Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Professor Grando

19ª Sessão Ordinária - 25/03/2008

O SR. DEPUTADO PROFESSOR GRANDO - Sr. presidente, companheiros deputados e companheiras deputadas, vamos falar neste momento de toda nossa luta política, de todo o nosso trabalho, inclusive correndo risco de vida, quando o nosso partido era considerado clandestino, nas épocas de verdadeiras escuridões, como assim podemos chamar, em que sobrevivemos lutando pela democracia.

Lembro perfeitamente que no antigo Partidão, o Partido Comunista, no qual está a nossa origem, lutávamos, já nos idos de 1968 - e eu como presidente do Grêmio Nilo Peçanha, da Escola Técnica, ainda estudando -, por uma palavra que dificilmente as pessoas conseguiam entender: unidade. E a unidade se faz não com quem pensa igual, mas com quem pensa diferente. Essa é a dificuldade de entender, porque isso não envolve um pensamento linear, mas, sim, um pensamento dialético. Como é que se faz a unidade justamente com quem pensa diferente? É quando temos um objetivo maior. Esse objetivo maior as nações já estabeleceram, que é o combate à pobreza. Mesmo sendo de partidos diferentes, os nossos objetivos nos unem para poder atender as comunidades mais carentes, e não importa a religião, o partido político, o time de futebol, porque ali estão seres humanos que precisam da maior respeitabilidade e dignidade. E isso só quem pode fazer é a política, porque se a política federal, estadual ou municipal não estiver presente lá nas regiões mais carentes, o narcotráfico estará presente, a ditadura do narcotráfico estará cooptando os jovens, desagregando famílias, com temor, medo, governando e fazendo o que bem entende.

Ora. srs. deputados, se lutamos tanto pela redemocratização deste país, pela participação popular deste país, não há gesto mais nobre do que a vinda do sr. presidente da República para esse ato no Maciço do Morro da Cruz, nas 17 comunidades. E lá estava presente o ministro Márcio Fortes, do PP, e até somos adversários no estado, estavam representantes de todos os partidos designados do próprio PT, como a Dilma Rousseff, o nosso governador Luiz Henrique da Silveira, o presidente da República. E estavam lá também, compondo esse palanque, os 17 líderes comunitários, que são as pessoas mais importantes dessas comunidades.

Muito bem falou o padre Wilson, representante da comunidade toda, quando disse: "Temos que superar as nossas diferenças, pois temos muito mais semelhanças do que diferenças, e nos unir". Foi um gesto bonito, porque lá estavam todos os partidos e todas as comunidades. E posso dizer com orgulho que por mais de 15 anos morei no Maciço do Morro da Cruz, tanto no antigo Morro da Caixa, o Mont Serrat, quando era um humilde e simples estudante da Escola Técnica, quanto no Morro do Céu, quando começamos a dar aula como professor na Escola Silveira de Souza, na Escola Padre Anchieta, cujos alunos eram dessa região.

Lá, pude conhecer praticamente todas as famílias que tinham os seus filhos estudando nessas escolas, bem como daqui, do Celso Ramos, que vinham do Morro do Mocotó e de toda a região do alto do penhasco. Posso falar nos morros, porque vim dos morros, fui vereador, e como tal tinha trabalhado com essas comunidades. E como prefeito, o meu primeiro ato foi colocar os ônibus no morro para dar a eles dignidade de ir e vir. Como é que uma cidadania pode ser completa, se não tem o direito de ir e vir? Então, todos os morros têm ônibus, sim. Fizemos o Cestão do Povo, para que as pessoas pudessem comprar tudo com o mesmo preço. Pegavam suas sacolas e subiam os morros de ônibus. E colocamos um ônibus especial com sistema de freios nas quatro rodas. Por isso, até hoje nunca houve um acidente. Inclusive, na época em que estávamos colocando o ônibus, os empresários eram contra. "Vocês não estão vendo que há uma demanda para ser atendida? Estamos gerando empregos, dignidade." Aí diziam que esses ônibus tiravam o passageiro que pega o ônibus no pé do morro. Assim mesmo, colocamos o ônibus em cada região desse morro, passando por vários morros, subindo e descendo. Tanto que depois até se fizeram músicas que são muito cantadas: "Morro abaixo todo santo ajuda; agora, morro acima quem botou ônibus foi o Grando." Mas não só fizemos isso, como integramos, porque descobrimos algo fantástico: só quem visita as pessoas dos morros é o próprio pessoal do morro e com o ônibus ficou mais fácil, houve a integração das famílias.

