13ª Sessão Ordinária - 04/03/2010
O SR. DEPUTADO DAGOMAR CARNEIRO - Sr. presidente, sras. deputadas e srs. deputados, ocupo a tribuna para fazer um pronunciamento até um pouco emocionado, porque vou falar de um grande cidadão catarinense, de um grande cidadão brasileiro, que, sem dúvida alguma, foi um dos baluartes da redemocratização do nosso país durante a revolução. Refiro-me a Marcílio Cesar Krieger. E fico emocionado porque, além de conhecê-lo muito bem, pois é tio da minha esposa, e irmão do arcebispo metropolitano de Florianópolis, dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, tínhamos uma amizade muito grande.
Assim que ele voltou do exílio, eu ainda era estudante, começou a nossa amizade, e por ser tio da minha esposa fomos jantar na sua casa quando do seu retorno ao Brasil.
O Marcílio foi um dos idealistas de um Brasil livre, de um Brasil em que todo o cidadão pudesse ir e vir com liberdade. Talvez ainda não este Brasil que temos agora, mas certamente pessoas como ele fizeram a diferença para a redemocratização do nosso Brasil. E existiram várias com o mesmo ideal, como Leonel Brizola, Ulysses Guimarães e tantos outros que lutaram pela redemocratização do país.
Eu trago aqui, sr. presidente, uma carta resgatando um pouquinho da história de Marcílio Cesar Krieger, enviada pelo governador do estado de São Paulo, José Serra.
(Passa a ler.)
"O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), enviou mensagem à família e aos amigos do advogado Marcílio Krieger, que faleceu na semana passada em Florianópolis. O texto simples resgata um momento importante da história do Brasil e revela a atuação política de Marcílio Krieger antes e depois do Golpe de 1964. A mensagem foi dirigida ao amigo comum de ambos, Duarte Pereira, que a repassou ao advogado Rogério Queiroz, cuja prima era casada com o falecido."
Queremos ressaltar que Marcílio Krieger é também cunhado de Diomário Queiroz, presidente da Fapesc.
Assim é a carta:
(Passa a ler.)
"Duarte, obrigado por ter me avisado da morte do Marcílio. Eu tinha perdido a pista dele, mas nunca esquecido de nossa convivência no Brasil e no Chile, durante o exílio.
Quando estávamos na UNE, eu na presidência, Marcílio era meu assessor direto e de confiança. Por isso mesmo no dia seguinte ao Golpe Militar (1º de abril de 1964), ele estava comigo à procura de um lugar seguro para evitar que a repressão me encontrasse.
Lembro-me até hoje que eu tinha o endereço e a chave de um apartamento vazio na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, mobiliado e com comida na geladeira para vários dias, pertencente ao sogro de um amigo de São Paulo. Estava junto o Marcello Cerqueira, um dos vice-presidentes da UNE.
Mas o Marcílio, que dirigia o carro, suspeitou de um sujeito parado ao lado da porta do prédio, como que fazendo que lesse um jornal. Por isso, embora cheios de dúvida, passamos direto e abandonamos aquela cômoda possibilidade, sem nunca sabermos se tínhamos tomado a decisão correta.
No Chile, chegamos a organizar um audiovisual didático, segundo a tecnologia da época, sobre a trajetória da ditadura brasileira. O Marcílio foi o encarregado direto da produção, digamos assim.
A imagem que guardei dele foi a de um homem de caráter, íntegro, de muito boa fé, nada pretensioso, grande espírito de militância e trabalhador.
Sabia que militância significa carregar muitas pedras, e estava sempre disposto a isso. Sempre pensei que um dia iria reencontrá-lo. Não quis o destino que assim acontecesse. Sinto agora muita pena por isso.
José Serra - governador de São Paulo."
Então, sr. presidente, quero aqui registrar, com um sentimento muito grande, a perda desse grande catarinense, desse grande brasileiro que, como centenas de outros brasileiros, teve que abandonar o nosso país na época da ditadura.
Marcílio fazia parte de um grupo sonhador e teve que fugir do Brasil após ter sido preso, torturado. Conseguiu, por sorte, escapar das mãos dos militares da época e fugiu para o Uruguai, depois para o Chile e mais tarde para Portugal, que dava abrigo a muitos brasileiros, como Leonel Brizola.
Lá, Marcílio construiu sua carreira como estudante, depois se formou em Direito e voltou ao Brasil quando foi dada anistia política aos exilados. E quando voltou ao Brasil, escolheu Florianópolis para residir. Junto com sua esposa Perpétua teve seus filhos, Alda Maria e Antônio, e construiu uma nova carreira como advogado, assessorando, na época, junto com os assessores de imprensa, o ex-governador Esperidião Amin.
Marcílio dedicou-se, principalmente, ao direito esportivo. Sem dúvida alguma, ele foi um dos maiores juristas da área esportiva do país. Não era raro que Marcílio aparecesse em rede de televisão, em nível nacional, como no Milton Neves e em outros programas esportivos, para fazer as suas colocações e defender os clubes. Aqui mesmo os clubes de Santa Catarina, como o Figueirense, naquele fatídico dia da segunda divisão, tiveram muito o dedo dele na sua defesa.
Então, faço esse resgate porque ele era uma pessoa de caráter, digna e, como diz a carta do governador José Serra, despretensiosa. Ele não tinha a pretensão de disputar cargos políticos. Queria ajudar, sem dúvida alguma, a construir um país livre para toda a sociedade.
Infelizmente, sr. presidente, Marcílio Cesar Krieger faleceu aos 71 anos de idade, mas com certeza deixou um legado muito grande para todos os catarinenses e para todos os brasileiros.
Quero aqui, de uma maneira toda especial, ao encerrar o meu pronunciamento, cumprimentar os vereadores do PDT que acabaram de tomar posse no município de Itajaí, Fabrício Antônio dos Santos e Nina Crispim, que estão acompanhados do nosso presidente e do tesoureiro do partido em Itajaí. É com muita honra que os recebemos na Assembleia Legislativa. Desejamos aos nossos vereadores sucesso nessa nova empreitada na Câmara de Vereadores de tão importante município.
Desejo, da mesma forma, cumprimentar a delegação de moradores de Canasvieiras, que veio ao meu gabinete trazer as solicitações de tão importante balneário da nossa Santa e bela Catarina. O sr. José Manoel, o sr. Nelson, a d. Maria e a Sandra, que vêm trazer a preocupação de toda a comunidade de Canasvieiras. Desta tribuna até já tivemos a oportunidade de fazer um pronunciamento pedindo às autoridades competentes que Canasvieiras volte a ser a Canasvieiras tranquila, harmoniosa, bela de antigamente e o maior destino turístico do estado.
Dou-lhes, então, as boas-vindas à Assembleia Legislativa.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)