado de Getúlio e levou João Goulart - com a renúncia de Jânio Quadros - à Presidência da República, em l961.
Foi naquele ano que Brizola liderou a Campanha da Legalidade, em defesa da posse de Jango, ameaçada pela reação das Forças Armadas. A Legalidade, uma das maiores mobilizações populares da história do País, foi seu gesto mais espetacular. Brizola tinha 40 anos. Um ano depois se elegeria Deputado Federal pela antiga Guanabara com 300 mil votos, a maior votação até então obtida por um brasileiro. Em l964, exilou-se no Uruguai e passou pelos Estados Unidos e Portugal. Retornou ao Brasil em l979, com a mesma vitalidade e participou como candidato ou articulador de todas as últimas eleições, com exceção da de 2002.
O corpo de Brizola está sendo velado no Palácio Guanabara, no Rio. Ao meio-dia de amanhã será trasladado para Porto Alegre, onde será velado durante a tarde e à noite no Palácio Piratini. Quinta-feira pela manhã segue para São Borja. Será sepultado à tarde no Cemitério Jardim da Paz, o mesmo que guarda os restos mortais de Getúlio Vargas, Jango, a mulher Neuza e onde Brizola esteve em agosto de 2002, na sua última participação em uma grande articulação política, as campanhas de Ciro Gomes à Presidência e de Antônio Britto ao Governo do Estado. Os dois candidatos perderam as eleições.
’Basta-me um microfone para derrotar os adversários.’
Nacionalização de empresas
‘Eu, inimigo dos Estados Unidos, por causa daquilo?! E lá, nos Estados Unidos, que dizia que a ITT era uma campanha popular, era a campanha das viúvas que detinham as ações; que aquilo era uma violência, coisa e tal. E aqui no Brasil, então, foi uma guerra em cima de mim. Transformaram-me em Fidel Castro, colocaram uma barba em mim!’
Sobre a resistência à ditadura militar
‘A Oposição de verdade à ditadura sempre esteve fora do Brasil.’
Ao retornar do exílio, por São Borja, em l996.
No Golpe
‘Sargentos, tomem os quartéis, prendam os gorilas.’
Sobre Lula
‘Seria fascinante obrigar a elite a engolir o Lula, este sapo barbudo.’
Em l989, depois de Lula ter afirmado que o Governo e os patrões teriam de engoli-lo
Sobre o Governo de FHC
‘Se eu estivesse em um tribunal para julgar o Fernando Henrique, votava por passar fogo nesse sujeito.’
Em 2000, em Porto Alegre
Vida e história:
19 de janeiro de l947 - É eleito Deputado Estadual pelo PTB;
3 de outubro de l954 - É eleito Deputado Federal;
3 de outubro de l955 - Vence a eleição para Prefeito de Porto Alegre;
3 de outubro l958 - Eleito Governador do Rio Grande do Sul;
7 de outubro de l962 - Brizola é eleito Deputado Federal agora pelo Estado da Guanabara;
6 de setembro de 1979 - Após 15 anos no exílio, Brizola retorna ao Brasil;
15 de novembro de l982 - É eleito Governador em eleição marcada por acusações de fraude, no episódio conhecido como o escândalo da Proconsult;
3 de outubro de 1990 - É eleito Governador do Rio de Janeiro no primeiro turno. Constrói a Linha Vermelha.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)