Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Sérgio Godinho

11ª Sessão - 07/02/2006

O SR. DEPUTADO SÉRGIO GODINHO - Sr. presidente, sras. deputadas e srs. deputados, dirijo-me à tribuna no dia de hoje para falar sobre os centros de tradição gaúcha no estado de Santa Catarina.

Hoje existem mais de 700 CTGs em Santa Catarina, mas o problema da febre aftosa represou os rodeios e os torneios de laço, fazendo com que o estado acumulasse essa demanda muito grande e fantástica que é o encontro das famílias catarinenses. Hoje, afirmo com certeza que a cultura de Santa Catarina já é gaúcha.

Quero ler uma mensagem muito importante de um escritor lageano, que diz o seguinte:

"Não há um só gaúcho.

Existem vários.

Desde os contrafortes dos Andes, a se desdobrar sobre a imensa Patagônia gelada, ao pampa fértil onde pastava a bagualada xucra, às várzeas lamacentas, feias e tristes de Entre-Rios, ao grande Chaco missioneiro... Há gaúchos de Rio Grande, preados nas estâncias; há o lageano mateiro a abrir picadas a facão para as Minas Gerais do ouro. Há o gaúcho de Corrientes e o de Buenos Aires. O irregular de Urguiza e o soldado de Rosas. Há o gaúcho de Bento Manoel e o da bota floreada do terratenente. O de Saraiva e o de Artigas. O peão de estância e o tigreiro. O provisório de Vargas e o descamisado de Perón.

Sequer se conhece a origem da palavra ‘gaúcho’. Vem do conto triste do grilo - o ‘guahú’ dos guaranis, com apodo ‘tchê!’ - gente geral? Vem do basco ‘gauche’ - lado esquerdo do corpo? Ou do terneiro sem mãe, desmamado - o ‘guaxo’? Ou virá de alguma corruptela quíchua que descendeu dos Andes?

Só se sabe que o gaúcho simboliza a civilização do couro. Desgarronava o bovino alçado, mas não comia toda a carne, que apodrecia nas coxilhas à falta de sal. Retirava-lhe apenas o couro e o sebo dos rins. Tornou-se um faquista exímio. Carneava, ferrava e matava. Confundia gente com gado. Trocava cavalos por chinas. Tomava o mate, que vinha das selvas do norte. Mas tomava-o frio, à beira das sangas mortas, em guampa de boi, sorvendo-o com osso de pássaros, como faziam os índios.

Não conhecia a cerca, o aramado, a taipa. Não tinha consciência de divisa, nem de átria. Falava um misto de espanhol, de guarani, de português. Só depois virou pastor de fazenda, domador, gaudério de corredor e então vestiu sobre o xeripá, o uniforme de bombacha. Mas aí já não era mais gaúcho, era peão, era patrão.

Desconhecia a sanfona, cavalgava com a viola andaluza a tiracolo e às vezes batia no bumbo ‘legüero’, mas sempre cantava baixo e devagar, até porque ninguém o escutava nas madrugadas perdidas do pampa.

Seus cavalos tinham a cor da terra: eram ‘lubunos’, gateados, camuflados pelo mimetismo da natureza - tobianos. Mas poucos o viram de fato combater, como Aranã, Paz ou Potyguara.

A campanha era o seu mar, o cavalo, sua caravela andaluza, os arreios de couro, o seu leme. Quando o boi ainda não tinha valor econômico não tropeava nem fazia churrascos, mas sabia, como os primitivos, conservar a carne embaixo dos bacheiros. Não conhecia religião, pois se nem igrejas havia na solidão da planície. Eram pobres e frugais.

Nas suas longas paradas em algum ponto perdido na desesperança das noites frias, bebia, jogava o pouco que tinha e duelava a punhal ou facão.

O pala era sua coberta, sua cama, sua mortalha. Usava-o às vezes até sobre a farda militar, como fez Garibaldi ao adentrar na Assembléia italiana, usando o poncho lageano em cima da sobrecasaca de general.

Ouvia os barulhos misteriosos da terra. Entendia a linguagem do vento sobre as folhas das árvores. Tinha nos pássaros sentinelas avançados. Era mestiço de índios com brancos, mas nem isso sabia. Poucos conheceram o mar e muitos achavam que a barra do Uruguai com o Paraguai era a maior imensidão de água possível.

