Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Afrânio Boppré

61ª Sessão Ordinária - 30/08/2005

O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Sr. Presidente e srs. deputados, ocupo este horário na tarde de hoje para, de certa forma, me defender porque na semana passada o deputado líder do governo, João Henrique Blasi, veio a esta tribuna discorrer longamente sobre uma manifestação que eu havia feito no dia anterior com relação ao incêndio que aconteceu no nosso mercado público.

Disse o deputado João Henrique Blasi que ele não estava no momento no plenário, mas que na parte do pronunciamento que ele ouviu depois pela TV Assembléia havia uma referência da minha parte de que poderia ter havido um descuido, uma desatenção ou a falta de equipamento necessário para o Corpo de Bombeiros Militar do estado de Santa Catarina dar o efetivo atendimento.

E ele, probo, veio à tribuna no sentido de repor as coisas nos devidos lugares e fazer justiça a quem merece, como se eu, ao me referir à triste ocorrência que Florianópolis e o estado de Santa Catarina assistiram com relação ao incêndio do nosso mercado, tivesse sido injusto e distorcido. E mais, de maneira muito capciosa, ele sugeriu que eu havia criticado o nosso efetivo do Corpo de Bombeiros, quando não foi isso que aconteceu.

Eu estou aqui com meu discurso em mãos e por diversas vezes eu disse:

(Passa a ler)

"(...) naquele momento em que precisavam reagir diante das chamas, houve um certo estado de perplexidade, de impotência dos nossos valorosos bombeiros. Registro o empenho, o despreendimento, o esforço do nosso Corpo de Bombeiros, mas não posso deixar de registrar a minha preocupação com relação aos equipamentos (...)."

A minha crítica é com relação aos equipamentos. E desculpe-me o deputado João Henrique Blasi se ele considerou que era uma crítica política. Não era! Eu estava analisando uma ocorrência. Como deputado, sou presidente da Comissão de Administração, Trabalho e Serviço Público, e, portanto, os serviços do Corpo de Bombeiros estão também afetos à comissão à qual eu participo e presido. Por isso, fiz o questionamento sobre o aparelhamento, sobre as capacidades efetivas dos instrumentos de trabalho.

Só que o deputado entendeu que era uma crítica ao governador Luiz Henrique, ao governo do PMDB, quando não era! Nós temos que saber despolitizar essas coisas porque se é verdade que não houve vítimas fatais, que o prejuízo foi só material, amanhã ou depois, se nada for feito, poderão acontecer prejuízos materiais maiores e, inclusive, com vítimas fatais.

Por isso, volto à tribuna para dizer que o discurso do deputado João Henrique Blasi não foi com o propósito de fazer justiça. Pelo contrário, foi para fazer injustiça porque não foi isso que eu falei. O que ele disse aqui não é o que eu havia me manifestado. Ele foi injusto comigo e por isso quero aqui na tribuna, no próprio microfone da Assembléia, deixar clara esta diferença.

Eu me preocupo, deputado Paulo Eccel, porque se o conceito de justiça que o deputado João Henrique Blasi nutre é este, ao invés de ser justo, ele faz exatamente o inverso. E eu me pergunto: se o deputado tivesse sido bem sucedido no pleito recente ao Tribunal de Justiça, quando tentou disputar a vaga de desembargador, como estaria praticando, se bem sucedido fosse, os seus atos como desembargador? Não confere.

E a situação fica pior quando o deputado Francisco Küster vai ao microfone de aparte e diz:

(Continua lendo)

"Ontem, cheguei à conclusão de que o colega parlamentar ia responsabilizar, no seu pronunciamento, o Corpo de Bombeiros pelo incêndio (...)."

Ora, estão brincando com coisa séria! Não foi este o meu propósito, deputado! Eu trouxe um assunto sério, da dor do nosso povo florianopolitano, para pedir providências. Agora, o deputado chegou à conclusão que eu estava acusando o Corpo de Bombeiros de ter sido o incendiário! Isto é tergiversar, é fugir do problema, é não ir ao encontro da solução!

E diz mais:

(Continua lendo)

"(...) ou o governo e o governador do estado pelo incêndio, ou a prefeitura."

Eu não fiz menção ao prefeito nem ao governador no meu discurso! Não fiz menção, como v.exa. sugere, de que eles estavam viajando! Não os culpei! Foi acidental! Foi um sinistro na nossa cidade! Até porque penso que o prefeito da Capital não tem o perfil de bombeiro! Pelo contrário, quem assistiu ao episódio dos transportes sabe que o perfil dele é de incendiário! Quando ele atiçou os estudantes, disse que tinham que fazer xixi na perna dele, etc. Eu sei do que estou falando! Estou pedindo providências porque o contraste entre o aparelho do Corpo do Bombeiros e os equipamentos da Infraero são gigantescos, do ponto de vista da sua diferença.

Por isso, faço questão de dizer que lamento a reação do líder do governo e do deputado Francisco Küster, que também compõe a base de sustentação do governo, quando tentaram brincar e distorcer. Esta não foi a minha pretensão, muito pelo contrário. Creio que, se tivéssemos a oportunidade de fazer, informalmente, um passeio até o mercado público para conversar com os lojistas e ouvir a manifestação deles, as conclusões às quais eles chegaram do ponto de vista do contraste dos equipamentos, o retorno aqui nesta Casa seria outro. Nós estaríamos comovidos com os depoimentos e buscando providências no governador, despolitizando, despartidarizando. Não ataquei o PMDB, não ataquei o governador, não ataquei o prefeito. Queria me referir especificamente, ao evento, ao episódio, ao sinistro para buscarmos soluções.

