76ª Sessão Ordinária - 06/10/2005
O SR. DEPUTADO FRANCISCO KÜSTER - Sr. presidente, sras. deputadas e srs. deputados, o meu retorno à tribuna nesta oportunidade é para fazer um comentário a respeito das maluquices do governo ou dos governos.
Quando o deputado Pedro Baldissera estava na tribuna eu me posicionei ao microfone de aparte e imagino que ele tenha ficado receoso de que aditássemos o seu moderado pronunciamento, mas nem por isso deixou de ser forte, firme em algumas questões, até que num determinado momento ele disse: "temos que tratar sem demagogia", etc., com o que concordo.
Não tenho como prática habitual, não sou useiro e vezeiro em recorrer à demagogia. Reporto-me a fatos. Lembro-me de que na década de 50, início da de 60, no governo da República de então, governo empreendedor de Juscelino Kubitschek, figuras ligadas ao setor energético pretendiam desviar o rio Canoas, no planalto serrano, para descer pela serra do Pirimbó.
Imaginem a maluquice se tivesse acontecido isso; na época das enchentes haveria uma tragédia! Houve toda uma resistência; lembro que o saudoso escritor Licurgo Costa, com artigos sérios e fortes, chegou até lá e aquele projeto foi abandonado.
Mas aquela maluquice ia acontecer! Queriam desviar o rio Canoas para fazer uma usina, mas acabou não acontecendo. É um fato que é bom relembrar essas coisas malucas que aconteceram e que de repente se repetem, ou seja, os fatos se repetem com outros personagens.
Hoje o problema é com o São Chico - o rio São Francisco - esse rio que é uma lenda. Quantos rios, deputado Pedro Baldissera, Israel desviou para tornar férteis aqueles desertos? Daí damos razão ao discurso ponderado, respeitoso de v.exa., que é da base do governo, mas nem por isso deve ficar indiferente ao que poderá acontecer.
Nós percebemos, deputado Lício Silveira, que preside esta sessão, a firmeza de dom Luiz Cappio, a serenidade com que ele colocou suas idéias. E ele vai, deputado Antônio Carlos Vieira, às últimas conseqüências. Existem pessoas que são determinadas. Para ele vai ser a glória ter a vida sucumbida em nome de uma causa desse porte.
Portanto, o governo tem que pensar muito porque isso poderá transformar-se num escândalo internacional - se esse frei vier a perecer por greve de fome, por uma causa dessa natureza, dessa envergadura.
O Sr. Deputado Antônio Carlos Vieira - V.Exa. nos concede um aparte?
O SR. DEPUTADO FRANCISCO KÜSTER - Pois não!
O Sr. Deputado Antônio Carlos Vieira - Gostaria que v.exa. me elucidasse, porque, pelo que tenho lido na imprensa, o bispo não é contra a transposição do rio São Francisco; ele é contra a transposição nas condições em que está hoje o rio São Francisco. Ele entende que tem que ser despoluído para depois fazer a transposição. Ele não é contra a transposição. Ele é contra transpor como está hoje o rio! E aí concordo com ele. Vamos despoluir primeiro e depois jogar água boa para onde se deseja. Salvo prova em contrário, essa é a posição do bispo. O bispo não é contra a transposição! Ele é a favor, só que entende que deve ser despoluído primeiro para depois fazer a transposição.
O SR. DEPUTADO FRANCISCO KÜSTER - Agradeço a v.exa. pelo seu aparte, esclarecedor, ao meu pronunciamento.
Também não estou dizendo que, por ser o rio São Francisco algo de extraordinário para aquela região do Brasil, não deva acontecer um projeto de um aproveitamento melhor, mais racional, um projeto voltado para a vida. Isso é importante. Agora, fazer de uma forma só porque estamos no governo e temos disponíveis R$ 5 bilhões, deputado Lício Silveira?!
Queremos para a BR-282 míseros R$ 40 milhões e para lá serão disponibilizados R$ 5 bilhões. É algo parecido com a Ferrovia Norte/Sul do Sarney e outras tantas maluquices, como a Transamazônica, agredindo a natureza. Eles faziam cem quilômetros de rodovia, vinham as cheias e desaparecia a rodovia, ou seja, a natureza dizia que ali não podia.
Então, são maluquices que os governos fazem de forma impensada, de forma demagógica, porque têm acesso fácil ao dinheiro da sociedade, do povo, do coletivo, para canalizar determinados projetos sem um grande debate, sem um debate que permita esclarecer todas as dúvidas, que permita o aprofundamento na viabilidade, na importância e na justeza do projeto.
Esse projeto do rio São Francisco da forma como está é mais uma peripécia do ministro Ciro Gomes. Talvez seja importante, talvez seja necessário, talvez tenha que acontecer um aproveitamento melhor, mais racional, das águas do rio São Francisco, talvez tenhamos que socializar mais as águas do rio São Francisco, mas não da forma como estão fazendo. E essa é uma obra, um empreendimento, que vai exigir do governo federal algo em torno R$ 100 milhões/ano para manutenção.
Apresentou em boa hora essa proposição o deputado Pedro Baldissera, que nós todos aprovamos, apoiamos - e não poderia ser diferente -, para que o governo tome um pouco de cuidado com relação ao posicionamento desse religioso, porque ele está-se sentindo muito bem servindo a essa causa, a esse pleito. Então, é preciso ter certo cuidado, é preciso conversar e não simplesmente criticar.
Os tempos da ditadura eram tempos de chumbo. Testemunhamos algumas greves de fome. Nós buscamos diuturnamente uma negociação para inverter o processo, para inverter aquela posição firme das pessoas que estavam ali, destemidamente, em uma posição inarredável. Era a forma de protestar e de lutar, sem espingarda, sem revólver, sem canhão, sem granada, sem nada, contra um regime que sufocava as pessoas, que cerceava o direito das pessoas.
A greve de fome é um expediente que os cidadãos dispõem hoje de submeter ao risco a própria vida na defesa de uma causa. E nós esperamos que o governo federal se sensibilize e trate de forma mais racional, mais inteligente, mais democrática esse empreendimento, se ele pretende que seja importante, e por certo será, àquela região. Mas que faça de forma mais transparente e que evite, já no seu início, uma tragédia com a vida de um religioso que ousou opor-se ao projeto da maneira como está sendo concebido.
Queria fazer esse comentário, deputado Pedro Baldissera, mesmo que me posicionando no microfone de apartes, eis que eu não iria recorrer a um discurso falacioso e demagógico para condenar o governo federal, porque não são exclusividades deste governo as maluquices. Outros governos, mais competentes até, também ousaram ameaçar o povo com algumas maluquices.
Era o registro que queria fazer na oportunidade.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)