35ª Sessão Ordinária - 08/05/2007
O SR. DEPUTADO PROFESSOR GRANDO - Sr. presidente, deputado Dagomar Carneiro, e companheiros deputados, quero fazer uma observação como professor mesmo, com toda a humildade, a respeito da manchete da Folha de S.Paulo, da última sexta-feira: "Lula pedirá até ao Papa para liberar hidrelétrica". Obviamente que essa luta é necessária para o desenvolvimento da energia, mas me preocupou, como físico, quando, em determinado momento, Lula afirmou aos ambientalistas que se houver obstáculos para a construção das usinas, a opção será a energia nuclear.
Meus amigos, nós temos acompanhado em toda a história do mundo as conseqüências da energia nuclear, e hoje se fala no combate ao aquecimento através de Mecanismos de Desenvolvimento Limpo - MDL -, que significa todo o processo. Observei em uma revista, alguns meses atrás, defender-se, aberta e escancaradamente, a energia nuclear como alternativa para o não-aquecimento. Mas o MDL, Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, significa todo o processo, do início ao final.
Então, a energia nuclear não pode ser alternativa contra o aquecimento porque produz resíduo nuclear. E nós não temos, até hoje, a garantia, e tempo, para guardar esse resíduo, que passa de mil anos. Portanto, estaremos criando, para o futuro, que quantidade? Qual é o número? Porque, de repente, começa a surgir uma corrente vendendo a idéia de que a energia nuclear é uma energia limpa e não produz aquecimento, como é o caso de termoelétricas, que é o comparativo.
Mas eu acrescento mais: na questão da energia nuclear, nós temos de fissão, que significa o rompimento do elétron, em que é utilizado o plutônio, que é perigosíssimo. E existe uma energia nuclear que o Brasil, até 1958, com Cesar Lattes, com o ex-ministro José Israel Vargas, físico, pesquisador, que poucos conheceram, mas muito importante... Inclusive para a Ilha de Santa Catarina, pois ele inaugurou, todos sabem, no Rio Vermelho, na Barra da Lagoa, a questão do cultivo das sementes de ostras, de mariscos e de camarão. Então, foi uma pessoa que sempre se preocupou com o futuro. Eles desenvolveram a pesquisa do tório, através da fusão. E o Brasil abandonou essa pesquisa.
Nós temos uma história com a qual devemos nos preocupar muito, que é manter o nível de pesquisa como se está mantendo hoje, e preocupa-nos a política, principalmente que vai ser votada no Congresso, a questão do DNA, também criada por um físico e que constitui o genoma humano. E de repente, por preceitos religiosos ou não, isso poderá dificultar, no Brasil, a pesquisa futura de cura de muitas doenças.
Desta forma, eu gostaria de chamar a atenção, porque nós temos outros tipos de energia, como a eólica e a solar, e de colocar claramente a questão hidrelétrica. Hoje já existem normas, já existem condicionantes que quando é feita a usina hidrelétrica, é necessário que haja corte raso, como é chamado, porque na medida em que o lago vai-se formando, aquelas árvores não podem ficar decompondo-se de forma orgânica. Porque tudo que se decompõe de forma orgânica, a putrefação, emite metano, que é 21 vezes mais potente do que o dióxido de carbono, que é emitido pelo carro que usa combustível fóssil.
Então, com essa limpeza faz-se o enchimento da represa, e em três ou quatro anos, com a decomposição orgânica, essa água limpa. E limpa, ela passa a ser um absorvedor, ela absorve, como o mar, o dióxido de carbono e ajuda a despoluir.
Portanto, queiramos ou não, a forma de obter energia através da água, das hidrelétricas, ainda é o melhor sistema, e devemos fazê-la com todo cuidado, com todas as observações. Por quê? Porque o homem começou a adotar desenvolvimento sustentável. O que significa isso? É somente preservacionismo e conservacionismo? Não! Isso é importante, mas o desenvolvimento é dito sustentável porque o homem tem técnica, tem conhecimento e tem cuidados para obter essa energia sem prejudicar o meio ambiente, e até ajudar com o tempo.
