95ª Sessão Ordinária - 15/09/1999
O SR. DEPUTADO ROGÉRIO MENDONÇA - Sr. Presidente e Srs. Deputados, estou encaminhando à Mesa um requerimento solicitando a realização de uma sessão solene em homenagem ao Deputado Estadual Aníbal Khury, ex-Presidente da Assembléia Legislativa do Paraná, falecido recentemente.
Aníbal Khury foi considerado o Deputado do milênio no Paraná na última convenção do seu Partido.
Srs. Deputados, V.Exas. podem estar estranhando que eu, um Deputado do PMDB de Santa Catarina, esteja sugerindo uma homenagem a um político de outro Partido e de outro Estado, mas acontece que estou falando de Aníbal Khury.
Aníbal Khury, Deputado Estadual mais votado em toda a história legislativa do Estado do Paraná (teve mais de cem mil votos), morreu em Curitiba no dia 30 de agosto último aos 75 anos de idade.
Ele foi o mestre da política. Se quisesse, poderia ter sido, de forma unânime, candidato a Prefeito ou a Governador. Era cortejado por políticos de todo o escalão, do Vereador ao Ministro.
Ocupou por seis vezes o Governo do Estado do Paraná, mas sempre na ausência dos titulares, com permissão da Assembléia.
Em seu gabinete na Assembléia atendia a todos sem cerimônia, independentementede Partido Político ou posição social. Da solene gaveta de sua escrivaninha tanto podia sair um brinquedo para o engraxate quanto a doação, sempre em dinheiro vivo, para uma creche, escola ou orfanato.
Os cafés-da-manhã em sua casa eram abertos, era a oportunidade de os políticos e pretendentes a cargos eleitorais trocarem idéias com o "guru", como era chamado.
Baixo e gordo, sorriso aberto, grossas sobrancelhas, montou o arcabouço político do Paraná da segunda metade deste século com simplicidade e modéstia. Mas usou, principalmente de sua memória quase fotográfica, dos episódios passados e de uma incrível capacidade de fazer relações entre eles e o futuro. Isso lhe dava aguda percepção dos fatos políticos por vir, razão do respeito e da admiração de todos os que com ele conviveram. Razão também de temores, porque quando contrariado virava um inimigo tão radical quanto sabia ser amigo.
Seus pais, Salomão e Wadia Kassab Khury, eram libaneses oriundos do Vale do Bekaa, com tradição no plantio de figueiras e oliveiras. A família se radicou em União da Vitória. A mãe ensinava libanês aos filhos dos "patrícios" e o pai fez fortuna como dono de um grande armazém e como industrial madeireiro.
Naturalizando-se brasileiro, Salomão se elegeu Vereador e foi Presidente da Câmara de Porto União pelo PSP de Ademar de Barros. Recebia dezenas de amigos em casa, em União da Vitória, para jantares e noitadas memoráveis.
Aníbal cresceu nesse ambiente e herdou do pai a veia política e a facilidade de fazer amigos. Começou na política elegendo-se Vereador em União da Vitória, em 1948, pela UDN. Em 1950, candidato a Deputado e praticamente eleito, sofreu um acidente de carro uma semana antes da eleição. Impedido por isso de fazer o trabalho de boca de urna, ficou na suplência por apenas cinqüenta votos. Foi a primeira e a única eleição que perdeu na vida.
Sem mandato político, foi nomeado funcionário do Instituto Brasileiro do Café e mais tarde integrou uma comissão do antigo Departamento de Geografia, Terras e Colonização, que distribuía títulos de propriedade de terras devolutas nas regiões Norte e Oeste do Paraná.
Eram áreas despovoadas, bastava que o interessado requeresse a posse. Uma comissão ia ao local, media, listava os interessados e preparava os títulos de venda a preços simbólicos, que eram assinados pelo Governador. Foi trabalhando assim que Aníbal Khury construiu seus redutos eleitorais em dezenas de Municípios do Paraná.
Elegeu-se Deputado Estadual em 1945 e realmente nunca mais perdeu uma eleição. Foi, isto sim, cassado pela ditadura militar em 1969, por uma série de acusações de inimigos estimulados pelo regime. Preso e interrogado no Quartel da Lapa, no Quartel do Boqueirão em Curitiba e na Polícia Federal, foi denunciado em diversos processos, para responder a acusações tão improcedentes quanto surrealistas: contrabando de café e de armas, conspiração com terroristas internacionais para matar o Presidente Costa e Silva, desvio de verbas da Assembléia e da Caixa de Previdência dos Servidores Legislativos, exploração do jogo do bicho, negociata com terras pertencentes a áreas indígenas e tráfico de influência.
