7ª Sessão Ordinária - 01/03/2000
O SR. DEPUTADO ONOFRE SANTO AGOSTINI - Sr. Presidente e Srs. Deputados, ouvi o pronunciamento do ilustre Deputado Neodi Saretta, que fez algumas colocações de uma forma bem contundente e bem esclarecedora.
Só queria dizer ao Deputado Neodi Saretta que entrei na política ainda jovem, no tempo da UDN, do PSD. Naquela época, partido político tinha limite, a política tinha limite. Podia-se ir até um determinado ponto, dali para a frente não se podia mais, porque os princípios ideológicos, morais e éticos seriam feridos.
Lamentavelmente, Deputado Jaime Duarte, hoje nenhum partido, nenhum político tem mais limite. Tudo é possível na política. Os pronunciamentos proferidos não só em Santa Catarina, mas no País, deixam-nos desiludido com a política. Aquele comentário que o povo não acredita mais no político é verdadeiro, porque, como eu disse, não existe mais limite. Há muito conflito, Deputado Jaime Duarte (e V.Exa. passou por isso recentemente), que não é ideológico, e sim de liderança. Há interesses de um e de outro, por isso o conflito.
Portanto, Deputado Neodi Saretta, V.Exa. vai ter muitas surpresas. V.Exa. é um jovem dinâmico, esforçado, trabalhador, inteligentíssimo, mas vai se desiludir. Eu já estou mais para lá do que para cá, já estou calejado na política, já aprendi muito. Já freqüentei bares da UDN, Deputado Neodi Saretta, em que o PSD não podia ir; bar do PSD em que a UDN não podia ir. O Vice-Presidente da UDN, Urbano Jacobs, de saudosa memória, foi visto no bar do PSD, no dia seguinte foi chamado ao diretório e teve de explicar o que estava fazendo lá. Eu era jovem na época e fui testemunha disso.
V.Exa. naturalmente vai se desiludir muito, porque muitos pontos de vista ideológicos defendidos aqui e no Brasil são mudados, Deputado Neodi Saretta, conforme a conveniência.
Por exemplo, quem ouviu o atual Presidente da República defender o parlamentarismo na época em que era Senador, quem ouviu os pronunciamentos inteligentíssimos que ele fazia e ouve os de hoje... É totalmente diferente! E quem diria que um dia os Bornhausen iriam sentar-se com os Ramos?!
Portanto, Deputado Neodi Saretta, em política hoje não existe mais limite. Lamentavelmente, vai acontecer essa desilusão política. É a evolução dos tempos, é a evolução do ser humano, dos interesses pessoais, etc.
O Sr. Deputado Neodi Saretta - V.Exa. me concede um aparte?
O SR. DEPUTADO ONOFRE SANTO AGOSTINI - Pois não!
O Sr. Deputado Neodi Saretta - Deputado Onofre Santo Agostini, ouvi a sua manifestação e gostaria de fazer algumas colocações não para me contrapor à sua experiência, mas para falar no que acredito.
Em primeiro lugar, não creio que evolução seja o termo exato para isso. Talvez seja uma involução, na medida em que se caminha para não se ter limite nenhum na política.
Não me afino com aqueles que acham que na política tudo pode. Eu diria que tudo pode no sentido da conversação, de haver possibilidades diversas; agora, há um limite que, no meu entendimento, é um limite ético: até onde pode efetivamente uma conversa, uma discussão avançar.
Com relação a algumas composições e alguns comportamentos, V.Exa. citou o Presidente da República, e talvez sejam esses os exemplos que estão sendo dados para a sociedade brasileira e, quem sabe, até para os jovens que estão entrando na política, o que pode desvirtuar, enfraquecer os Partidos Políticos e dar a idéia de que política não é coisa séria.
Penso que podemos, modestamente, tentar ajudar a inverter um pouco isso, demonstrando que existe limite, sim, na política e demonstrando que é possível atuar-se com clareza, com posicionamento político-ideológico, que está longe, Deputado Onofre Santo Agostini (e sei que V.Exa. vai me entender), de posições sectárias.
Quando falo de limites éticos, de posicionamentos ideológicos, não falo de sectarismo, mas de uma posição talvez um pouco mais radical, e radical no sentido etimológico da palavra, não no sentido pejorativo, como se tem usado comumente na política.
O SR. DEPUTADO ONOFRE SANTO AGOSTINI - Agradeço a sua manifestação, Deputado Neodi Saretta.
Sinceramente preocupo-me com o político idealista, porque às vezes ele pode sair daqui, ou da Câmara de Vereadores, ou do Congresso Nacional, ou da vida pública, desiludido por ver o que está acontecendo neste País.
O Sr. Deputado Jaime Duarte - V.Exa. me concede um aparte?