Por isso, lamento a reação da forma como aconteceu aqui, e digo ao deputado João Henrique Blasi que ele não fez justiça. Pelo contrário, ele incidiu no mesmo erro e cometeu uma injustiça com este colega parlamentar, o que eu lamento e fiz aqui a minha manifestação.

O Sr. Deputado Paulo Eccel - V.Exa. me concede um aparte?

O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Pois não!

O Sr. Deputado Paulo Eccel - Deputado Afrânio Boppré, no dia em que v.exa. fez este pronunciamento, eu não tive a oportunidade de acompanhar, mas, ouvindo atentamente v.exa. neste momento eu lembrei de um depoimento trazido nesta manhã aqui neste plenário, durante a audiência pública promovida pela comissão de Constituição e Justiça, em que o jornalista Roberto Salum fez, do seu jeito, uma abordagem ao incêndio acontecido no mercado público, destacando exatamente o que v.exa. traz. Não fazendo críticas aos homens do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar, que, valentemente, buscaram o combate, mas, sim, uma crítica à defasagem dos equipamentos.

Então, quero me solidarizar com v.exa. também neste momento, e dizer que a nossa função neste parlamento é justamente esta: a de fiscalizar e de denunciar aquilo que consideramos errado.

Parabéns!

O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Muito obrigado, deputado Paulo Eccel.

Quero também me referir ao artigo de domingo, dia 28 de agosto, assinado pelo governador Luiz Henrique da Silveira, do jornal A Notícia, que leva o título:O DNA espartano. Sr. presidente, considero o artigo bastante preocupante sobre o que pensa o governador Luiz Henrique da Silveira. V.Exa. deve se esforçar para compreender as conclusões que ele tira facilmente de um tema extremamente complexo. Veja a conclusão do governador. Em um determinado trecho, defendendo o avanço da ciência, ele diz que:

(Passa a ler)

(...)

"A clonagem já garante a produção de espécies vegetais homogêneas. Logo, logo, vai também representar uma evolução ainda mais aprimorada dos rebanhos.

Os estudos, avançados, do genoma já nos sinalizam para a cura de doenças provocadas pela desorganização celular. Certamente, começará com medidas preventivas, como a da vacinação contra a Aids, câncer. (...)"

Mais adiante diz:

(Continua lendo)

"As pessoas poderão se valer da ciência, para evitar que seus filhos nasçam feios, deformados, deficientes ou idiotas. (...)"

(Cópia fiel)

O governador Luiz Henrique da Silveira dizendo que a ciência vai servir para acabar com os idiotas. E ele escreve um artigo com esta qualidade, com os feios, com os deformados.

Veja, deputado Celestino Secco, que ele diz:

(Continua lendo))

"Assim, Esparta ficou famosa, na antigüidade clássica (...).

Por outro caminho, não violento, os povos do século XXI poderão construir uma sociedade sem pessoas sofredoras de males genéticos, principalmente os observados durante a vida intra-uterina."

(Cópia fiel)

Assemelhando-se muito, sabem a quem? Quando diz: "Por caminhos não violentos", ele suprime a violência, mas mantém o preconceito. Vê-se neste mundo que o conceito de estética não é um conceito científico; é um conceito ético, moral e ideológico; um conceito do que está certo ou do que está errado. Não é um conceito científico! Ele é prenhe de valores ideológicos, políticos, sociais e está atribuindo à ciência uma depuração da humanidade.

Veja aonde vai levar o debate, o governador do estado.

O Sr. Deputado Joares Ponticelli - V.Exa. nos concede um aparte?

O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Pois não!

O Sr. Deputado Joares Ponticelli - Quero me associar à preocupação de v.exa. Pelo que li da história do mundo recente, o último a pensar assim atendia pelo nome Adolf Hitler.

Espero que sua excelência, o sr. governador dos catarinenses, não tenha nenhuma outra identificação com aquele cidadão desafeto do mundo, porque as idéias que ele defende aqui se assemelham muito às daquele ditador.

O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Exatamente, deputado Joares Ponticelli. Inclusive, como uma crítica ao próprio artigo, também tive a oportunidade de receber uma reflexão do professor João de Deus Medeiros, biólogo do departamento de botânica da universidade federal, que faz alusão a esta sua preocupação, dizendo:

(Passa a ler)

"A compreensão da ciência pelo público é um ponto crucial para a sua inserção, reconhecimento e valorização. Desse modo é imperativo que aqueles que se lançam ao desafio da divulgação científica o façam com clareza e propriedade. A responsabilidade perante a sociedade é, em última análise, o preço que toda profissão paga pelos seus privilégios.

A história já nos mostrou quão infeliz se torna a apropriação de conceitos pseudocientíficos para legitimar concepções ideológicas. Nesse contexto, a eugenia, não fosse o artigo do governador Luiz Henrique da Silveira, nos parecia definitivamente sepultada com a sucumbência das pretensões de Hitler".

(Cópia fiel)

Associando inclusive ao centro do pensamento filosófico que levou a humanidade a uma das experiências mais tristes da nossa trajetória.

Por isso, sr. presidente, faço aqui também este diálogo com uma concepção de fundo do pensamento do governador Luiz Henrique da Silveira com uma demonstração de que não só na política, mas também na ciência, nós estamos em situações muito opostas.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)