16ª Sessão Solene - 12/06/2006
O SR. PRESIDENTE (Deputado Julio Garcia) - Neste momento, vamos ouvir a palavra do mais novo cidadão catarinense Mário Motta.
O SR. MÁRIO MOTTA - Excelentíssimo sr. deputado Julio Garcia, digníssimo presidente da Assembléia Legislativa de Santa Catarina e proponente desta outorga que tanto me sensibiliza e aos meus familiares;
Excelentíssimo sr. Lírio Rosso, secretário de estado da Articulação Estadual, neste ato representando o excelentíssimo governador em exercício do estado de Santa Catarina Eduardo Pinho Moreira;
Excelentíssimo desembargador Nelson Schaefer Martins, neste ato representando o Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina;
Meu estimadíssimo ex-governador do estado, sr. Ivo Silveira, muito grato por sua presença;
Excelentíssimo conselheiro Otávio Gilson dos Santos, presidente do Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina;
General de brigada João Tranquilo Beraldo, comandante da 14ª Brigada de Infantaria Motorizada;
Meu caríssimo e agora mais ainda estimado companheiro também de veículo e de emissora, Moacir Pereira, presidente da Associação Catarinense de Imprensa - Casa do Jornalista;
Estimado Ranieri Moacir Bertoli, presidente da Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão, Acaert, entidade que tanto orgulha os homens da comunicação do nosso estado;
Excelentíssimo sr. deputado Herneus de Nadal, vice-presidente da Assembléia Legislativa de Santa Catarina.
Isso tudo é tão grande, tão gigante e eu sou tão pequeno. Para os que esperam um longo discurso, eu peço desculpas, pois vou ser bastante breve, mas tentarei não decepcioná-los.
Eu gostaria de acrescentar aos cumprimentos que fiz à Mesa um agradecimento especial aos meus familiares pela presença e por todo o apoio, à minha esposa Glória, aos meus filhos Mário Aleixo e Maria Carolina; à minha querida sogra-mãe, d. Antônia Caetano Corrêa Neto; ao meu cunhado Aleixo e à sua esposa Odete.
Eu recebi deste estado e do seu povo tudo o que uma pessoa pode desejar e tenho certeza de que ainda não consegui retribuir nem uma pequena parcela do muito que já me foi dado.
Eu sinto a responsabilidade que a outorga desse título me traz e gostaria de dividir não a responsabilidade, mas a possível conquista de um laurel, que com toda a humildade recebo, com alguns amigos fraternos que comigo vieram para Santa Catarina há mais de 30 anos em busca de trabalho e da construção de uma existência.
Saibam esses amigos aqui representados, e peço licença para citar o nome de um deles, o Luiz Carlos Gonzaga Barbosa, o conhecido Kalu, dos Jogos Abertos, que está ao lado de um outro grande amigo, que também é paulista e que escolheu este estado para trabalhar, e de outros tantos, talvez uma centena de profissionais, inicialmente da área da educação, que eu só compreendi, deputado Julio Garcia, e aceitei esta honrosa homenagem por me sentir representando cada um deles. Então, a partir de hoje e por meu intermédio, esses meus companheiros que para cá vieram podem também se sentir cidadãos catarinenses, porque o são de fato.
Eu nasci num circo, já foi dito isso aqui, e o fato de ter nascido em circo não me constituiu, obrigatoriamente, uma cidadania de raiz. Eu costumo brincar que nasci ou fui depositado e imediatamente, no dia seguinte, o circo mudou de Santo André para Ibiúna e eu tive que sair correndo da maternidade, porque senão perdia a carreta. E de Ibiúna fui para Paraguaçu Paulista e de lá para Quatá, Presidente Prudente, Presidente Epitácio, Presidente Bernardes, Porto Epitácio, cruza para Dracena, volta para Diamantina, Flórida Paulista, Tupã, Marília, Bauru, volta pela Noroeste, em Araçatuba, Birigüi, Glicério, Coroados.
Enfim, eu praticamente vivi pelo estado de São Paulo sem ter uma raiz definida, sem constituir uma cidadania formal e estabelecida, embora me sinta orgulhoso de ter nascido numa das principais cidades do ABC paulista, a cidade de Santo André.
Mas, como disse, talvez por um acidente, por uma passagem, não renego, de forma alguma, mas as minhas relações foram se estabelecendo muito mais com o interior de São Paulo e, posteriormente, com a fixação na cidade de Tupã, onde conheci minha esposa, onde tivemos os filhos e onde eu iniciei a minha carreira em rádio.
