17ª Sessão Solene - 19/06/2006
O SR. DEPUTADO ONOFRE SANTO AGOSTINI - Excelentíssimo sr. deputado Sérgio Godinho, neste momento conduzindo esta sessão;
Excelentíssimo sr. Roberto Colin, secretário executivo da Articulação Internacional, neste ato representando o excelentíssimo sr. governador do estado de Santa Catarina;
Sr. Hirotsuga Hagiuda, cônsul-geral do Japão de Curitiba;
Sr. Fumio Honda, presidente da Associação Cultural Brasil/Japão de Frei Rogério.
Excelentíssimo sr. Wanderley Teodoro Agostini, prefeito municipal de Curitibanos;
Excelentíssimo sr. Antônio Moacir Darol, prefeito municipal de Frei Rogério;
Demais autoridades, prezados senhores e respeitáveis senhoras.
(Passa a ler)
"No ano de 1908 começou o processo da imigração japonesa para o Brasil. No dia 18 de junho" - ontem, portanto - "fez exatamente 98 anos que o navio Kasatomaru atracou no porto de Santos. Os imigrantes deixaram o porto de Kobe no dia 28 de abril de 1908 e chegaram no Brasil, no Porto de Santos, no dia 18 de junho de 1908. A viagem durou 50 dias.
A bordo do navio estava um povo trabalhador, com uma cultura milenar, que veio em busca de uma vida melhor. Ao chegar no Brasil tiveram que aprender e conviver com uma cultura totalmente diferente e superar várias dificuldades, sobretudo a língua e o preconceito.
A situação econômica do Japão piorou muito após o fim da I Guerra Mundial, principalmente nas áreas rurais. Nos Estados Unidos, principal país procurado pelos imigrantes japoneses, o movimento contra a entrada dos orientais se intensificou e em 1924 foi promulgada uma lei de imigração que proibia a entrada do povo japonês naquele país.
A principal motivação dos japoneses virem para o Brasil era a esperança de enriquecer em pouco tempo, trabalhando nos cafezais paulistas, e depois voltar para o seu país. Porém, quando começaram a trabalhar com o café, perceberam que a realidade era outra e que as condições não eram as que esperavam.
A relação migratória entre Brasil e Japão nem sempre foi amistosa. De 1870 a 1953, cerca de 190 mil japoneses vieram para o Brasil. No período de 1928 a 1935, entraram no Brasil 108.258 japoneses, ou seja, 57% dos 190 mil que imigraram no período anterior a II Guerra Mundial. Depois da II Guerra Mundial a imigração esteve praticamente paralisada, atrapalhando ainda mais a integração entre brasileiros e nipônicos. Entre 1940 1950 apenas 1.500 vieram para o Brasil. Neste período vários decretos foram instituídos, proibindo o ensino da língua japonesa e os descendentes foram obrigados a portar salvo-conduto para transitar no país.
O fim da II Guerra Mundial marcou o início da reconciliação entre os países, quando os imigrantes japoneses deixaram de ser mão-de-obra barata e ter acesso às escolas. A partir da década de 60, famílias japonesas começaram a administrar seus próprios negócios. Na década de 70, já não era tão estranha a convivência entre as culturas japonesa e brasileira, e o número de casamentos entre etnias diferentes aumentou no país. Nessa época, o Japão se recuperou da crise econômica e passou a ocupar um papel de destaque no cenário mundial. Hoje, o Brasil abriga a maior população japonesa fora do Japão.
Resumo da história da imigração em Santa Catarina: os registros do Ministério da Marinha da Rússia mostram que os primeiros japoneses chegaram em Santa Catarina no ano de 1803, depois de uma forte tempestade.
Em 1973, o barco a vela japonês Wakamiya Maru foi assolado por uma tempestade e perdeu-se no mar gelado do norte do arquipélago. Dez sobreviventes conseguiram chegar à Sibéria, onde ficaram por oito anos. Mais tarde, eles foram enviados a São Petesburgo, capital do Império Russo na época.
Dois navios da Marinha Imperial Russa, Nadeshda e Neva, deixaram o país em 1803. As embarcações seguiram pelo Oceano Atlântico norte rumo ao sul, passando por:
* Ilhas Canárias (noroeste da África)
* Brasil
* Estreito de Magalhães (Chile)
* Ilhas Marquesas (Polinésia)
* Havaí
No Brasil, uma tempestade os lançou em solo estranho, desta vez na ilha de Santa Catarina, em 1803. A recuperação e abastecimento dos navios levou 70 dias. Durante esse tempo, os japoneses registraram em seus diários os fatos curiosos do local. A aventura teve um final feliz, com o retorno deles ao Japão no início de 1805.
