44ª Sessão Ordinária - 22/06/2004
O SR. DEPUTADO FRANCISCO KÜSTER - Sr. Presidente Sras. Deputadas e Srs. Deputados, quase que seria dispensável a nossa vinda à tribuna, mas vamos usar a plenitude do horário para falar da figura de um grande político que partiu, que nos deixou, recentemente. E eu vou propor, inclusive, aos Srs. Líderes, se entenderem interessante, a exemplo do Congresso Nacional, a suspensão do expediente deliberativo em homenagem póstuma à figura do Dr. Leonel Brizola.
Nós já estivemos na tribuna discorrendo sobre essa figura ímpar, que é Brizola, mas quero discorrer mais um pouco, afinal de contas, são 60 anos de vida pública. E o Deputado Cézar Cim, que é o seu correligionário, que é o pedetista desta Casa, fez um pronunciamento a seu respeito emocionado. Em alguns momentos, ele parou e baixou a cabeça, e nós sabemos quando as pessoas se emocionam.
Nós fizemos também o primeiro pronunciamento de ordem política nesta tarde focalizando essa figura ímpar da política brasileira. Mas me ocorreu, neste espaço de tempo, mais algumas referências à pessoa de Brizola.
Na Assembléia Nacional Constituinte, Deputado Antônio Carlos Vieira, tive a oportunidade de conviver e sentar ao lado do ex-Deputado Federal, sociólogo, que também já partiu, o professor Florestam Fernandes, socialista convicto. E ele dizia: "o Brizola não é capitalista, não é comunista, não é socialista. O Brizola é trabalhista". Em duas oportunidades eu ouvi isso do professor Florestan Fernandes.
E ele dizia isso com o intuito de reverenciar a obstinação de Leonel Brizola na defesa do trabalhismo, na defesa do que ele acreditava.
Nós, que somos da Serra, de Lages, e naquele tempo já militávamos no II Batalhão Rodoviário, e não raras vezes íamos ao Rio Grande do Sul e, como bem lembrou o Deputado Celestino Secco, nos deparávamos com as escolinhas brizoletas. Ele era um obstinado na causa da educação como ninguém! E nós temos grandes figuras vocacionadas para a educação brasileira, mas Brizola tinha uma obstinação muito própria, que era muito dele.
Quero lembrar, também, que a primeira escaramuça, no campo da reforma agrária no Brasil, foi feita por Brizola, no Rio Grande do Sul, como também a nacionalização da companhia de energia elétrica, da companhia telefônica, bem lembrada pelo Deputado Cézar Cim. Lembro-me bem desses acontecimentos que arrepiaram os elevados interesses dos grandes conglomerados multinacionais, naquela época.
Ele pensou mais no povo, naqueles que não tinham acesso a esses serviços que eram concessões. Não tinham porque os detentores só levavam para quem pagava bem. Pois ele ousou nacionalizar esses serviços naquela época!
A figura do ícone, bem lembrada aqui pelo Deputado Afrânio Boprré, é um símbolo das lutas, como ele mesmo dizia, do trabalhismo.
Eu me pronunciei, inicialmente, como cidadão, como Parlamentar, e agora, em nome do meu Partido, pronuncio-me reverenciando a memória desse homem público de 60 anos de militância na coisa pública, que foi perseguido e investigado por todos, pelos poderosos, porque ele era polêmico, era extremo nas suas demandas. Mas nunca encontraram nada que desabonasse a figura, a conduta de um ex-Prefeito, de um ex-Governador por três vezes, de um Deputado Estadual, de um Deputado Federal. Porque se tivessem os seus inimigos encontrado alguma coisa, com certeza teriam a alegria imensa de crucificá-lo vivo.
E ele era ousado, ele escorava, não tinha, como já dissemos, papas na língua para o enfrentamento.
Fazia suas articulações políticas como só ele mesmo. Mas fazia à luz do dia, nada na calada da noite. Algumas vezes até em relação ao que ele pensava, o que nós sabíamos que ele pensava, e defendia, até meio contraditórias, mas ele fazia. Tão logo não desse certo ou por um motivo qualquer, ele também as desfazia.
Foi assim Leonel Brizola: um idealista que pensou no povo, nas crianças pobres, nos trabalhadores, defendeu os trabalhadores, lutou pelo trabalhador, pensou no funcionário público. Porque na sua concepção, ele não via o Estado sem um corpo funcional técnico, profissional e bem remunerado para dar uma resposta às demandas da população e da sociedade que procurava no serviço público o atendimento para o seu socorro.
Ele pensava nas pessoas que se dedicavam à causa do trabalho no serviço público, que elas tivessem condições de viver com dignidade, com boa remuneração e bem profissionalizadas. Era assim o Leonel Brizola, e era assim que nós o víamos.
Divergimos em várias oportunidades, como eu já disse. Quando ele chegou no Brasil, em retorno do exílio, num arrombo discursivo, disse que a Oposição aqui era muito condescendente com o regime militar; que a Oposição verdadeira estava no exílio. E eu, que era um fã de carteirinha, mas não deixei de ser um fã do Brizola, disse que os nossos caminhos teriam que ser, mesmo que paralelamente, separados, porque não dava para ouvir... Nós enfrentávamos na época o regime militar e sabíamos, claro, que lhes faltavam as informações necessárias.
E chegou aqui e foi o grande comandante da luta pelas Diretas Já, pela campanha das eleições diretas e por outros grandes eventos, como a Assembléia Nacional Constituinte. Quanto ele ajudou, com a sua maneira de ser, de ver a necessidade de um Estado contemporâneo, com um novo ordenamento jurídico, que fosse o grande guarda-chuva da Nação brasileira e dos interesses dos brasileiros.
Nacionalista como ninguém, muito embora a realidade internacional oriunda da globalização atropelasse a tudo e a todos, ele defendia como ninguém isso. E não raras vezes se insurgia até contra esse processo que ele denominava. E eu me lembro bem que ele disse, numa oportunidade, que esse processo servia muito mais aos interesses dos dominadores do que dos dominados, o que é óbvio, mas que nós, em sã consciência, não poderíamos ficar à margem, sob pena de ficarmos muito atrás da história. Assim foi Brizola. Assim foi a sua luta.
Lembrei, também, há pouco, em aparte ao Deputado Cézar Cim, de uma expressão dele: "Pensam, desejam muito os meus adversários que eu me aposente, que eu caia fora da política". E aí usou a expressão: "Mas tal qual cavalo inglês, vou morrer lutando e na vida pública". Que é aquela história do cavalo inglês que não foge do páreo.
Por isso, nada mais justo que esta Assembléia Legislativa, Sr. Presidente, reforçando o meu apelo, ao encerrar a minha falação, suspenda o expediente deliberativo no dia de hoje.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)