A vinda para Lages foi uma tentativa de busca de melhores condições de trabalho. Naquela época, Santa Catarina ainda não tinha conseguido formar nenhuma turma de professores licenciados de educação física e nós já tínhamos dois anos de experiência de cursos, com uma possibilidade muito grande de encontrar trabalho nesta terra.
Inicialmente, eu tentei Florianópolis e fui encaminhado para a cidade de Joaçaba, mas uma tromba d'água no posto Patussi, em Curitibanos, acabou me levando a Lages, porque o trecho de Patussi em diante ainda não era asfaltado.
Dezembro de 1974. Para chegar a Curitibanos eu tive que ir a São Cristóvão, cinco quilômetros acima. Parei em um posto e indaguei a um senhor como eu poderia chegar a Joaçaba. O cidadão me disse que com aquela chuva eu só chegaria lá daqui a quatro ou cinco dias, que eu não chegaria nem no Inferninho, que são sete quilômetros de terra antes de Curitibanos. Aí ele me disse para ir a uma pousada em frente ao posto, pegar um quarto, dormir e pela manhã, quando eu percebesse que os caminhões que estavam estacionados no posto começassem a se dirigir com correntes nas rodas, seguisse esses caminhões, pois aí talvez eu chegasse lá no comboio.
Então, eu perguntei a ele se havia alguma cidade grande perto dali para que eu pudesse fazer a inscrição para aulas excedentes, porque era uma sexta-feira e era o último dia para fazer isso. Aí o cidadão disse que havia a cidade de Lages. Eu perguntei a ele se essa cidade se escrevia com "j" ou com "g" e ele me disse que era com "g". Eu voltei ao carro, peguei o Guia Quatro Rodas do porta-luvas e olhei Lages: 110 mil habitantes, quatro emissoras de rádio, dois jornais. Quando eu li que havia quatro emissoras de rádio, eu pensei comigo que trabalho eu teria, no mínimo.
E eu cheguei a Lages e fui recebido de uma maneira que talvez só o serrano saiba fazer, e os senhores sabem muito bem o que estou dizendo. Foi uma acolhida tão forte, tão intensa que 31 anos depois eu tenho o prazer de receber aqui, neste plenário, o meu primeiro chefe, o professor Vilson Floriani, que era na época o coordenador regional de educação da cidade de Lages.
Vim para Florianópolis, em 1986, a convite da secretária da Educação, depois de ter desenvolvido um trabalho paralelo à comunicação, na Rádio Princesa, na Rádio Clube e, posteriormente, na TV Planalto. Mas o que me trouxe a Florianópolis foi a educação. Eu colaborei com alguns companheiros para a fundação da primeira associação de professores de educação física, a APEF, e orgulhosamente fui o seu primeiro presidente, já militando nas comunicações.
Iniciei um trabalho na Secretaria da Educação, em 1986, na área pedagógica da educação física, e depois na educação física infantil, e tive a oportunidade de conhecer, palmo a palmo, este estado de Santa Catarina, desde que cheguei a Lages, em 1974, 1975, até os dias de hoje.
Eu tenho orgulho de dizer que talvez conheça 90% dos nossos municípios, não de passagem, mas de ter ido, parado, conversado com as pessoas e identificado na praça principal algum detalhe importante.
Depois vim para Florianópolis e ingressei na RBS. E agradeço ao Marcos pela representação de toda a direção aqui e pela presença desse maravilhoso coral para também homenagear essa empresa que tanto orgulho me dá, a qual pertenço há 20 anos.
Mas lembro claramente que com o projeto Jornal do Almoço na Praça, passamos por mais de 90 municípios de Santa Catarina, quando pude rever tantos e tantos amigos feitos ao longo daquele tempo, quer pela educação física, pelos jogos escolares ou pelos Jogos Abertos, que de algum modo coordenávamos, porque tínhamos uma relação direta com o esporte amador. Tive o privilégio de ter ajudado a escrever o primeiro regulamento dos Joguinhos Abertos de Santa Catarina, o privilégio de ter participado de um grupo que instituiu os Jogos Microrregionais e os Jogos Regionais nos Jogos Abertos. Sei que são facetas da minha vida e que talvez poucas pessoas saibam da minha relação com o estado de Santa Catarina.
Para a minha estimada família, minha esposa Glória, meus filhos Mário Aleixo e Maria Carolina, o mais profundo carinho, respeito e agradecimento. Sem a paciência, sem a compreensão por tantas e tantas ausências, quase sempre motivadas pelo meu trabalho, eu não estaria aqui e talvez não estivesse em nenhum outro lugar desse plano existencial, pois não sei se conseguiria viver com a distância de qualquer um de vocês hoje.