De todas se livrou, brilhantemente defendido pelo saudoso Alcides Munhoz Neto. Mas a Junta Militar que sucedeu o Presidente Costa e Silva em novembro de 1969 baixou decreto suspendendo por dez anos seus direitos políticos e confiscando, para sempre, parte apreciável de seu patrimônio: um loteamento em Cascavel, um terreno e diversas propriedades em Curitiba e em Guaraqueçaba, no litoral do Paraná.
Proibido pelos militares de freqüentar lugares públicos, participar de reuniões ou apoiar candidatos, viveu os anos de chumbo contribuindo para sucessivas reeleições de seu cunhado Ítalo Conti a Deputado Federal e jogando discretamente na retaguarda de campanhas de alguns amigos, como José Richa, Valmor Giavarina e Alencar Furtado, coincidentemente todos na oposição ao regime militar. O então Ministro da Justiça, Alfredo Busaid, chegou a ameaçar Aníbal Khury de confinamento na Ilha de Fernando de Noronha.
Em 1977, Aníbal aceitou presidir o Clube Atlético Paranaense em meio a uma das piores crises de sua história. Pagou dívidas de uma década, revelou jogadores e chegou bem perto do título de campeão de 1978, perdido nos pênaltis para o grande rival Coritiba, após três partidas empatadas em zero. O tempo no Atlético era uma preparação para sua repopularização política, já visando à anistia e, finalmente, a uma próxima candidatura.
Só voltou à cena política em 1982, ingressando no Partido Progressista, o PP, liderado nacionalmente por Tancredo Neves. Mas havia o pacote de abril de 1977, do General Ernesto Geisel, que inventou, entre outras armadilhas, a figura do senador biônico, com oito anos de mandato indireto, e a proibição de coligações.
O PP se incorporou ao PMDB, que em 1982 elegeu José Richa Governador e Álvaro Dias senador. Aníbal passou a participar da executiva estadual e se elegeu novamente Deputado Estadual. Tal como no passado, passou a ser o principal conselheiro dos políticos, o "guru", o "buda".
Este homem que recebia em sua casa e em seu gabinete platéias heterodoxas, que recheava de fábulas suas observações, que acumulou um profundo conhecimento da história política do Paraná e do País, tinha uma rara visão de futuro.
Aníbal Khury defendeu o Paraná como um jogador campeão: armava com precisão e notável objetividade o desenho político paranaense. Ouvia mais do que falava; preferia agir do que prometer. Foi amado e odiado, cassado, invejado e respeitado. Muitos tentaram imitá-lo, mas ele sempre será lembrado como o condutor da política paranaense nas últimas cinco décadas.
Aprovou a legislação que permitiu ao Estado a mudança de seu perfil econômico, da agroindústria para a industrialização de fato e de direito, puxada pelo novo pólo automobilístico da Grande Curitiba e acompanhando as vocações regionais.
Este político que conhecia cada detalhe da história política do Paraná e do Brasil não recebeu em nível nacional o mesmo reconhecimento. Discreto, preferia agir nos bastidores num jogo que armava tão bem quanto seu pai, que, na nova terra, convencia fregueses a comprar os artigos do armazém e as madeiras que industrializava.
Aníbal Khury morreu com uma grande mágoa: não conseguiu unificar o Paraná e Santa Catarina. A linha do trem que separa até hoje União da Vitória (PR) de Porto União (SC) fazia-o lamentar permanentemente o Acordo de Limites de 16 de outubro de 1916.
Este político que se dizia "filho do Contestado" não nasceu em União da Vitória. Quis o destino que Aníbal Khury nascesse catarinense, em Porto União.
A este filho da nossa terra, nada mais justo que um marco de união entre as cidades-gêmeas, homenageando a memória de sua vida democrática e o seu especial talento de fazer amigos, porque, se cidades têm limites, gente não tem fronteiras. E é essa forma generosa de pensarmos e construirmos o Brasil do próximo milênio.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)