44ª Sessão Ordinária - 06/05/2014
O SR. DEPUTADO ENI VOLTOLINI - Sr. presidente, srs. deputados, sras. deputadas, solicitei à assessoria do Partido Progressista, deputado Antônio Aguiar, que fizesse uma abordagem sobre a qual pretendo construir uma fala, a respeito de um comentário que considero infeliz de uma das mais importantes revistas do mundo britânico, The Economist, que no mês passado veiculou uma matéria chamada "A soneca de 50 anos". Ela diz nessa matéria que os brasileiros precisam sair desse estado de torpor para ajudar a economia do país a crescer. Segundo a publicação, a produtividade média do trabalhador brasileiro estacionou ou até caiu nos últimos 50 anos.
Diz ainda que a produção de cada trabalhador foi responsável por 40% do crescimento do PIB do Brasil, enquanto na China e na Índia esse valor foi de 91% e 67% respectivamente. Cita ainda que o baixo investimento na infraestrutura, a baixa qualidade na educação e a má gestão das empresas no país poderiam ser as causas dessas questões.
Antes de simplesmente nos indignar com esses comentários que sempre nos ferem, porque falar da nossa casa nunca é bem-vindo, falar do nosso país, do qual nos orgulhamos, ninguém aceita, talvez devêssemos fazer algumas avaliações sobre até que ponto matérias como essas podem ter algum contexto de verdade. Embora haja uma grande injustiça nessa publicação, queremos colocar aqui que ela acentua uma coisa que parece que nos países tropicais foi adotada como regra geral. E temos boa parte da nossa população situada na faixa equatorial. E isso agora tem até uma alcunha, deputado Antônio Aguiar, que se chama letargia tropical. Nome bonito para poder dizer que as pessoas que vivem nos trópicos, portanto mais ensolarados, são pessoas mais dolentes, que não se dedicam tanto ao trabalho.
Esse menosprezo infeliz que essa revista britânica faz certamente merece uma resposta de todos os brasileiros. E a melhor resposta que podemos dar àquilo que consideramos inverdades são as atitudes. E refiro-me a isso no momento em que tomei posse de novo nesta Casa.
A infraestrutura sobre a qual todos nós sempre falamos, os exemplos que aconteceram recentemente quando o tsunami se abateu no sudeste asiático, assim como a reconstrução de aeroportos e vias públicas, enfim, também temos que fazer a comparação necessária com o nosso país para entender se nos últimos 50 anos se industrializou, se algumas metrópoles infelizmente incharam, se a tecnologia assumiu quase todos os segmentos e no mundo surgiu a inevitável globalização. E isso não pode ser remetido a um processo de letargia de governos, mas sim a um descompasso entre o crescimento da infraestrutura e o nosso país. O descompasso aconteceu e foi mais sentido na ponta desse problema, com o cidadão, o trabalhador, que são apontados como o responsável pelo problema.
No Brasil algumas medidas começaram a ser adotadas, os chamados observatórios sociais. Citarei o exemplo de dois, o observatório social de Recife, onde foi divulgado diagnóstico que vem ao encontro do que estamos aqui analisando: ele comprova que o trabalhador está perdendo espaço no mercado de trabalho não por ser improdutivo, mas por questões que afetam sua própria mobilidade. Sem mobilidade, sem produção, o trabalho está parando, alerta estudo do observatório pernambucano, lembrando que isso afeta a produtividade com enormes prejuízos econômicos: sem caminho livre, mais tempo para chegar ao trabalho, não importa se for de carro ou ônibus.
A palavra mobilidade urbana cada vez mais, mesmo lá na longínqua Canoinhas, na nossa Florianópolis, na nossa Joinville, na nossa Chapecó, Tubarão, passou a ser o desafio dos governos.
Sr. presidente, v.exa. que por muito pouco não governava a cidade de Joinville, mas haverá momentos para isso com toda certeza, ressalta que as cidades estão cada vez maiores e cada vez menos estruturadas.
A Confederação Nacional dos Transportes aponta que um trabalhador brasileiro gasta 20% ou mais do seu tempo no trajeto de ida e volta de trabalho nas metrópoles. E sem dúvida nenhuma é fácil de comprovar o que isso causa, deputado Padre Pedro Baldissera, no rendimento dos próprios trabalhos.
O que estamos querendo dizer aqui é que não adiantaria apenas falarmos dos bons exemplos, por exemplo, da China que só nesses últimos sete anos construiu 100 mil quilômetros de autopistas ou que construiu oito mil quilômetros para o caminho dos trens-bala, porque são democracias, são governos diferentes, são orçamentos diferentes, são atitudes diferentes.
O Brasil precisa se resolver melhor. E quero, deputado Padre Pedro Baldissera, falar sobre a nossa ferrovia, que em 1996 aqui neste plenário nós discutimos aquela que foi apelidada de Ferrovia do Frango, a Ferrovia Leste/Oeste.
Enquanto outros estados se resolvem melhor politicamente, porque concentram as suas bancadas federais e estaduais em favor do benefício da aplicação dos recursos em infraestrutura, nós aqui, em Santa Catarina, continuamos discutir se o melhor seria passar pelo vale do Itajaí ou se melhor seria passar pelo planalto norte.
O melhor é que nós tivéssemos uma ferrovia leste oeste. E depois nós vamos discutir que ramais são necessários para que ela possa prestar melhor serviço.
O que eu quis trazer e quero abordar com mais profundidade em outros momentos é que às vezes discussões paroquiais atrapalham o desenvolvimento e implementação de infraestrutura num estado tão importante. Enquanto isso o frete inviabiliza muitos dos negócios e dos empregos em Santa Catarina.
Quero refletir melhor sobre isso na próxima oportunidade.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)