Registro também o carinho à minha estimada sogra, dona Antônia, ao meu cunhado Aleixo, sua esposa Odete e à querida sobrinha Giuliane. Meu cunhado, que é um ex-fiscal da Fazenda de São Paulo e que também escolheu recentemente Santa Catarina para viver, seguiu os passos que demos aos nossos pais.
Mesmo não tendo nascido aqui, sepultei meu pai e minha mãe na terra dos catarinenses. Meu saudoso pai Mário Pinto da Motta, o Motinha, e minha querida mãe Nair de Campos Motta, a Nhá Fia, uma imensa saudade. Uma dupla sertaneja humorística do rádio paulista de 1949 a 1952, na Rádio Bandeirantes de São Paulo, com um programa chamado Na Serra da Mantiqueira. Talvez daí entendam essa relação que tenho com a comunicação. Meus pais eram cantores de rádio quando eu nasci. Compraram o circo e resolveram ir para o interior em função da saúde deste que vos fala.
Passei uma infância apaixonante, uma alegre infância até a pré-adolescência. O deputado Herneus de Nadal foi muito feliz ao citar o aspecto de que Deus talvez tenha me dado outro dos privilégios, talvez dos mais importantes privilégios de um ser humano; costumo dizer que uma das maiores frustrações que eu tive na infância, meu querido ex-governador Ivo Silveira, foi nunca poder ter ido a um circo para assistir um palhaço. Lembro que domingo as pessoas vestiam seus filhos, iam à missa e depois levavam as crianças para assistir o palhaço no circo. Eu nunca pude fazer isso. Eu era o palhaço, eu tinha que me preparar para fazer aquelas crianças rirem. Em compensação, essa alegria e esse privilégio de ver crianças rindo por brincadeiras feitas por mim, com a cara pintada, creio que não são muitos os que tiveram essa possibilidade.
Além deste que vos fala, apenas mais um irmão a vida nos deu. Meu irmão Gilberto Motta, impossibilitado de estar conosco nesta noite, também escolheu Santa Catarina para viver logo depois que para cá eu vim. É mestre em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina, pelo seu laboratório de ensino à distância e hoje busca um doutorado na cidade de Marília no interior de São Paulo, mas sem tirar inteiramente os seus pés daqui, onde permanece vivendo a minha querida e sempre cunhada Sônia e a minha sobrinha, filha de Gilberto, Maria Fernanda, uma publicitária. As duas residindo aqui.
Aos meus companheiros de educação formal estabelecida, a minha gratidão, o meu mais profundo respeito e especialmente a certeza de que vocês continuam fazendo o melhor de cada um em prol do melhor para todos. Sei que vocês continuam como eu e como creio todos os homens e mulheres de bem que aqui estão, acreditando que a única salvação deste ou de qualquer outro país, mundo, nação ou povo, só será possível pela educação.
Aprendi muito com todos vocês, meus companheiros que aqui estão, quer no prédio central da secretaria, quer no atual Ceísa Center, onde funciona o Conselho Estadual de Educação, onde ainda continuo a minha caminhada nesta área ao lado de tantos companheiros, antes de serem estimados como companheiros e companheiras de trabalho, grandes profissionais. Tenho imenso carinho por vocês e uma enorme gratidão.
Tantos e tantos nomes eu deveria citar, mas certamente eu estaria mais exposto ainda a cometer a maior das injustiças, que é a do esquecimento. Mas como esquecer, por exemplo, dois nomes de pessoas que não estão aqui, mas os senhores certamente entenderão por que eu não poderia nunca esquecer esses dois nomes. Foram pessoas com as quais depois eu pouco tive a oportunidade de conviver, mas imaginem se eles não representam a sensibilidade, o respeito, o carinho e o coração enorme da gente de Santa Catarina.
No meu primeiro dia na cidade de Lages, ao fazer inscrição para aulas excedentes faltou um documento. Eu precisava de um atestado de antecedentes. Mas como se eu havia chegado a Santa Catarina há um dia e não conhecia ninguém? Eu teria que ir à delegacia com um comprovante de residência, mas eu não residia na cidade. Tinha todos os documentos e me faltava um atestado de antecedentes. Recordo claramente que parei na escadaria do Colégio Aristiliano Ramos, no centro de Lages, em frente à estátua do nosso Nereu Ramos, ainda era calçadão da Correia Pinto. Parei desolado: "onde é que vou arrumar um atestado que poderia ser assinado por dois professores efetivos no estado há mais de cinco anos?" Eu não sei se a intenção era dificultar um pouco a vinda de outras pessoas de outros estados, mas onde eu arrumaria dois professores efetivos no estado há mais de cinco anos, que se dignassem a assinar um atestado de antecedentes para uma pessoa que eles nunca tinham visto?
