61ª Sessão Ordinária - 30/08/2005
O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Sr. presidente, srs. deputados, eu gostaria de me reportar a um assunto que considero importante.
Como deputado do Partido dos Trabalhadores faço questão de registrar aqui este momento que vivemos e o fato mais recente que considero um agravamento da nossa crise interna, do ponto de vista partidário, que foi a renúncia, no dia de ontem, da candidatura do companheiro Tarso Genro. Não pelo significado da candidatura, na medida em que era uma candidatura do campo majoritário, corrente à qual há muito tempo venho apresentando as minhas divergências, as minhas discordâncias.
Mas quero lamentar, srs. parlamentares, o gesto da renúncia, quero destacar que esse gesto de alguém como Tarso Genro, da estatura política de um líder como Tarso Genro, que foi prefeito de Porto Alegre, deputado federal, militante de esquerda de longa trajetória, ministro da Educação e que foi designado à sair do ministério da Educação para ir buscar internamente ao PT uma repactuação partidária e logo depois de alguns dias ele renuncia a sua candidatura, esse gesto de renúncia, no meu modo de entender, deve ser interpretado como a falência concreta e objetiva da missão de repactuação do partido que o campo majoritário a ele havia designado. Ou seja, faliu a missão de repactuação, sequer conseguiu o Tarso Genro repactuar o próprio campo majoritário.
Falo isso com muita tristeza, porque eu vejo, deputado Jorginho Mello, por parte da oposição, muito facilmente, aqueles que ficam com um sorriso contido no canto da boca, com ar de satisfação ao ver o nosso partido nessa crise, de ver problemas que tendem a se agravar ao invés de encontrarmos a saída, a solução.
Para mim, isso é muito dolorido e só vamos ter a verdadeira dimensão dessa fase da vida política nacional, do revés que isso representa no sentido do imaginário da nossa população, na construção da cidadania, na consolidação da democracia, daqui a dez, quinze, vinte anos. Daqui a alguns anos é que vamos verificar quão danosa foi para todos nós, brasileiros, essa política desenvolvida por um determinado segmento interno ao partido, que tem responsabilidade sobre essa condução política que está fazendo um estrago substantivo.
Essa corrente política que existe dentro do PT, chamada campo majoritário, é um agrupamento que tem base de sustentação nacional! Não é apenas em Brasília ou em São Paulo, onde se conta nos dedos aqueles que o compõem. Não, ele tem uma política nacional, uma base de sustentação, um corpo próprio em todo o país e em Santa Catarina também.
Por isso, como petista tenho me afirmado politicamente apontando as divergências. Agora, em mim dói muito o fato de, diante dessa situação, perceber uma certa precipitação de setores da direita, do capital, que já pretendem, inclusive, assinar o atestado de óbito dos nossos sonhos. Querem dizer que a crise do PT confiscou qualquer possibilidade de alimentar ideais generosos, solidários, calcados no princípio da liberdade, da igualdade, das nossas afirmações de justiça social, de combate inclusive.
Querem generalizar e dizer que não existe mais possibilidade de combater a corrupção, já que ela, inclusive, aconteceu com o próprio PT, tentando banalizar, naturalizar! Já nem aceitam mais identificar que dos 40 deputados, aqui, na Assembléia Legislativa, com relação às subvenções sociais, mesmo que grosseiramente conseguimos pelo menos tipificar quatro, cinco ou seis tipos de parlamentares que têm posturas diferenciadas. Não! Parece que agora é tudo igual e quem não consegue receber, vai receber amanhã!
Não é verdade! Não é verdade porque nós temos a possibilidade de dizer, deputado Vieirão, que hoje, assumidamente, o governo do PT pratica, lamentamos, pois no passado havia a crítica e no presente há a confirmação da prática. Mas isso não quer dizer que essa deva ser a generalização, a banalização, que todos são iguais, porque não são e nós precisamos demarcar essa diferença.
Gostaria, sr. presidente e srs. parlamentares, de demarcar bastante essa diferença e lamentar que, neste momento, a direita no país, seja ela partidária ou não... Porque não é verdade que a direita esteja só nos partidos; a direita também está presente nas suas outras formas de organização, seja pelo capital, pelas associações de empresários, enfim, ela acontece de outras formas.
Mas o que gostaria de registrar é que esse "descontentamento", entre aspas, com relação ao governo Lula não se dá em relação às críticas e aos erros, que considero crassos, com relação à política econômica. Nesse sentido, parece que a elite, que o empresariado, que setores que o sustentam de maneira orgânica estão bem servidos.
Hoje, a crítica se dá a uma prática política que nós sempre condenamos e que eles sempre praticaram. Então, agora fica difícil para a população discernir no meio de tanta fumaça, no meio de tanto problema, efetivamente, quem é quem nessa conjuntura. Mas confio nos movimentos sociais, na luta de todos aqueles que resistem ao fato de buscar naturalizar essa situação dentro e fora do PT, porque observo dentro de outros partidos um comportamento honesto no sentido do tom da palavra, do tom da crítica. Vamos, brevemente, poder receber aqui o senador Pedro Simon, que tem feito, coerentemente, críticas.
Portanto, é possível perceber que em vários partidos há a possibilidade de resgatarmos, de darmos as mãos ao que vou chamar, sem querer simplificar, de homens e mulheres de bem neste país, e de irmanarmo-nos no sentido de apontarmos uma perspectiva diferente. Não um projeto eleitoral, mas um projeto de nação, de país, que tenho absoluta certeza de que vai persistir, vai renovar, vai se revigorar neste processo doloroso de crise que estamos vivendo.
Então, é apenas para lamentar: o significado da renúncia de Tarso Genro, neste momento, é, sem sombra de dúvida, a demonstração de que o campo majoritário, o principal responsável, não está disposto a punir, a ir a fundo, a ir nas investigações. E hoje o Tarso Genro demonstra aquilo que já desconfiávamos.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)