Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Fernando Coruja

62ª Sessão Ordinária - 05/08/2015

O SR. DEPUTADO FERNANDO CORUJA - Sr. presidente, srs. deputados.

Nós tivemos hoje a divulgação do MEC das notas do Enem 2014 por escola. E chama a atenção, entre outras coisas, a queda que houve na nota que diz respeito à redação.

Há um problema no país, evidente, relacionado à questão da Educação. Estamos discutindo, inclusive, o Plano Decenal, e é lugar comum se falar que o Brasil precisa investir em Educação.

Mas nós temos alguma coisa errada no nosso país. É um país que investe, em termos absolutos, uma quantidade de dinheiro razoável em Educação, mas os resultados não estão, evidentemente, aparecendo.

O governo não tem conseguido, isto nas várias esferas, pode ser federal, estadual ou municipal, dar as respostas necessárias à população.

Nós estamos percebendo que, ao longo da caminhada, estamos perdendo espaço, e muito espaço, em relação aos países que se desenvolveram rapidamente via educação, como no sudeste da Ásia e em outros locais, e em relação aos países desenvolvidos que continuam. Há crises momentâneas, mas logo suplantam porque têm uma capacidade muitas vezes acumulada, histórica, educacional muito grande.

E por que isso ocorre? É claro que as respostas não são simples, mas quando se faz pesquisas, percebe-se que o interesse da nossa população, de maneira geral, pela educação, é muito pequeno. Quando procuramos, em pesquisas políticas de opinião, quais são os problemas do país, tem desemprego, Segurança, Saúde, mas nunca a Educação é apontada, realmente, como um problema que é preciso mudar e avançar.

Nós temos uma cultura de pouca valorização naquilo que está colocado na divulgação do Enem, hoje, que é a escrita e a leitura. Eu percebo isso.

Por uma questão familiar, a minha mãe, que teve cinco filhos, fez com que todos aprendessem a ler com quatro anos por causa da insistência dela com os livros, que sempre tínhamos em casa.

E eu percebo que quando carrego um livro por aí, muitas vezes, as pessoas acham estranho que se carregue um livro. No Brasil é considerado estranho carregar um livro. Se você entra num ônibus, num metrô, num avião, é estranho alguém estar lendo.

É muito diferente quando se entra num metrô em qualquer país do mundo, onde 80% das pessoas estão sentadas lendo. Aqui é uma estranheza carregar um livro, porque não há uma valorização das pessoas, das famílias, na questão da leitura.

Então, não há governo, talvez, que sustente, porque não é possível. Está aqui a deputada Luciane Carminatti que luta nesta área, mas nós temos uma certa estagnação. Nós tivemos, a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação do Darcy Ribeiro, que foi o grande precursor, um avanço na quantidade.

As pessoas têm mais acesso à escola, essa foi uma política, mas temo eu, e muitos, de que a qualidade da Educação, de maneira geral, que chega à população, não teve a mesma resposta.

Quero fazer aqui quase uma advertência às pessoas para que não esperem nada do governo na educação dos filhos. É preciso que as famílias se interessem pela questão da educação.

Eu até escrevi um pequeno post, que publico num blog, em que comentava o seguinte: Eu vi na avenida Champs-Élysées, em Paris, uma fila enorme de pessoas para entrar na loja Louis Vuitton. Dezenas de pessoas esperando para entrar na loja. Será que tem essas filas para entrar, por exemplo, nas livrarias? Fiquei até surpreso, porque numa livraria em Paris, que é a Shakespeare and Company, uma livraria famosa onde a geração famosa, chamada Geração Perdida, que morou em Paris frequentava, que foi a livraria que publicou inclusive Ulisses, de James Joyce pela primeira vez, tinha uma fila também. Quer dizer que o mundo não está completamente perdido. Mas era na Europa!

É preciso que as pessoas, de maneira geral, se interessem, não podemos só culpar o governo. Não adianta ter uma escola em cada esquina, as pessoas terem acesso à escola, - é preciso uma mudança nos valores da nossa sociedade.

O Sr. Deputado Natalino Lázare - V.Exa. me concede um aparte

O SR. DEPUTADO FERNANDO CORUJA - Pois não!

O Sr. Deputado Natalino Lázare - Quero cumprimentar v.exa pela sua brilhante explanação.