Hoje, em Santa Catarina, as principais colônias japonesas estão nas cidades de Curitibanos, Frei Rogério, São Joaquim e Caçador. Foi o governador Celso Ramos que iniciou o processo imigratório no estado, tanto é que lá em Frei Rogério, em homenagem ao ex-governador, há o Núcleo Celso Ramos.
Hoje, em Santa Catarina, Florianópolis tem a maior concentração de descendentes japoneses, os quais vêm de todo o país. Mas é o município de Frei Rogério que conta com o maior número de imigrantes japoneses.
Arte e cultura japonesa: nessa relação Brasil x Japão, com certeza o Brasil saiu ganhando, pois a educação, cultura e culinária japonesas só engrandeceram e enriqueceram o Brasil. Dentre os maiores destaques estão a maçã de qualidade Fuji, que hoje é muito produzida em São Joaquim, o sushi, bolinho de arroz envolto em alga, que é muito consumido e apreciado pelos brasileiros, o mangá, histórias em quadrinhos no estilo japonês e o bonsai, que é a arte de cultivar árvores diminutas, buscando a perfeição e a harmonia."
Essas informações que eu li aqui estão na internet e um dos sites é da Associação Nipo-Catarinense, presidida por Elídio Yocikazu Sinzato.
Sr. cônsul, eu fiz essa leitura porque tive o privilégio de ter sido prefeito do município de Curitibanos, quando Frei Rogério ainda era um distrito da minha cidade. Quando prefeito, no exercício daquela função, a colônia japonesa viveu um dos períodos mais difíceis, em que a nectarina... Nós chegamos a realizar, sr. representante do governador, a Festa Nacional da Nectarina, quando ainda éramos prefeito - e isso faz muito tempo, lá nos anos de 1972. Através da Festa Nacional da Nectarina, nós tornamos a colônia japonesa de Curitibanos conhecida no Brasil inteiro. Assim, o país pôde conhecer a qualidade do povo japonês.
Permita-me, sr. presidente, que eu possa prestar aqui também a minha homenagem aos antepassados japoneses que para cá vieram. Recordo-me das dificuldades, quando da realização daquela festa. Nós não tínhamos a mínima estrutura para realizar uma festa daquela grandeza, mas foi em parceria com a colônia japonesa que nós a realizamos, possibilitando assim que parte do sul do país e parte do Brasil passassem a admirar, como nós, o povo japonês.
Foi um período difícil, quando a colônia japonesa enfrentou dificuldades financeiras pela falta de comercialização do produto. A nectarina produzida naquela região era de excepcional qualidade, mas nós não tínhamos meios de transporte adequados - era tudo estrada de chão batido. Os nossos japoneses carregavam a sua nectarina nos caminhões e viajavam durante a noite para chegar no estado de São Paulo durante o dia. Quando chegavam na cidade de Registro, a nectarina já estava deteriorada porque eles não tinham sequer um caminhão de câmara fria.
A situação se agravou e eu me recordo perfeitamente que, acompanhado da Associação dos Japoneses de Frei Rogério e de Curitibanos, marcamos uma audiência com o então presidente do Banco do Brasil, Perachi Barcelos - inclusive, acompanhou-nos naquela audiência o deputado federal João Linhares. Lá conseguimos a prorrogação, por mais dois anos, do financiamento que a colônia japonesa, através dos seus agricultores, havia feito com o Banco do Brasil. E conseguimos um outro financiamento para que a colônia começasse a produzir outra qualidade de legumes para que pudesse sobreviver. Foi, então, que ela começou a plantar pepino e tomate e também a vender as suas sementes, tornando-se assim uma colônia viável após esse período.
Um belo dia, sr. cônsul, pedimos uma audiência com o cônsul-geral do Japão sediado na cidade de Porto Alegre. Na qualidade de prefeito, juntamente com o juiz de Direito, o promotor e o presidente da Câmara, fomos ao consulado do Japão em Porto Alegre pedir condições para que fosse instalada naquela região uma indústria de enlatados de produtos produzidos por japoneses.
Recordo-me perfeitamente quando o cônsul me chamou numa sala no fundo e disse: "Prefeito, aquela região tem a maior de todas as indústrias e uma das mais importantes do Brasil. É uma indústria sem chaminé! Não queira v.exa. levar indústria de chaminé, porque vocês têm o maior potencial que um município ou um estado poderiam querer, que é a fertilidade da terra. A maior indústria vocês já têm, que é a terra onde poderão produzir frutas de clima temperado. Vocês vão produzir o que pretenderem pela qualidade e fertilidade do solo daquela região."
