49ª Sessão Ordinária - 30/06/2005
O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Sr. Presidente, agradeço a V.Exa. pela sua sensibilidade e por valorizar o debate no Parlamento. E também agradeço a todos os Deputados que estavam trabalhando em seus gabinetes e que, ao perceberam a polêmica, voltaram para viabilizar que houvesse a possibilidade da continuidade da sessão.
Na verdade, eu havia reservado para fazer, neste último dia dos nossos trabalhos enquanto sessão legislativa na Assembléia, uma flexão que, neste momento, vem tomando conta do meu pensamento. Esta conjuntura que nós vivemos, seja com relação aos fatos do dia de ontem aqui na Assembléia Legislativa, muito bem apontados pelo Deputado Dionei Walter da Silva, seja pelas circunstâncias gerais da conjuntura econômica do nosso País, pela situação política, olhando, inclusive, outros países no nosso continente latino-americano, como é o caso da Bolívia, da Venezuela, do Equador, da Argentina... Eu confesso que sempre faço um grande esforço para buscar interpretar esses momentos em ações práticas, em debates políticos que nos dêem diretrizes e encaminhamentos para superar.
Veio-me à reflexão uma frase de um dos grandes pensadores do século XIX, Marx, que disse o seguinte: que os filósofos até então haviam tratado de interpretar o mundo e que a grande tarefa era transformar o mundo. E nós queremos fazer as mudanças, as transformações, mas deparamo-nos com inúmeras dificuldades; esbarramos, às vezes, com as condições econômicas, sociais, culturais e políticas que ainda não são dadas, mas que nós somos gestores, sujeitos da busca dessa transformação.
Queria dizer, Sr. Presidente, que estou na condição de quem defende a construção de um mundo novo onde não vai existir separação dessa massa crescente de miseráveis, de excluídos da sociedade, porque hoje existe um grupo muito seleto que cada vez mais se apodera de riquezas e dinheiro, uma sociedade que produz uma grande desigualdade; eu me coloco na condição de militante de uma nova sociedade onde não vai haver nenhuma criança fora da escola, e hoje não podemos dizer que é por falta de professor ou que não há ninguém passando fome por escassez de alimentos, mas sim porque essa sociedade engendra uma forma de funcionamento cujo resultado final é a exclusão e o apoderamento de riqueza e de dinheiro.
Nós, que somos portadores do ideal de uma nova sociedade socialista, fraterna, que constrói laços de novas relações generosas entre a humanidade, que queremos um novo mundo, deparamo-nos muitas vezes com as dificuldades de transformar. Por isso o pensamento de Marx: "Os filósofos até agora trataram de pensar o mundo, o desafio é transformá-lo". De fato é um desafio porque nos deparamos muitas vezes com condições adversas.
Aqueles que defendem apenas ajustes, apenas reformas para mediar as desigualdades, não se angustiam tanto quanto eu, quero aqui dizer, Sr. Presidente. Por quê? Porque o socialismo é um projeto de sociedade idealizado. Ele está previamente antecipado, concebido como uma possibilidade de futuro, mas ele tem que ter uma viabilidade histórica concreta.
Já os que defendem a manutenção da ordem social capitalista e pretendem fazer algumas mudanças, algumas reformas apenas, é bom dizer, não tiveram essa sociedade como produto de uma idealização. O capitalismo não foi idealizado. Não houve ninguém que antes de ele existir o havia concebido previamente. Não houve nenhum partido que se dizia: eu sou o partido de uma nova sociedade, eu não quero mais uma sociedade escravagista, eu não quero mais uma sociedade feudal; eu sou defensor de uma sociedade nova, que deveria ser a sociedade capitalista, que funcionaria da seguinte forma: "a", "b", "c" e "d". Não! O capitalismo não foi previamente antecipado enquanto idealização. Ele foi uma circunstância histórica.
Já para nós socialistas não! O socialismo é uma antecipação. É previsão de um processo histórico da humanidade, que tende a conduzir numa superação dessa ordem social vigente - tende a conduzir.
Nós sempre defendemos que a mudança, fazer nascer, gestar esse mundo novo, deve ser uma estratégia combinada de duas mãos. De um lado a luta do povo, daqueles que sentem no dia a dia o peso de viver nessa sociedade, assim como aconteceu com os escravos, que, como sentiam o peso de viver na sociedade escravagista, trouxeram para si a rebelião e a vontade de negar aquela sociedade. Nós acreditamos que a mudança vai nascer do conjunto da classe explorada e oprimida desta sociedade. Entendemos que será a luta popular, a luta da massa, do povo, que vai fazer as mudanças, mas precisamos trabalhar também na perspectiva da oportunidade institucional - Governos, Parlamento, Prefeituras, Vereadores, Deputados, Ministérios e Governo Federal - para ser gestor dessa mudança.
Por isso, para nós, neste momento, a conjuntura, nos faz desafiar efetivamente o sentido de algumas conquistas e a necessidade de corrigir rumos, sob pena de ficarmos cada vez mais distantes do sonho, da conquista deste mundo novo, um mundo generoso, de solidariedade, de fraternidade, que busca primar pela liberdade, pela igualdade, que são valores inclusive de um mal que vem lá do século passado.
Então, encerrando, eu quero dizer que esta Legislatura para nós é um espaço de luta para um mundo novo.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)