Falo isso porque fui participante do Brasil, como delegado, no Protocolo de Kyoto, na discussão a respeito das mudanças climáticas, em Montreal. Nós sabemos que 65% da matriz energética dos Estados Unidos são provenientes do carvão ou do óleo. Por isso eles têm dificuldade de se adaptar à energia limpa e pediram 20 anos para fazer isso.
Agora vejam o Brasil: 94% da sua energia são de hidrelétricas, são limpas. E há a questão da cana, do etanol, do óleo, que também vem de forma sustentável. Então, nós temos as alternativas. O Brasil está bem encaminhado na questão da sua matriz, e nós precisamos, sim, além dessa questão de exigência dos países industriais, aqueles que foram os principais responsáveis pelo efeito estufa...
Quero aqui chamar a atenção para o fato de o efeito estufa ser responsável pela nossa existência. Os raios de sol entram, alguns poucos ficam retidos e saem. Então, nós temos as quatro estações. A Terra é o que é devido ao efeito estufa, porque se ele não existisse, se todos os raios que entrassem saíssem, a temperatura da terra seria de -22ºC e nós não existiríamos.
Então, o que está acontecendo hoje? Esse efeito estufa equilibrado, devido à intervenção humana e de desenvolvimento mecânico não sustentável, provocou um desequilíbrio. É como se fosse um cobertor que, ao invés de aquecer, asfixia a pessoa, quer dizer, está aquecendo demais. E é isso que está acontecendo com a Terra. Nós temos um efeito estufa que está aquecendo demais e que nós temos que controlar. E temos que aprender a conviver com isso, com o fato de que vai aumentar a temperatura cerca de 2ºC e que vai aumentar também o nível do mar, porque o dióxido de carbono, o metano, os gases de efeito estufa, o enxofre, o nitrato e tantos outros estão na atmosfera e vão levar de 50 a 200 anos. Então, se nós, hoje, não emitíssemos mais nada de metano, de dióxido, ainda teríamos todo esse tempo para nos adaptar a essas condições climáticas sustentáveis de sobrevivência.
Se nós não tomarmos providências... E as Nações Unidas colocaram em um relatório que ainda há esperanças, porque, hoje, nós já temos o carro do futuro, que é elétrico ou de hidrogênio, nós temos árvores que vão sugar, em cada esquina das cidades, o dióxido de carbono.
Tudo isso os americanos também não gostam. Por quê? Porque no Protocolo de Kyoto tem um item muito interessante: cai a patente. Por quê? Porque ninguém sobrevive sozinho, toda Terra tem que se ajudar.
Assim, o mais importante agora é realmente evitar que o efeito estufa aumente. Por isso é que as florestas naturais e o reflorestamento não entraram como crédito de carbono, como o nosso agricultor familiar poderia fazer em cooperativa ou com biodigestor.
O Sr. Deputado Dirceu Dresch - V.Exa. me concede um aparte?
O SR. DEPUTADO PROFESSOR GRANDO - Pois não!
O Sr. Deputado Dirceu Dresch - Muito obrigado deputado, quero parabenizá-lo pelo tema.
Com certeza, esse tema deve ser o grande conflito dos próximos anos, e hoje já é um conflito em nível de governo federal e certamente aqui também é um dos motivos do conflito no estado e nos municípios essa questão de crescimento econômico e preservação ambiental.
Com certeza um dos conflitos dos últimos dias da nossa ministra Marina da Silva, que tem resistido muito, é a questão do crescimento a qualquer custo.
Então, queremos parabenizá-lo e dizer que, com certeza, esse tema vai ser muito debatido nesta Casa.
Muito obrigado!
O SR. DEPUTADO PROFESSOR GRANDO - Sem contar ainda com a alternativa de biomassa, que nós temos exemplo em Lages, em Irani e em tantos outros lugares. Temos o exemplo do bagaço da cana, que é o efeito da biomassa para produzir energia elétrica. E nós vamos encontrar outras formas de geração energia elétrica que compensem economicamente.
Gostaríamos de deixar bem claro que nós nos posicionamos contra qualquer tentativa que se diga no combate do aquecimento que está ocorrendo, na mudança climática da Terra, querer utilizar como pano de fundo, como ameaça ou como tecnologia da Angra III, que já querem fazer, o investimento em energia nuclear. O Brasil não precisa disso! Isto é importante discutir, porque nós temos outras alternativas!
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)