Prestei atenção no ensinamento do cônsul e quando cheguei na colônia japonesa, comecei a reunir todos os líderes e a mostrar que nós tínhamos um potencial enorme, que não precisaríamos de indústria nenhuma, precisaríamos motivá-los a começar a cultura de frutas de clima temperado.
Assim foi feito, e graças a Deus a maçã se destacou muito bem na cidade de São Joaquim, o kiwi se destacou muito bem, tanto que Santa Catarina chegou a ser o maior produtor do Brasil, na cidade de Campo Belo do Sul. Chegamos a ser o maior produtor de alho do Brasil, graças ao nosso prezado e querido amigo Chonan, que infelizmente também justificou a sua ausência, por um problema de saúde.
Fomo-nos destacando, sr. cônsul, produzindo flor, pêra, pêssego, ameixa, enfim, fomos produzindo frutas de clima temperado e, graças a Deus, essa colônia se desenvolveu tanto que o então distrito de Frei Rogério, com esse grande potencial da localidade de Celso Ramos, pleiteou a sua emancipação, tornando-se um município pujante, desenvolvido, um município que honra Santa Catarina, pela presença do excelentíssimo sr. prefeito municipal, tornando-se um pioneiro no desenvolvimento de frutas de clima temperado.
Temos dificuldades? Claro que temos. Temos muitas dificuldades. Agora enfrentamos a dificuldade do tempo, da seca, mas fica aqui feito o registro do potencial enorme que temos pela competência do povo e pela forma como o povo japonês trata o brasileiro.
Quando vejo o meu amigo Kazumi Ogawa aqui em frente, um dos sobreviventes da bomba atômica, uma pessoa que luta junto com todos, junto com toda a família japonesa, lembro daqueles primeiros japoneses que já partiram desta vida e que não se encontram mais no nosso meio.
Pode ter certeza, meu amigo Kazumi Ogawa, que na dimensão em que eles se encontram, neste momento estão transmitindo energia positiva aos seus descendentes, estão dizendo a cada japonês, a cada brasileiro daquela região que valeu a pena a luta, valeu a pena o sacrifício, valeu a pena as mãos calejadas pelo cabo do machado, da foice, o rosto queimado pelo sol, as noites mal dormidas e os sonhos mal sonhados, mas valeu a pena a luta. Valeu a pena sair do Japão e aqui no Brasil chegar; valeu a pena chegar a Frei Rogério, porque nós vemos uma terra crescida e desenvolvida.
Se lá jogaram a bomba atômica, aqui essa família produz flor. Ao invés do mal, o povo japonês do município de Frei Rogério transmite o carinho, a compreensão, o amor, a beleza na produção dos bonitos cravos, dos crisântemos e das rosas.
Quem sabe no olhar bonito, quem sabe na tolerância, na compreensão, nós estamos pagando o que vocês, descendentes do Japão, fizeram em favor do nosso querido Brasil.
Sabe, prefeito do município de Frei Rogério, se nós olharmos o mapa-múndi talvez precisemos de uma lente para conseguir localizar a sua cidade! Talvez precisemos de uma lente bem grande porque Frei Rogério é bem pequenino no registro do mapa. Mas tenho a certeza, caro prefeito, de que o maior de todos os registros e o maior mapa que nós podemos ver é a forma, é aquele símbolo da paz que está instalado em Frei Rogério. Quem sabe o maior símbolo que nós podemos ver no mapa-múndi é a simpatia, é o olhar sublime, é a forma carinhosa que vocês, japoneses que para cá vieram, transmitem a nós outros, brasileiros.
Portanto, recebam deste Parlamento, da Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina o mais profundo reconhecimento. Reconhecimento de gratidão, de respeito e de estima por esses 98 anos em que vocês nos ajudaram a desbravar este país, em que vocês nos ajudaram com seus ensinamentos, com a sua cultura, com o seu trabalho e com o seu amor.
Que Deus, na sua bondade infinita, proteja a família de todos, ricos, pobres, velhos, novos, os que partiram, os que não partiram, mulheres, homens, crianças. Vocês, descendentes de outras terras, vocês, que fazem parte de outro continente, recebam o nosso abraço muito fraterno, recebam o nosso reconhecimento e que sejam muito felizes e continuem sendo nossos irmãos.
Tenho certeza absoluta de que a recíproca é verdadeira. Tenho certeza absoluta de que o mesmo carinho que eu, como deputado que representa aquela região, dedico a vocês, vocês também dedicam ao povo do Brasil, ao povo de Santa Catarina e ao povo de Frei Rogério.
Um abraço muito fraterno!
Muito obrigado!
(Palmas)
(SEM REVISÃO DO ORADOR)