13ª Sessão Ordinária - 21/03/2006
O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Sr. presidente, srs. deputados, quero trazer à tribuna desta Casa, na tarde de hoje, alguns assuntos.
Neste final de semana, tivemos muitos fatos políticos que considero que precisam ser comentados. Quero chamar a atenção, deputado Romildo Titon, para o fato de a Rede Globo, mais precisamente no seu programa dominical Fantástico, ter levado ao conhecimento do Brasil inteiro um documentário que apenas estampou, dada a grande distância que existe entre a vida daqueles que moram na periferia, daqueles que moram em comunidades paupérrimas e da classe média afastada, distante daquela realidade, uma leitura, no meio de imagens e entrevistas de crianças que já convivem com naturalidade a problemática da droga e do tráfico. E esse programa da Rede Globo pautou os debates. De lá para cá, tenho lido nos jornais, ouvido nas rádios e assistido na televisão os comentários e não poderia deixar de trazer também aqui a minha manifestação.
Chamou-me muito a atenção quando uma criança disse que se ela viesse a morrer por decorrência da sua convivência com o tráfico não haveria problema, porque uma outra criança iria substituí-la. A expressão dessa criança, a sua conclusão é muito grave e ao mesmo tempo muito inteligente para a sua própria idade. O que ela está querendo dizer-nos é que a droga não atinge somente um indivíduo, que se ele desaparecer irá desaparecer também o problema junto. O que ela está querendo dizer é que a droga é estrutural. Ela não depende somente da pessoa existir. Essa pessoa vai ser substituída. Ela é sistêmica. Isso é muito grave! Ou seja, ela quis dizer o seguinte: a sociedade em que eu vivo está condenada, independentemente da minha existência, a viver com esse caos, com essa situação. Caos, em nosso entendimento.
Então, eu chamo a atenção de todos para a conclusão dessa criança, que falou de um jeito infantil, próprio da sua idade, que a situação está aí, veio para ficar e é estrutural.
E nós, catarinenses, florianopolitanos, assistimos àquele depoimento com o nosso cartão postal servindo de moldura, pois a ponte Hercílio Luz estava estampada atrás daquelas declarações, de tal forma que quem queria dizer que esse problema de droga é coisa de cidade grande, do Rio de Janeiro, de São Paulo, está enganado, pois esse é um assunto que está na rua em todas as cidades. É um problema do Brasil, de âmbito nacional.
Nós, deputados e deputadas, que vivemos discutindo a política, os temas sociais, etc., sabemos que uma das formas de se combater isso é com a forte presença do poder público.
A esquerda do Brasil sempre nutriu esperança, deputado Romildo Titon. Quando os ministros da Economia, os ministros de direita, do governo Fernando Henrique Cardoso, Collor de Mello, do período da ditadura militar, davam suas declarações, depois que acabavam o discurso, a algum jornalista que perguntava sobre seu plano de metas econômicas, eles diziam que era alcançar o superávit fiscal, combater a taxa de inflação, a taxa cambial, etc. E quando perguntados como ficaria o plano de metas sociais, os ministros da Economia sempre diziam que as políticas sociais era conseqüências da política econômica; dependendo da política econômica, a sociedade ia bem ou mal.
E nós sempre dizíamos que não, que era necessário inverter essa lógica, que em vez de se ter metas econômicas rígidas, números frios, era preciso colocar o social em primeiro lugar. E esperava-se que um dia, num governo com compromisso popular, num governo democrático, o ministro da Economia anunciasse em cadeia nacional as metas sociais do governo. E nesse momento um jornalista perguntaria: "Estão muito claras. Está fácil de entender quais são as metas sociais. Mas quais são as metas econômicas?" E esse ministro diria alegre, sorridente, para o Brasil: "Bem, as metas econômicas são conseqüências do nosso plano social."
Então, o que está acontecendo, hoje, no Brasil é a Globo, o Fantástico, estampando toda essa problemática, e o governo Lula, com a mesma cartilha da política econômica ortodoxa, monetarista, disciplinada no Fundo Monetário Internacional, não fazendo a política social que queremos que faça, que é mudar a política econômica para poder colher exatamente as vantagens sociais que sempre quisemos.
É essa alteração que queremos. Ninguém está achando que se vai mudar essa problemática social da noite para o dia, mas os passos para se combater a política econômica conservadora têm que ser dados.
O Sr. Deputado Wilson Vieira - V.Exa. me concede um aparte?
O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Pois não!
O Sr. Deputado Wilson Vieira - Existe uma grande diferença entre o governo anterior e o atual. Quando v.exa. fala que o governo Lula não divulgou as metas sociais que tinha planejado, quero dizer que tudo tem sido divulgado sistematicamente através da internet. Nunca tivemos um governo tão transparente como estamos tendo atualmente.
O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Não estou falando que não divulgou. É que as políticas sociais estão sendo determinadas pela política econômica. Essa é a diferença. Como a política econômica é ortodoxa, monetarista, conservadora, concentradora de renda e atende aos interesses do capital financeiro, evidentemente que os braços do governo, da União, para chegar e ajudar os estados, os municípios, a sociedade, a saírem desse estado de barbárie que se está prenunciando, fica cada vez mais difícil.
Digo que precisa haver uma inversão de prioridades. Em vez de se priorizar a política econômica, tem que se priorizar o social. É isso que sempre se esperava de um governo democrático popular, que dizia, deputado Julio Garcia, que era diferente e que tinha uma alternativa diferente para o Brasil, diferente do PSDB, do PMDB e do PFL. Mas na hora de aplicar a política econômica segue com a mesma lógica.
Estamos discutindo as imagens do Fantástico, que são imagens de um retrato das conseqüências. Ali não está o problema, ali está como o problema aparece na sociedade. O problema é outro, é estrutural. Temos é que combater e usar o estado como instrumento contra a tendência. Se a tendência é a sociedade se degenerar, se a tendência é a sociedade criar um estado de barbárie, a função pública do estado é doar no sentido contrário, é doar uma tendência inversa. Por isso, não há alternativa para todos nós, há um erro da estratégia, há um erro grave.
Eu quero voltar a esse tema, porque ele tem uma dimensão de política econômica e também de modelo de sociedade. E no meu modo de entender, deputado Dentinho, é necessário que o governo ajude a construir a superação da ordem social capitalista, construir um novo modelo de sociedade que sempre defendemos, que é o socialismo.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)