93ª Sessão Ordinária - 26/11/2008
O SR. DEPUTADO SARGENTO AMAURI SOARES - Sr. presidente, srs. deputados, sra. deputada, telespectadores da TVAL, ouvintes da Rádio Alesc Digital, pessoas que nos acompanham nesta sessão, estudantes e professoras aqui presentes, sejam sempre bem-vindos a esta Casa!
Tenho que falar, e não há outro jeito a não ser falar, da situação, que ainda é de desespero, com relação a calamidade que se abateu em nosso estado nos últimos dias, em virtude das fortes e freqüentes chuvas ao longo de três meses. E nós ficamos esperando até que o pior acontecesse.
Ainda temos muitas pessoas desaparecidas, temos catarinenses soterrados e continuamos com grandes e importantes vias de acesso interrompidas no nosso estado, como a BR-470 e a BR-101, no Morro dos Cavalos, para a circulação de caminhões.
Permanecem os trabalhos intensos para salvar vidas, recuperar acessos viários, abrigar provisoriamente as pessoas, restabelecer o abastecimento de água, luz e telefone e, evidentemente, para fazer chegar água potável e alimentação mínima às pessoas desabrigadas.
É preciso, sim, parabenizar todos os órgãos, todas as instituições do estado que estão trabalhando nisso, todas as pessoas envolvidas no socorro às vítimas e na recuperação dos estragos, na infra-estrutura necessária à vida em sociedade. São pessoas abnegadas que dedicam suas vidas a salvar a vida de outras e para amenizar as dores. São bombeiros, policiais, eletricistas da Celesc, servidores da Casan, maquinistas, tratoristas, motoristas, voluntários dos mais diversos segmentos da sociedade que se dedicam de corpo e alma para aliviar essa situação de desespero ainda reinante em várias cidades de nosso estado.
Queremos prestar a nossa homenagem a toda essa gente que se solidariza de forma voluntária e desinteressada. Nossa homenagem a todos os servidores da Segurança Pública, policiais e bombeiros que se estão estafando há mais de 100 horas ininterruptas de trabalho em escalas que sequer existem, porque todos estão permanentemente de serviço. Quando cessa uma escala começa outra na modalidade de voluntariado, junto realizando o mesmo trabalho.
Não obstante todo o esforço de todos esses setores e de outros, por certo inclusive de grupos empresariais, para atender a essa situação, é preciso alguma reflexão para uma forma de organização da nossa sociedade, pelo fato de termos vivido mais de três meses - alguns falam em quatro meses - de chuvas praticamente diárias naquela região; e também pelo fato de existir tecnologia capaz de medir, para o tempo futuro, a previsão de mais chuva, a previsão de sol, a previsão de temporal. Ainda assim nós deixamos morrer dezenas, por enquanto são 86 mortes confirmadas até o momento, até algumas horas atrás. Deixamos-nos surpreender aos milhares e talvez aos milhões porque choveu demais, porque chove há 90 dias todos os dias um pouco, e depois, em determinada semana, choveu sem parar por 72 horas de forma torrencial.
Deixamos-nos surpreender eseria evitável a tragédia, se a sociedade humana usasse a sua própria capacidade de análise, a sua própria capacidade de investigação, a sua própria ciência, porque era previsível a chuva.Era previsível que 90 dias de chuva iriam enfraquecer a resistência do solo.
Por que não se fez nada? É culpa ou responsabilidade específica de uma pessoa ou de um órgão? Não é! E não estou aqui para dirigir a crítica a qualquer pessoa ou a qualquer instituição específica, porque, como falava antes, todos se estão estafando para tentar minimizar a dor.
O que falta, então, na sociedade atual que, tendo ciência, capacidade técnica para prever as tragédias, deixa que elas ocorram para depois correr atrás? É a sociedade de mercado! O laisser-faire da economia tão aplaudido, tão decantado em verso e prosa, que cada iniciativa é uma iniciativa em si, que basta o estado criar as regulamentações mínimas de dizer onde pode plantar e onde não pode; onde pode construir e onde não pode. E vejam que o estado está-se abstendo dessa tarefa porque o mercado exige cada vez mais espaço de exploração das riquezas. O estado vai recuando, a sociedade organizada no estado vai recuando do seu direito e do seu dever de determinar até que ponto o mercado pode avançar.
Talvez alguém possa imaginar que eu esteja exagerando na dose querendo fazer um discurso ideológico em cima dessa questão. Não é fato! Nós temos sociedades muito mais pobres do que a do Brasil, tecnologicamente com menos capacidade, por onde passa furacão arrasando 100% do que está construído, e temos a perda de quatro pessoas, de quatro vidas.
Então, é a nossa crença de que o mercado, de que as relações da livre iniciativa possam resolver os problemas da sociedade que nos faz ficar desprevenidos, porque em outras sociedades mais avançadas tecnológica e economicamente que o Brasil, numa situação como essa também morrem tantos quanto nós, ou até mais. Também são pegos desprevenidos porque na véspera da tempestade, na véspera dos furacões, tem alguém vendendo seguro de casa, de carro e de vida, ao invés de essa sociedade estar-se prevenindo em seu conjunto para resistir à situação.
Como falava, não quero colocar a responsabilidade individualmente a nenhuma instituição, a nenhuma pessoa, nem seria hora de fazê-lo. É uma reflexão sobre a forma de organização dessa sociedade que permite, cada vez mais, que as livres iniciativas administrem a vida, a organização, as linhas de acesso, as linhas de comunicação, o abastecimento de água e de energia, a organização da empresa, o espaço onde vão ser construídas casas, empresas, e não existe uma preocupação social geral com a defesa da sociedade no seu conjunto.
É uma reflexão para continuarmos fazendo porque há muito a ser dito nesse aspecto, inclusive há vários pensadores, vários cientistas escrevendo sobre isso nesse momento.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)