50ª Sessão Ordinária - 25/06/2013
O SR. DEPUTADO SARGENTO AMAURI SOARES - Sr. presidente, caros colegas deputados, sras. deputadas, pessoas que nos acompanham pela TVAL e pela Rádio Alesc Digital, creio que é preciso que aprofundemos o debate de análise sobre as mobilizações populares das últimas semanas. Como é sabido, essa onda de mobilizações começou com a luta contra o aumento das passagens de ônibus em algumas das mais importantes cidades do Brasil como São Paulo, Porto Alegre e Goiânia.
Há mobilizações no Rio de Janeiro também protestando contra as desocupações de moradores das comunidades pobres da cidade, para garantir a construção da infraestrutura necessária à Copa do Mundo ou talvez até para esconder dos olhos do mundo a existência de comunidades pobres muito próximas ao centro ou do centro urbano daquela cidade.
Então, havia esse movimento, mas é claro que não é somente isso que ocorria com a sociedade brasileira naquele período em que começaram essas mobilizações, ou seja, cerca de três semanas atrás.
É preciso analisar que a sociedade brasileira vive há algum tempo, há mais de duas décadas, num silêncio compulsivo que esconde uma série de insatisfações que se vão acumulando ao longo do tempo.
Nós podíamos dizer que existem desilusões, indignações, sentimento de revolta no interior da sociedade brasileira e que no geral não se conseguia notar.
O povo brasileiro, na verdade, ficou frustrado na Campanha das Diretas porque as diretas não foram aprovadas e sim as indiretas para eleger o presidente da República, em 1985, apesar de todas as mobilizações do ano anterior, de 1984.
Quando o povo pode votar para presidente, pela primeira vez, desde a década de 60, elegeu Fernando Collor de Mello, que seria o salvador da Pátria. Dá-lhe desilusão! Dá-lhe frustração!
Depois, elegeu duas vezes Fernando Henrique Cardoso, o príncipe da sociologia que iria resolver de forma racional os problemas da sociedade brasileira, modernizando o Brasil, tornando-o alguma coisa mais parecida com a França. Esse, pelo menos, era o afã daqueles setores da elite intelectual de direita, mais próxima dele.
O povo, evidentemente, percebeu que a situação piorou e houve um empobrecimento daqueles setores médios urbanos em torno do arrocho salarial. O Brasil caiu da 8ª para a 15ª posição na economia mundial. Entregaram a maior parte do patrimônio nacional para empresas multinacionais, especialmente de outras partes do mundo. Monopólios privados de controle de capital estrangeiro.
Não vendo outra saída, em 2002 o povo resolveu votar em Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, porque apesar da mídia ter dito, durante 20 anos, que era radical, que iria botar o Brasil abaixo, o povo tomou coragem e disse: nós vamos dar um jeito de mudar, vamos fazer. E fez, votou no Lula. Não podemos negar que ocorreram mudanças superficiais na distribuição de renda no Brasil, nos últimos dez anos, mas é preciso registrar que essa distribuição de renda não se deu pela mudança estrutural da base econômica da sociedade brasileira. Pelo contrário, tirou-se dos setores médios para se distribuir um pouquinho mais, ou uma quantia um pouco menos tacanha, aos muitos pobres.
É claro que isso propiciou certo aquecimento do mercado interno e também ajudou no crescimento econômico que houve em alguns desses, em dez anos.
Nas medidas de fundo, entretanto, é preciso analisar e perceber que não houve mudanças substanciais, pelo contrário, na macropolítica econômica os dois governos de Lula e agora o governo da Dilma mantêm a estrutura anterior.
Quem continua determinando os rumos da política econômica-social brasileira são os monopólios, a maioria de capital internacionalizado. São latifúndios agora com uma nova face, moderna, somando ao fenômeno chamado de imperialismo mais conhecido no campo como agronegócio.
As empreiteiras deitam e rolam, pois nunca ganharam tanto, e os bancos, então, estão felizes da vida. Até porque, quando dá problema, tiram bilhões e, se for necessário, trilhões dos cofres públicos para salvar os bancos, e isso aconteceu inclusive no Brasil, no final de 2008.
Ao invés de em 2002 o Lula chamar a sociedade brasileira, os trabalhadores, as bases da sociedade para ajudar a governar, para definir ou redefinir os rumos da economia nacional, houve um pacto de governabilidade com os setores mais atrasados da política nacional, e isso perdura até hoje.
Alguém avalia que a Dilma poderia ter falado mais nos seus pronunciamentos dos últimos dias, ter chamado o povo a governar com ela. Talvez o Lula pudesse ter feito isso em 2002 para 2003. A Dilma não pode porque ela já fez o pacto. Não tem como fazer o pacto com o diabo sem sair cheirando a enxofre. E aí está, sim, comendo na mão de um Congresso Nacional que também é dominado pelos interesses dos monopólios e engessado para possibilidades de mudanças mais profundas.
É justo o sentimento de indignação da imensa maioria das pessoas que está indo às ruas, inclusive aqueles setores de classe média, para falar da PEC 37, que precisa ser sepultada, derrotada. Mas os problemas nacionais são mais profundos. O problema do Brasil não é somente a corrupção, embora ela seja um dos problemas do Brasil.
É preciso que ocorra um processo de mudanças estruturais profundas. Nós, oriundos das forças populares, com um posicionamento e um programa de esquerda, e os partidos desse lado sendo execrados inclusive na rua. A direita está indo para as ruas, escondendo a cara, eis que também há partidos para combater a bandeira dos partidos de esquerda. Essa postura tem um aspecto inclusive de fascismo. É evidente que os sentimentos da maioria das pessoas de não legitimidade dos partidos atuais e justa. A falência dos partidos, como já falava aqui na semana passada.
Então, esse sentimento generalizado é justo, mas quem está indo para as ruas, alguns ou uma pequena parcela do que estão indo para as ruas, insuflar esse sentimento são setores partidários que querem voltar a governar o Brasil pela eleição do ano que vem. Não me admiraria se não tentassem ou que não tentem, até pelo golpe, porque não é estranho que um fuzileiro naval tenha ajudado a depredar o Palácio do Itamarati em Brasília.
Eu não quero dizer que o movimento é golpista, pelo contrário, há alguns golpistas, nazi-fascistas no meio. A maioria que está indo para as ruas tem que estar atenta para ser usada por essas manobras. O movimento é legítimo e necessário, a imensa maioria quer mudanças que são efetivamente necessárias, mas é evidente que todos aqueles que podem nos ouvir têm que estar atento para não serem usados justamente pela perspectiva da negação da política, porque negar a política também é política. E talvez seja a política do obscurantismo. É preciso que a população esteja atenta também para isso.
Muito obrigado!
(Sem REVISÃO DO ORADOR)