O SR. DEPUTADO ONOFRE SANTO AGOSTINI - Pois não!
O Sr. Deputado Jaime Duarte - Deputado Onofre Santo Agostini, discutir a vida dos Partidos Políticos, o comportamento de quem faz política partidária é extremamente importante.
Com certeza nós evoluímos no sentido de o País ter se democratizado. Os Partidos estão-se consolidando e não há mais como impor camisa-de- força a ninguém. Ninguém aceita mais isso, até porque existem as características locais que às vezes determinam os rumos das alianças, que os dirigentes estaduais têm de respeitar porque o que importa é um projeto de poder local, uma característica daquele Município.
Temos de analisar o comportamento dos Partidos Políticos ou dos Parlamentares ao fazer política, não só nas alianças eleitorais, mas no dia-a-dia. Entendo que a ética e a forma construtiva de se fazer política encontram-se nas práticas de todos os Partidos. E em todos os Partidos existem mazelas, contradições, de maneira que não acredito no "dono do verdade", mas nos bem intencionados, os quais constatamos em todas as forças políticas.
O SR. DEPUTADO ONOFRE SANTO AGOSTINI - Agradeço, Deputado Jaime Duarte, e V.Exa. tem toda razão!
O Sr. Deputado Pedro Uczai - V.Exa. me concede um aparte?
O SR. DEPUTADO ONOFRE SANTO AGOSTINI - Pois não!
O Sr. Deputado Pedro Uczai - Gostaria de dizer que se o poder local permite fazer qualquer tipo de aliança, não duvidarei de que esse poder local articule a candidatura de Ciro Gomes junto com Fernando Henrique e, quem sabe, junto com o PMDB em 2002. Esse é o primeiro ponto.
O segundo ponto é que acho que V.Exa. e o Deputado Neodi Saretta trazem um tema fundamental para nós, porque a nossa trajetória é discutir política e, nesse espaço de luta que é o Parlamento, tentar compreender o momento que estamos vivendo na política nacional e estadual do ponto de vista da formação democrática dos Partidos Políticos e dos diferentes projetos que estão em disputa.
Acho que existe um divisor de águas. Não é só a questão da ética, da moralidade. Disse aqui, quando se falava em relação ao Gilson, que ele tinha uma posição ética mesmo tendo uma posição de direita. O marco divisor é dessas forças políticas, é onde se quer chegar, é para que tipo de sociedade se faz política.
Acho contraditório que determinadas forças políticas sustentem as contradições sociais, alimentem-nas e reproduzam-nas. Há outros projetos políticos e outras forças políticas que querem construir uma sociedade que supere essas contradições sociais, uma sociedade com outro perfil social.
Então, esse é o marco divisor na política e o que me pauta estar aqui no Parlamento neste momento da minha vida.
Quando eu gosto que os idosos tenham direito e não as grandes empresas, faço uma opção de classe. Quando eu gosto que seja só bolsa de estudo e não financiamento, faço uma opção de classe. Quando eu defendo reforma agrária e não o latifúndio no Brasil, também defendo uma opção de classe - o outro projeto defende o latifúndio há 500 anos.
Então, esse é o marco divisor na política, porque senão vamos modernizar. E até o PPS, pelo discurso do Deputado Jaime Duarte, já se modernizou!
O SR. DEPUTADO ONOFRE SANTO AGOSTINI - Eu agradeço, Deputado Pedro Uczai. Embora sua colocação tenha no fundo bastante filosofia, V.Exa. tem toda razão.
Quero dizer que pertenço àquele segmento a que V.Exa. fez referência, porque a necessidade assim me obriga. E quando V.Exa. estava comentando, até me lembrei daquela piada do português que chegou em uma bodega e viu um cidadão comendo uma rapadura com muito prazer. O português não sabia o nome daquilo, mas viu no balcão um pedaço de sabão parecido com rapadura e falou para o bodegueiro: senhor, me dá um daquele.
O português pegou aquela "rapadura" e começou a mastigar, espumando pelo canto da boca. O bodegueiro, ao ver a cena, disse: mas o senhor está comendo sabão! Está bom? E o português: Bom nada, estou comendo para o meu dinheiro não ir fora!
Então, na política, muitas vezes diz-se certas coisas não porque se queira, mas para que o dinheiro não vá fora. E evidentemente que não estou falando em dinheiro-moeda, mas em princípios, em ética partidária.
Deputado Pedro Uczai, sei que o Partido de V.Exa. é um dos poucos que tem princípio. Agora, se não voltar a fidelidade partidária, pode V.Exa. ter certeza de que o seu Partido também não vai demorar muito para chegar aonde os outros chegaram.
Portanto, um dos princípios básicos é voltar a fidelidade partidária.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)