27ª Sessão Ordinária - 10/04/2008
O SR. DEPUTADO CESAR SOUZA JÚNIOR - Sr. presidente, srs. deputados, sras. deputadas, o que me traz à tribuna é um tema que toca diretamente a vida de mais de um milhão de pessoas na região da Grande Florianópolis.
Hoje, a cidade de Florianópolis e todo o seu entorno, toda a Grande Florianópolis, sofrem, e sofrem muito, com o ocaso do seu sistema de trânsito. Não raro, trabalhadores levam duas horas e meia, três horas, para ir trabalhar, e mais duas horas e meia, três horas para retornar. Aqui não é São Paulo, nós estamos em Florianópolis. E todos assustados, hoje, vêem, que no ritmo atual, com tantos emplacamentos, com tanta compra de automóvel, facilitada recentemente pela explosão do crédito - e é legítimo que as classes que não tinham antes o seu automóvel queiram comprar, é justo -, tem levado, aliada à decadência do transporte coletivo e à falta de alternativas, a um ocaso urbano na região da Grande Florianópolis.
Implantou-se, nesta cidade, um sistema integrado que funcionou em muitas capitais brasileiras e mundiais, com estação de transbordo, mas Florianópolis, especificamente, vive hoje uma grande dificuldade na sua implantação. E com certeza isso se deve a que esses sistemas implantados em várias cidades brasileiras, Curitiba é um exemplo, previram vias exclusivas para os ônibus. Assim você garante previsibilidade nos horários e o sistema passa a funcionar.
Sem dúvida que a alternativa para que se faça um transporte que sustente a cidade no decorrer da sua história, é a opção pelo transporte coletivo. Capitais mundiais, cidades que optaram pelo transporte individual, hoje, mesmo com pesados investimentos, vivem um caos urbano. Um exemplo notório é a cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, o caso terrível, que já inviabiliza a cidade com a aglomeração urbana, é o caso de São Paulo.
Mas para isso acontecer, o transporte tem que ser eficiente e as ações têm que ser voltadas na direção de melhorar o transporte coletivo, preparando a cidade para as vias exclusivas para ônibus, preparando a cidade para novas opções de transporte coletivo.
Há muitos anos que se fala em Florianópolis - e quem fez algo de prático até hoje, neste sentido, foi o ex-prefeito Sérgio Grando - sobre o transporte marítimo. Mas desde as primeiras iniciativas até hoje, deputado Sérgio Grando, não houve uma decisão firme de apostar na sua utilização. Não há sequer estabelecido e claro um plano de negócios para essa nova opção de transporte coletivo, que em cidades com a geografia parecida com a da Grande Florianópolis funcionam perfeitamente bem.
Mas é preciso saber que volume de pessoas transportar, qual o custo do sistema, como ele vai manter-se e isso até hoje não está claro. Então, essas novas opções como transporte coletivo e também o metrô de superfície têm que ser perseguidas de maneira obsessiva, assim como um transporte de ônibus mais moderno, mais eficiente e com vias exclusivas.
Construir elevados, fazer terceira, quarta, quinta, sexta, sétima ponte, não vai livrar a cidade do caos. Essa é uma maneira arcaica, canhestra de se administrar essa grande dificuldade das aglomerações urbanas modernas, que é o transporte coletivo. Tem que haver mais inteligência, enfocar de maneira obsessiva o transporte coletivo, buscar alternativas, e elas existem. Além do metrô de superfície, que é uma alternativa que não é barata, mas é limpa, é prática, é eficiente e é adotada ao redor do mundo, também existe a facilidade que a natureza nos deu de ter o mar como uma pista livre, mas que até hoje não foi explorado, apesar de tanto discurso.
Srs. deputados, a cidade precisa planejar-se para buscar no transporte coletivo uma solução, mas se insistirmos no atual sistema, no atual modelo de carros individuais, logo, logo a cidade estará inviabilizada. Não só inviabilizada do ponto de vista humano, mas também do ponto de vista econômico. Cidades que têm um transporte coletivo complicado, difícil, são menos visitadas, atraem menos negócios. Esse fenômeno já acontece ao redor do mundo, mas é preciso uma decisão clara. É bonito, é agradável inaugurar obras viárias; inauguram-se elevados que exigem novas pistas de rodagem; projetam-se novas pontes, isso é algo que costuma funcionar muito bem eleitoralmente. Agora, do ponto de vista do futuro da cidade, tem que haver mais sofisticação nas propostas de futuro.
Além de facilitar o transporte coletivo, o trânsito das pessoas, é preciso também criar mecanismos para que os empregos sejam gerados onde moram as pessoas, nos bairros. Isso hoje não existe. Várias cidades, ao redor do mundo, encontraram essa solução operando com incentivos tributários para que as pessoas possam ter o seu emprego perto do lugar onde residem.
Deputada Ada De Luca, em nossa ilha por si só já é difícil o transporte das pessoas. Ela é geograficamente complicada. O que nós temos que fazer é atrair empresas e o município pode fazer isso através de programas tributários, a fim de que elas se instalem, por exemplo, nos Ingleses ou na Tapera para que as pessoas não precisem transitar tanto.
Hoje, os empregos estão colocados exclusivamente no centro da cidade e essa é uma das causas do grande transtorno do transporte coletivo.
A Sra. Deputada Ada De Luca - V.Exa. me concede um aparte?
O SR. DEPUTADO CESAR SOUZA JÚNIOR - Ouço, em aparte, v.exa.
A Sra. Deputada Ada De Luca - Parabéns, deputado Cesar Souza Júnior, pelo pronunciamento de v.exa. Mas gostaria de dizer que uma grande saída para a nossa tão querida Florianópolis é o transporte marítimo entre o continente e a ilha, onde há o maior fluxo de carros. Esse é um caso a ser estudado e esta deputada também já está estudando.
Muito obrigada e parabéns!
O SR. DEPUTADO CESAR SOUZA JÚNIOR - Perfeito, deputada Ada De Luca, muito obrigado.
Como vinha colocando, é algo que precisa sair do papel, mas para que isso aconteça tem que haver decididamente algo que funcione e que seja economicamente sustentável. Temos que saber: o transporte se mantém? O transporte é deficitário? E se é deficitário, em que grau? Pode ser também um transporte deficitário, mas que seja um investimento público, necessário a semear o futuro.
Mas se o transporte marítimo for implantado, tem que ser integrado a meios de transporte que levem as pessoas da beira do mar para o centro da cidade. Tem que haver outra modalidade. Não adianta nós jogarmos as pessoas aqui nos aterros da baía norte e baía sul e não haver essa interligação.
Porém, sem dúvida, as alternativas de transporte coletivo são fundamentais. Com o atual modelo persistindo e cada vez mais todos buscando o transporte individual para irem e voltarem do trabalho, com as alternativas de trabalho concentradas quase que exclusivamente no centro da cidade, Florianópolis pode, em médio prazo, inviabilizar-se como aglomeração humana e sofrer grandes reveses na sua economia. Mas ainda é possível reverter a atual situação.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)