Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Sargento Amauri Soares

98ª Sessão Ordinária - 30/10/2014

O SR. DEPUTADO SARGENTO AMAURI SOARES - Sr. presidente, srs. deputados, sras. deputadas, quero reiterar o convite a todos os deputados e deputadas e a todos que estão nos ouvindo para participarem de uma sessão especial nesta noite, aqui, na Assembleia Legislativa, em homenagem aos 90 anos da Coluna Prestes, completados no dia de ontem. É um evento histórico da sociedade brasileira, de singular importância para definir o futuro da República, a partir da década de 20, inclusive definidor de movimentos posteriores que vieram mudar a história da República brasileira.

Temos ouvido falar pouco sobre a Coluna Prestes e muito menos do que a importância desse fato histórico tem para a sociedade brasileira. E isso se deve principalmente pelo fato de que a sua principal liderança, Luiz Carlos Prestes, alguns anos depois de terminada a marcha da coluna tornou-se comunista.

Então, esse assunto não entra na educação formal nas escolas, ou entra muito en passant. Quando se fala do Movimento Tenentista, muito en passant se cita, mas não se busca aprofundar, porque a principal liderança daquele movimento tornou-se comunista. Mas ele é absolutamente importante, deputado Nilson Gonçalves. E, aliás, não pode ser confundido, como às vezes se faz por boa ou má-fé, com um movimento de caráter comunista, porque não era. A história precisa ser contada e mostrada da forma tal qual ela é.

A Coluna Prestes que na verdade recebeu esse nome já no período que estava acontecendo, de outubro de 1924 até fevereiro de 1927, mas especialmente neste período desta data até outubro de 1930, foi muito comentada pela opinião pública brasileira. E o próprio Luiz Carlos Prestes muito saudado pela opinião pública brasileira, inclusive pelos grandes jornais da época, porque se tinha no Prestes como a figura que poderia seguir um programa liberal que pudesse derrotar a República Velha.

Então, imaginavam isso e trabalhavam nesta tese de diversas lideranças, de diversas autoridades políticas, em alguns setores da oligarquia, nas hipóteses de Luiz Carlos Prestes ser candidato a presidente ou então ser chefe de um movimento pela instauração de uma República liberal, que derrotasse a República Velha existente até então.

Mas eis que em 1930 Luiz Carlos Prestes disse: "Não, eu não vou com esse movimento". E foi convidado inclusive por Getúlio Vargas para ser o chefe militar do movimento de 1930, chamado de Revolução de 1930. E recusou justamente porque disse: "Esse é um movimento de caráter liberal, é uma fissura nas oligarquias dominantes no campo e de setores insipientes da burguesia nos espaços urbanos. E eu não vou, porque esse movimento não vai resolver os problemas mais sentidos e estruturais profundos que afetam o conjunto do povo pobre brasileiro."

Evidentemente que deixou de ser saudado e de ser chamado de Cavaleiro da Esperança e passou a ser chamado, naquele momento por seus próprios ex-companheiros e tenentes, de traidor.

Uma década e meio depois vimos, depois do Estado Novo e das dificuldades também com o governo Getúlio Vargas, especialmente da ditadura do Estado Novo, que o Prestes estava certo em 1930.

Teremos uma sessão especial na noite de hoje, neste Plenário, com a presença da historiadora Anita Leocádia Prestes que vai falar desse movimento importante na história do Brasil, o Movimento Tenentista, e dentro dele especificamente a chamada Coluna Prestes.

Para quem conhece um pouco mais dessa história, a Coluna tinha formalmente como comandante Miguel Costa que era major da Polícia Militar do Estado de São Paulo, comandante da Força Pública do Estado de São Paulo. Hoje se fala Polícia Militar, mas na época era Força Pública do Estado de São Paulo. Ele já havia participado do levante de cinco de julho de 1924, na capital paulista, e encontrou com Prestes em abril de 1925, em Foz do Iguaçu, no Paraná.

A coluna gaúcha saiu do interior do Rio Grande do Sul, a partir do dia 28 de outubro de 1924, ou se encontrou com os paulistas, em Foz do Iguaçu, em abril de 1925. E por insistência e tática de Luiz Carlos Prestes é que prosseguiu, porque a maioria dos paulistas estava desertando, desistindo ou se rendendo ao governo do período, que era o governo de Artur Bernardes.

Então, a tática definida por Luiz Carlos Prestes de guerra em movimento é que garantiu a sobrevivência por mais de dois anos desse movimento composto por militares e civis, a maioria homens, mas também com cerca de 50 mulheres. Eles recusaram abandonar a Coluna, diga-se de passagem, e acompanharam a marcha. Tinham um efetivo que variou de 1.500 a 700 e poucos filhos do povo brasileiro, gente pobre, militares, filhos de agricultores, mas também composto por muitos voluntários civis.

Era um movimento militar e popular que tinha como objetivo algumas mudanças na política brasileira. Eles entendiam que derrubando Artur Bernardes, um ditador, teriam a emancipação e a possibilidade de progresso do país. Defendiam reformas políticas e sociais, como o voto secreto, direito e combate à corrupção que já existia no governo na década de 20, no governo da República Velha. Era uma luta contra as oligarquias mais retrógradas da sociedade brasileira.

Então, derrubar Artur Bernardes era o objetivo militar e político imediato do Movimento Tenentista e da Coluna Prestes em especial. E como eu já falei, o Miguel Costa era formalmente comandante, o Prestes chefe do estado maior.

Do caráter do comandante da Coluna Prestes eu gostaria de registrar um fato que faz muita falta na política e talvez na caserna nos dias de hoje, que é o exemplo.

Quando a Coluna internou-se, pediu asilo ao governo boliviano, Prestes que era engenheiro militar fez contratos com o governo da Bolívia para construir estradas. O objetivo era garantir que cada soldado, cada integrante da Coluna recebesse um salário para poder seguir um rumo na sua vida.

Então, enquanto outros comandantes e outras lideranças foram para Montevidéu, para outros lugares, inclusive articular com Getúlio Vargas e outras lideranças liberais da época, Luiz Carlos Prestes permaneceu num acampamento de uma construção, na Bolívia, com seus soldados feridos, doentes, garantindo a cura daqueles que era possível, dando atendimento e a mão àquele que estava morrendo por enfermidade decorrente da marcha, garantindo emprego para aqueles que de uma forma ou de outra poderiam se repatriar e voltar ao Brasil, mas precisariam de condições materiais, de um salário. Então, o comandante permaneceu ao lado do soldado até que o último tivesse condições de voltar à sua vida normal na Bolívia ou no Brasil.

Quero reiterar o convite para participarem hoje à noite, às 19h, desta sessão especial, neste plenário, para discutirmos este assunto, com a presença da historiadora Anita Leocádia Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes e de Olga Benário, como todos aqui que conhecem um pouco da história do Brasil sabem.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)