Era caminhante. Caminhava sempre. Não tinha raízes e esta foi talvez a sua maior glória. Chegou até nós, aliás, pela glória e pela esperança... Não pelas raízes...

Assim se forjou o serrano. Nas grandes caminhadas, nas sesteadas dos capões de mato, nas lidas do gado xucro. A sobrevivência no planalto de Lages nunca foi fácil. Trinta ou quarenta geadas por ano destruíram o que havia crescido no verão. As distâncias eram enormes. Nunca houve grandes centros por perto. A vila de Lages crescia lentamente.

Por isso eu digo (e os pósteros não esquecerão), o gaúcho dos campos da serra foi um dos que mais dificuldades encontraram na sua gênese. Não teve as dificuldades malemolentes do litoral ou as mutações erráticas da fronteira. O serrano é um gaúcho das terras interiores. Um gaúcho sertanejo. Usa o facão à cinta para abrir as picadas e anda em lombo de mula. Até seus hábitos alimentares são diferentes: a quirera com porco, o pinhão, o carreteiro.

Quando ele grita do lado de cá do Pelotas, sua voz percorre, como o vento que vem do mar, as sagas de solidões que vão aos poucos se espraiando - de leste para oeste, do norte para o sul - sobre as várzeas, frias e feias e lamacentas do rio da Prata."

Com esse pronunciamento de Paulo Ramos Derengoski, enfatizo aqui o crescimento que houve em Santa Catarina nos rodeios, nos CTGs e nos piquetes. Hoje, srs. deputados, temos em cada cidade do estado de Santa Catarina um CTG e um piquete. São mais 300 mil pessoas ligadas diretamente com a tradição gaúcha. É uma atividade que consegue unir a família, que reúne os amigos no final de semana para laçar, para conviver, remetendo-os à reflexão sobre o tradicionalismo, sobre a cultura, sobre as nossas raízes.

As raízes serranas, posso hoje dizer, tomaram conta do estado de Santa Catarina. Hoje, em cada lugar que se vai, em cada final de semana, seja no litoral, no norte, no sul, no leste ou no oeste, vê-se um rodeio acontecendo. E lá nas barracas encontram-se médicos, dentistas, juízes, advogados, pessoas simples, pessoas de toda ordem, de toda natureza, remetendo ao tradicionalismo, praticando esporte, cultura e lazer.

Então, saúdo com esta minha homenagem todos aqueles que se empenham em manter o tradicionalismo gaúcho no estado de Santa Catarina, que têm contribuído com o tradicionalismo e, sobremaneira, contribuído com a família catarinense.

Nós não temos nenhuma outra atividade, digo isso com conhecimento de causa, de lazer, de cultura e de esporte que una tantas pessoas, que una tantas comunidades e tantas famílias. Nesses CTGs encontra-se numa barraca desde o tataravô até o tataraneto. Encontramos em muitas barracas três, quatro gerações fazendo atividades culturais e de tradicionalismo.

Por isso é que não podemos deixar de homenagear, neste momento, a volta dos rodeios crioulos, a volta dessas atividades. Na região serrana chega-se a ter uma média de oito a dez rodeios por final semana.

Então, essas pessoas que mantêm o tradicionalismo, aqueles que lutam para manter o tradicionalismo, estão contribuindo para a união da família. Lá encontramos crianças de cinco, seis anos de idade laçando junto com os pais, em Bom Retiro, Urubici, São Joaquim, Lages, Campo Belo, Capão Alto, Correia Pinto, Otacílio Costa e em toda a região serrana, de forma magnífica.

E este deputado, como serrano, tem a honra de se pronunciar e fazer esse comentário de Paulo Ramos Derengoski, dizendo que não existe só um gaúcho, existem vários gaúchos, o gaúcho do litoral, o de Portugal, o da Itália, o do Rio Grande do Sul, o de São Paulo.

Sr. presidente, agradeço esta oportunidade e uno-me a todos aqueles que lutam para manter o tradicionalismo, que lutam para manter a cultura serrana, a cultura que hoje tomou conta do estado de Santa Catarina, fazendo com que tenhamos momentos de lazer, de esporte em todos os finais de semana, aqui no grande estado de Santa Catarina. E arrisco-me a dizer que o nosso estado hoje é um estado gaúcho.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)