Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Sargento Amauri Soares

23ª Sessão Ordinária - 29/03/2012

O SR. DEPUTADO SARGENTO AMAURI SOARES - Sr. presidente, srs. deputados, aqueles que nos acompanham pela TVAL e pela Rádio Alesc Digital e os que aqui estão na manhã desta quinta-feira.

Sr. presidente, quero tratar de um assunto que, via de regra, debatemos bastante nos momentos de conflito, de crise: o transporte coletivo na Grande Florianópolis, mas depois, quando o clima dá uma esfriada e as condições se normalizam, deixamos de falar ou, pelo menos, falamos menos.

Evidentemente que também impulsionado pelo debate existente neste momento na capital acerca da proposta da duplicação de um trecho da rua Deputado Antônio Edu Vieira, no bairro Pantanal, de um debate que está havendo através dos meios de comunicação e de pouco debate que está havendo com a comunidade interessada no assunto ou diretamente envolvida na questão.

O Conselho Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina decidiu, há duas semanas, não ceder parte do espaço da universidade, circunvizinha à rua Deputado Antônio Edu Vieira, e dar um prazo de seis meses para que o assunto possa ser debatido melhor, de forma mais profunda com a comunidade universitária, com a população residente no Pantanal e na região da bacia do Itacorubi e com a prefeitura de Florianópolis, que é o gestor interessado em fazer a obra.

Lendo, pela manhã, os relatórios e tendo ouvido o debate ocorrido no conselho da Universidade Federal e na comunidade do Pantanal, nos últimos anos, acerca desse assunto, acabo de perceber que a proposta da prefeitura para a duplicação da rua Deputado Antônio Edu Vieira talvez encante pela aparente solução do problema da mobilidade naquela região, porque não fica claro no debate que essa duplicação será apenas parcial, ou seja, de um trecho dessa rua.

A duplicação da qual se fala e para a qual se pede 18.000m, quase dois hectares, do terreno da UFSC, partiria do trevo da entrada do Córrego Grande até a rótula da Eletrosul, duplicando um trecho que, creio, não passa de 500m. E a rua Deputado Antônio Edu Vieira é uma rua que tem o mesmo tamanho, a mesma largura e a mesma proporção até o seu esgotamento, até o seu final, no Armazém Vieira, que desemboca na Via Expressa Sul. E aí fica a pergunta óbvia: o que resolveria para a mobilidade urbana daquela região e da cidade duplicar apenas a metade da rua Deputado Antônio Edu Vieira?

Na minha avaliação, resolveria muito pouco ou quase nada. Talvez melhore um pouquinho o acesso ao bairro Córrego Grande, porque o acesso da região da bacia de Itacorubi para a Via Expressa Sul, para o sul da Ilha ou até para o centro, pegando o túnel, dependeria da duplicação integral da rua Deputado Antônio Edu Vieira.

Mas a prefeitura, alegando não ter recursos para desapropriar a região que vai da Eletrosul até o Armazém Vieira, faria em duas etapas. Na primeira etapa, que seria agora, pegaria um pedaço da UFSC duplicando a metade da rua e depois, em tempo que ainda não foi definido, desapropriaria os terrenos dali até o final da rua, para poder duplicar o total.

Infelizmente, estamos cada vez mais desanimados com a letargia, com a demora, com a protelação das obras públicas em nossa cidade, em nossa região, em nosso país, e podemos imaginar que será realizada a primeira parte da obra talvez em um ano, dois anos, três anos e depois se esperará mais uma década para começar a rediscutir o assunto.

Dessa forma, lendo atentamente o relatório debatido no Conselho Universitário da UFSC, quero dizer que estou de acordo com o referido relatório. Está-se querendo tapar o sol com a peneira mais uma vez na questão da mobilidade urbana em Florianópolis, fazendo propaganda de que uma determinada obra vai solucionar o problema do tráfego de determinada região, e quando a obra é realizada e entregue, percebe-se que não foi resolvido nada ou se resolveu muito pouco.

Ao mesmo tempo em que não se investe, não se pensa que há interesses empresariais locais envolvidos com interesses políticos, inclusive interesses econômico-financeiros das empresas que fazem parte do poder público municipal, como pessoa física e jurídica, pois a pessoa física do gestor público é a mesma pessoa jurídica da empresa de transporte coletivo. Talvez seja o pior transporte coletivo que existe no Brasil.

Estive no Rio de Janeiro recentemente e prestei atenção nesse detalhe. É mais difícil andar em Florianópolis, entre 17h e 19h, do que na cidade do Rio de Janeiro. Demora-se mais para percorrer o mesmo trecho, o mesmo espaço em Florianópolis, uma cidade com 400 mil habitantes - somando a Grande Florianópolis dá 700, 800 mil habitantes -, do que no Rio de Janeiro. A cidade de Florianópolis está mais truncada do que a cidade do Rio de Janeiro. Nós moramos numa ilha e não temos um barquinho para atravessar o Estreito e chegar ao continente.

Para felicidade geral da nação e do povo catarinense, em nossas terras não acontecem terremotos, porque se acontecesse um terremoto a população da ilha provavelmente pereceria de fome, de miséria e de tantas outras desgraças, pois não temos absolutamente nada em termos de transporte aquático! Moramos numa ilha que fica há menos de um quilômetro de distância do continente. As cidades da Grande Florianópolis se entrecruzam. Trinta ou quarenta por cento da população da Grande Florianópolis moram na ilha, os outros 60% moram na parte continental e as outras cidades ficam na parte continental. E todo mundo precisa cruzar do continente para a ilha e da ilha para o continente praticamente todos os dias, quase toda a população precisa fazer esse trajeto, mas não temos nenhuma modalidade de transporte pelo mar, por mais simples que seja o transporte marítimo.

Eu, na minha pouca informação em termos de logística, de engenharia, posso afirmar, com absoluta certeza, de que o transporte marítimo é mais econômico, menos poluente e, inclusive, mais atraente, mas interesses financeiros de um grupo pequeno de empresários do transporte coletivo, que ajudam a mandar ou mandam na administração das cidades da Grande Florianópolis, impedem que seja debatido esse assunto efetivamente. E agora se quer jogar a responsabilidade para a Universidade Federal de Santa Catarina pelo estrangulamento do trânsito na região.

Duplicar a metade da rua Deputado Antônio Edu Vieira é tapar o sol com a peneira, porque mesmo na modalidade de transporte particular, de automóvel, não resolve nada. Inclusive, na modalidade do transporte individual teria algum sentido se fosse duplicada a rua Deputado Antônio Edu Vieira inteira, para dar mais agilidade no trânsito naquela região. Não é o que está em debate. Parece até que a própria duplicação é mais interesse comercial que está em jogo do que a resolução efetiva de um problema de mobilidade.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)