Vejam bem, srs. deputados, como as autoridades não se comprometiam com o povo, pois quando iniciamos nosso trabalho na prefeitura tínhamos o ônibus que saia do centro e ia até a universidade, pelo Saco dos Limões, e voltava; outro ônibus ia do centro até a universidade, passando pela Trindade. Então, os ônibus iam e voltavam. E o que fizemos? Fizemos o ônibus dar a volta pelo Maciço do Morro da Cruz. Passamos a ter ônibus a cada três minutos, com o mesmo número de veículos: os que iam pela Trindade passavam pela universidade, voltavam pelo Saco dos Limões e chegavam ao centro. Os que iam do Saco dos Limões passavam pela Trindade e chegavam até o centro. Isso tudo sem gastar recursos, com a participação da administração pública. Fizemos lugares onde os ônibus poderiam fazer a volta, manobrar.

Então, quem entende de morro diz que em morro hoje não se sobe mais, que em morro só se desce, porque para subir basta pegar o ônibus. E para descer pode ser a pé. Aliás, quem inaugurou a primeira linha de ônibus no morro, que é a de Mont Serrat, antigo Morro da Caixa - e que casualmente tinha o número 113 -, foi o companheiro Lula. Nós subimos juntos e descemos a pé, conversando com todas aquelas pessoas que, naquela noite, acompanharam-nos na caminhada.

Srs. deputados, na última sexta-feira, recordamos como é importante o mundo avançar na sua luta. Realmente foi demonstrado que havia a memória histórica de que era possível continuar melhorando as condições de vida nos morros, fazendo a revitalização, sim! Se tiver bondinho, ótimo! Porque tão digno quanto qualquer cidadão são as pessoas que moram no morro. Terá teleférico, sim, e bondinhos também, porque isso faz parte de projetos que já existem em outras cidades e é comum. O bondinho, o teleférico, não será construído na Beira-Mar, ou onde é plano, ele existirá no morro. Quiçá já comece a se inaugurar agora, neste ano.

Existe o avanço do saneamento nos morros, que também fizemos e que agora será melhorado, a questão das vias públicas, a questão da parte elétrica, enfim, todos os direitos que o cidadão tem. Ele não se está negando inclusive a pagar por esse serviço, mas é um direito seu. Principalmente quando o Lula usa uma frase que tem dito algumas vezes e as pessoas não entenderam: "O pobre pede pouco". É uma frase verdadeira! E só quem foi administrador e viveu na pobreza conhece isso. O pobre só quer legalizar o terreno da sua casinha, não importa a metragem. Inclusive, aqui, nesta cidade, tivemos que mudar o plano diretor, porque ele só permitia a legalização de 300 metros quadrados. Então, vejam quanto avançamos hoje na questão da legalização da ocupação desses terrenos, onde o pai mora na frente, e o filho dele, com a nora, mora atrás, o que é uma característica de Florianópolis, e isso poderá ser legalizado.

O maior proprietário de Florianópolis é aquele desconhecido, são as pessoas que moram nessas regiões. E digo mais: as pessoas moram no morro porque não podem morar em outro lugar, não podem viver em outro lugar; se pudessem, estariam na Beira-Mar. Agora, a função do governo é governar da cobertura até o morro, é atender todas as cidadanias. Os nossos morros, como o Maciço do Morro da Cruz, como outras comunidades carentes, já tiveram vitória, ajudaram a construir uma cidadania, mas precisamos avançar mais. Isso é importante, porque teremos uma cidade mais feliz, uma cidade cujo título conquistamos como sendo a capital com a melhor qualidade de vida.

Isso nos orgulha, assim como de ter sido prefeito, de ter começado essa transformação. Mas precisa muito mais. E os três Poderes têm que se encontrar e fazer as parcerias, estar no mesmo palanque, porque quem ganha é o povo. E é por isso que existimos como políticos.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)