V.Exa. falou em nota baixa na redação. Isso é um sintoma claro de que não há leitura. É fácil compreender. Eu fui professor de português durante vários anos e estudei em Lages, na sua cidade, durante nove anos em dois colégios, e a leitura era obrigatória, a essência do ensino da língua portuguesa era realmente a leitura. Então, esse tema que v.exa. traz é oportuno. E hoje nas mais diversas profissões são cometidos erros de concordância, erros gramaticais e falta de vocábulo nas comunicações exatamente porque não há o hábito da leitura.

Então, se nós criássemos o hábito da leitura nós teríamos percorrido um grande caminho para aprender melhor a nossa língua portuguesa. Por isso, parabéns pelo pronunciamento de v.exa.

A Sra. Deputada Luciane Carminatti - V.Exa. me concede um aparte?

O SR. DEPUTADO FERNANDO CORUJA - Pois não! Essa é a nossa especialista em Educação na Casa.

A Sra. Deputada Luciane Carminatti - Primeiramente, quero manifestar a minha gratidão em ouvir essas palavras, porque o brasileiro lê em média dois livros por ano. V.Exa. compõe altamente essa média, porque tenho certeza de que v.exa. devora livros.

Eu entendo que isso faz parte de uma história cultural brasileira que negou os bens essenciais básicos. Então, acho que a nossa raiz histórica tem a ver com isso. Uma população que passou fome, que passou privação em muitos bens coloca a conhecimento, a cultura, a leitura como um bem supérfluo. Mas entendo que na medida em que esses bens básicos vão sendo atendidos, nós temos que fazer o debate sobre isso.

Achei muito importante a sua manifestação, porque chama atenção a atitude do sujeito e nós precisamos sair dessa esfera só da comodidade. A leitura é uma postura da gente, pois você pode ter um livro de cabeceia, um livro na bolsa para ler. Eu fico muito preocupado que hoje muitas pessoas estão substituindo a leitura pelas redes sociais. A leitura em livro é diferente da substituição em redes sociais.

Então, quero parabenizá-lo e dizer que é muito importante esse alerta e essa reflexão que v.exa faz.

O Sr. Deputado Ismael dos Santos - V.Exa. me concede um aparte?

O SR. DEPUTADO FERNANDO CORUJA - Pois não!

O Sr. Deputado Ismael dos Santos - Deputado Fernando Coruja, parabéns pela sua intervenção. Aliás, são raríssimas as ocasiões em que ouvimos falar de literatura nesta Casa tão importante. Eu entendo que todos nós precisamos fazer um gesto, em especial os parlamentares.

Pessoalmente, permita-me dar um testemunho, o estado investiu em mim. Fiz quatro anos de mestrado, quatro anos de doutorado em literatura e perguntei-me: O que posso fazer para retribuir o que o estado, a federação investiu na minha caminhada literária? E assumi o compromisso, e tenho conseguido cumprir nestes últimos quatro anos, de todo ano publicar um livro e distribuir gratuitamente dez mil exemplares para a população catarinense.

O Sr. Deputado Luiz Fernando Vampiro - V.Exa. me concede um aparte?

O SR. DEPUTADO FERNANDO CORUJA - Pois não!

O Sr. Deputado Luiz Fernando Vampiro - Deputado, gostaria de parabenizá-lo. Hoje, no blog do Cacau Menezes, li uma informação muito precisa com relação ao investimento da família brasileira em educação. Enquanto a família brasileira gasta R$ 20,5 bilhões em manicure, pedicure e cabeleireiro; em educação, seja da pré-escolar ao ensino superior, gasta aproximadamente R$ 17 bilhões. Trata-se de uma pesquisa muito precisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. E dos países avaliados, Singapura está em primeiro lugar, Hong Kong em segundo lugar e o Brasil está na 66ª posição. Então, isso mostra que as prioridades das famílias brasileiras precisam ser redimensionadas e a educação tem que ser valorizada.

O SR. DEPUTADO FERNANDO CORUJA - Agradeço o aparte. Esses números mostram bem a situação. O governo investe bastante, mas a família brasileira investe pouco, e a revolução deve ser feita por cada um de nós. As pesquisas mostram que as famílias valorizam, investem pouco na educação. Temos que chamar atenção para esse problema, que talvez seja o foco mais importante. É mais barato do que a ideia de que o governo vai solucionar todos os problemas. O governo está fazendo o seu papel. Está lá o ministro atual trabalhando, mas não sei quanto tempo vai aguentar. É um especialista na área, mas revolucionar a questão da Educação apenas pela via governamental é pouco provável.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)