Olho para a escadaria, desce uma professora forte, bonita, alemã. Olho e digo: "Como vai? Boa-tarde." Ela respondeu: "Boa-tarde". Eu disse: "A senhora poderia me fazer um favor? Teria coragem de assinar um atestado de antecedentes para uma pessoa que a senhora não conhece?" Ela colocou a mão no meu queixo carinhosamente e disse: "você tem cara de pessoa honesta. Dê aqui." E assinou. Eu disse: "Mas preciso de duas assinaturas de professores efetivos." Ela olhou para a escadaria e disse: "Precisava. Professor Pedro..."
Essa pessoa chama-se Lígia Maria Roesler. Descia pelas escadarias o professor Pedro Gasperin, que hoje é um dos membros da Uniplac. Ela disse então: "Professor Pedro, pode assinar esse atestado para um grande amigo meu de São Paulo que vem dar aula aqui?" Ele disse: "Claro, não tem problema não." E assinou.
Eu tenho no catarinense essa imagem que ficou marcada no primeiro dia da minha estada aqui. Nunca mais esqueci isso. Como esquecer, por exemplo, do professor Jenuíno Borgignon, que hoje reside em Brasília e que era diretor do Centro Educacional Vidal Ramos Júnior, porque de um dia para o outro eu perdi todas as aulas que eu tinha na cidade ao decidir retornar à Tupã. Só permaneci em Lages na primeira vez que estive na cidade, porque o professor Jenuíno, olhando o meu currículo disse: "não, você não pode ir embora, tem que cuidar da educação física no Centro Educacional." E eu permaneci lá. Por essas coisas do destino, tive que retornar à São Paulo em função do estado de saúde do meu sogro, pai da Glorinha, esposo da dona Antônia. Nós voltamos para São Paulo durante dois anos, depois de já estar instalado na cidade de Lages, até o falecimento do meu sogro nos nossos braços.
Por responsabilidade de alguns colegas de Lages, e talvez por essa ligação afetiva tão forte que ficou estabelecida em dois anos apenas de convivência, tive que voltar a fazer inscrição para aula excedente. Aliás, não tive que voltar, mas tive que responder por uma inscrição que foi feita sem que eu e a Glorinha soubéssemos. Chegou em Tupã um envelope com as duas fichas de inscrição, minha e da Glória, enviadas pelo Kalu, pela Bernadete e pela Lia, pessoa a quem fiz questão de visitar ontem quando estava na cidade de Lages, infelizmente também não pode estar aqui. E viemos para Santa Catarina como efetivos, eu e minha esposa.
Paralelo a isso já trabalhava na Rádio Clube e, posteriormente, na TV Planalto. Teria tantas e tantas pessoas para citar, mas certamente pouparei. Eles certamente sabem que é para eles que estou falando.
Para encerrar, na comunicação, o carinho e o respeito que dedico a todos os profissionais com quem convivi e convivo até hoje, seja em Tupã, no interior paulista onde iniciei em rádio; seja em Lages, onde comecei em televisão em 1980; seja em Santo André, por onde passei nesta volta para Tupã, em 1978, trabalhando na Rádio Emissora ABC; seja na RBS onde há 20 anos dedico com todo carinho e todo respeito o meu trabalho.
Iniciei essa relação profissional e afetuosa com a RBS pelas mãos de um companheiro chamado Délcio Fiorin, que curiosamente foi levado a falecer na cidade de Lages, trabalhando na TV Planalto, muitos anos depois. Na época, além do Cabreira, muito bem citado, tínhamos na direção da RBS o sr. Estácio Ramos, e a partir daí a minha relação afetuosa com esse grupo de comunicação tanto me orgulha e me proporciona sempre grandes momentos de alegria, felicidade e júbilo.
Senhoras e senhores, temos tanto a agradecer e tão pouco a ofertar. Entendo que o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis. Fernando Pessoa disse isso e peço emprestado porque sou paulista por vontade do destino, fui do mundão de meu Deus por força da profissão circense de meus pais, sou catarinense orgulhosamente por opção pessoal e agora pelo desejo desse maravilhoso povo querido deste estado e pela indicação de quem passei a respeitar também, sem a menor relação de amizade, posso dizer que era só profissional, o que valorizou sobremaneira para mim a indicação, além da aprovação unânime dos srs. deputados, a quem agradeço. Então sou catarinense por opção pessoal e agora pelo desejo do povo deste querido estado. Só posso prometer o seguinte: serei sempre digno de Santa Catarina, digno de ser catarinense.
Obrigado a todos e vamos fazer uma ótima seqüência.
Muito obrigado!
(Palmas)
(SEM REVISÃO DO ORADOR)