Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Manoel Mota

21ª Sessão Ordinária - 30/03/1999

O SR. DEPUTADO MANOEL MOTA - Sr. Presidente, Sr. Deputados, gostaria de prestar uma homenagem a alguém que marcou muito nesta Casa, na sua história, pelo seu passado de luta, de trabalho, de coerência e de lealdade. Refiro-me ao saudoso Roberto João Motta, falecido no dia de ontem.

(Passa a ler)

"Filho de João Motta e Maria Borges, nasceu em Araranguá, em 23/3/47, passando a residir em Criciúma, onde o pai era operário nas minas de carvão da região.

Casado com Maria Rita Bessa, teve três filhos, sendo um deles adotivo.

A vida estudantil teve início no Grupo Escolar Professor Lapagesse e no Grupo Escolar Humberto de Campos, em Criciúma, tendo continuidade no seminário de Tubarão e prosseguindo na Universidade Federal de Santa Catarina, onde se formou, em 1972, no curso de Direito.

Durante o curso, participou ativamente nas lutas estudantis, tendo sido Presidente do DCE, época em que foi preso em Ibiúna, São Paulo, juntamente com os estudantes de todo o Brasil, no 29º Encontro Nacional de Estudantes.

Militante do PCB - Partido Comunista Brasileiro -, foi preso e torturado, em 1975, pela ditadura militar, a tal ponto de ter sofrido problemas físicos e psicológicos, tendo sido condenado em 1978.

No ano seguinte, foi beneficiado pela Lei da Anistia, tendo presidindo a Fundação Pedroso Horta e o Diretório Municipal do MDB de Florianópolis.

Advogou na área trabalhista por vários anos em Florianópolis e trabalhou na área de seguros, tendo sido gerente da seguradora Mineira.

Em 1982, foi eleito Deputado Estadual pelo PMDB, cuja legislatura compreendeu o período 82/86. Foi Líder da Bancada do PMDB, fazendo um trabalho exemplar nesta Casa, pela sua coerência, sua competência.

Terminado o mandato, foi aprovado no concurso para Juiz do Trabalho, tendo adjudicado pelo interior do Estado, como Criciúma, Tubarão, Videira e outras cidades.

Assumiu, como decorrência, o cargo de Juiz do Tribunal Regional do Trabalho, do qual tinha se aposentado há alguns anos, tendo voltado a advogar neste ano de 99.

Roberto Motta era um autêntico líder, tendo revelado esta faceta não só no mundo da política propriamente dita e dos ideais políticos. Sonhava com uma sociedade justa, na qual os privilégios de uma minoria dariam lugar à distribuição das riquezas de modo equilibrado a todos.

Ele representava um centro de aglutinação de toda a juventude estudantil da época, tendo feito amizades que se perpetuaram. Era um orientador e um conselheiro entre os seus amigos. Tinha uma alma pura e transparente, incapaz de ofender a quem quer que fosse.

Roberto Motta também era o esteio da família, não só por ser o filho mais velho, mas porque estava no seu sangue a coisa da liderança. Era amigo de todos e costumava reuni-los num sítio, na localidade de Maciambu, Morro dos Cavalos, à beira do mar, pescando e degustando os frutos da pesca.

Fez amigos eternos, entre eles Euclides Bagatoli, Gerônimo Wanderlei Machado, Celso Padilha, Jarbas Benedet, Celio Espíndola, Wladimir Salomão do Amarante, Nelson Wedekin e Sérgio Giovanela."

Sérgio Giovanela morreu em Blumenau um dia antes. Roberto Motta se preparou para ir ao sepultamento do amigo, mas às 5h, quando o chamaram, também ele já não tinha mais vida em sua cama.

"Roberto Motta, um dos sobreviventes dos porões da ditadura, deixará uma lacuna sobretudo na vida daqueles que tiveram o prazer de conviver com esse homem público, de origem humilde, que se transformou numa referência de luta naqueles anos difíceis."

Roberto Motta está deixando muita saudade. E ontem foi um dia inesquecível para mim, porque, pela parte da manhã, o telefone na minha casa não parava de tocar, pois confundiram Manoel Motta com Roberto Motta.

Roberto Motta nasceu em Araranguá, e temos um parentesco de longe. Seu passado só deixa lembranças alegres, lembranças de alguém que queria liberdade, igualdade e uma sociedade mais justa.

O Sr. Deputado Ronaldo Benedet - V.Exa. me concede um aparte?

O SR. DEPUTADO MANOEL MOTA - Pois não!

O Sr. Deputado Ronaldo Benedet - Deputado Manoel Mota, é uma satisfação ouvir a homenagem que presta ao ex-Deputado Estadual do nosso Partido, Roberto Motta, uma pessoa fabulosa, um lutador, um herói da democracia neste País, pois que, como já bem disse o Deputado Jaime Duarte, colocava bem as lutas pelo restabelecimento da democracia, do estado de direito em nosso País.

Roberto Motta, nascido em Criciúma, era de família humilde, é verdade, e desde a mais tenra idade já era vinculado à política.

O SR. DEPUTADO MANOEL MOTA - Ele nasceu em Araranguá, Deputado, e criou-se em Criciúma.

O Sr. Deputado Ronaldo Benedet - Criou-se em Criciúma, e a família dele vive ainda hoje em Criciúma.

Quando eu era estudante de Direito, fui trabalhar no escritório de advocacia de Roberto Motta, que estava preso. Jaci Casagrande era advogado do Banco do Brasil e cuidava do escritório de Roberto Motta, e eu, como estudante de Direito, apresentei-me como voluntário para ajudar a fazer as petições enquanto ele estava na prisão, para procurar dar suporte ao seu escritório de advocacia.

Por isso, quero prestar essa homenagem àquele que, depois, foi Deputado pela nossa Bancada, tendo participado de um momento memorável da história do MDB e tendo sido, também, membro do Partido Comunista Brasileiro.

E ainda iremos ter aqui muitos companheiros vinculados ao PMDB de Criciúma, valorosos companheiros do famoso Partidão, aliados às nossas lutas políticas na região carbonífera, em todo o Estado de Santa Catarina e no Brasil.

Deputado Manoel Mota, que esta homenagem póstuma ao nosso companheiro, ex-Deputado Estadual e Juiz do Trabalho Roberto Motta, que tanto lutou pela democracia no Brasil, fique registrada nesta Casa.

Muito obrigado!

O SR. DEPUTADO MANOEL MOTA - Agradeço o seu aparte, Deputado Ronaldo Benedet.

Nós, que conhecemos um único Partido, o MDB, posteriormente PMDB, participamos dessa luta no passado, um passado meio triste, que marcou a vida de cada um, mas foi uma luta de alguns pela liberdade de todos.

Sr. Presidente e Srs. Deputados, gostaria de transformar essa homenagem em nome da Bancada do PMDB. O passado de Roberto Motta honra este Parlamento, honra Santa Catarina, e em nome da família, pois que tínhamos um parentesco, quero continuar honrando esse sobrenome, que deixou sua marca de luta pela liberdade do povo de Santa Catarina, por uma melhor qualidade de vida da nossa sociedade.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)