63ª Sessão Ordinária - 02/09/2003
O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Sr. Presidente e Srs. Deputados, no horário do Partido dos Trabalhadores, no dia de hoje, usamos a tribuna para pedir o apoio dos nobres colegas Deputados a uma iniciativa que estamos tomando.
(Passa a ler)
"Algumas pessoas, por sua vida e sua obra, alcançam a condição de se tornarem cidadãos do mundo. Em qualquer canto encontram reconhecimento e respeito e, em muitos casos, discípulos continuadores de sua obra e de seu pensamento. Esse é o caso do brasileiro e nosso querido economista Celso Monteiro Furtado.
Entretanto e paradoxalmente, muitas vezes os filhos de sua própria terra, talvez até mesmo pela convivência mais cotidiana, deixam de lhe dedicar a atenção devida.
Conceder o Título de Cidadão Catarinense a Celso Furtado tem o objetivo muito simples de manter seus ensinamentos acesos na memória de nosso povo catarinense. Uma vida dedicada ao objetivo de eliminar a miséria e a desigualdade. Uma experiência de vida militante, que nunca recusou a polêmica, contrariando a lógica da conciliação estabelecida pelas elites nacionais, que sempre redundou em mais miséria e atraso.
Celso Monteiro Furtado, homem do mundo, brasileiro, e agora peço o apoio dos Srs. Deputados para transformá-lo em Cidadão Catarinense. É um orgulho principalmente para nós, nascidos neste Estado que já gerou tantos exemplos de coragem e de determinação na luta por um mundo melhor e mais justo
Um exemplo do reconhecimento alcançado pelo economista ocorreu no último dia 18 de agosto, no Rio de Janeiro, ocasião da realização de um seminário internacional. Hegemonia e Contra-hegemonia: os Impasses da Globalização e os Processos de Regionalização, era o tema do seminário.
Neste seminário, com a presença da nata intelectual, Celso Furtado foi lançado a candidato do Prêmio Nobel de Economia. E segundo Theotonio dos Santos, um dos articuladores da candidatura de Celso Furtado, cerca de 600 economistas renomados de todo o mundo apóiam a iniciativa.
Nasceu em 26 de julho de 1920, em Pombal, no Sertão Paraibano. Filho de Maria Alice Monteiro Furtado, de família de proprietários de terras, e Maurício de Medeiros Furtado, de família de Magistrados.
Após seus estudos secundários no Liceu Paraibano e no Ginásio Pernambucano do Recife, chega ao Rio de Janeiro em 1939, entra para a Faculdade Nacional de Direito e começa a trabalhar como jornalista na Revista da Semana.
Em 1943, é aprovado no concurso do Dasp para Assistente de Organização, indo trabalhar no Rio de Janeiro e em Niterói,
No ano seguinte cursa o CPOR, conclui o curso de Direito e é convocada para Força Expedicionária Brasileira.
Com a patente de aspirante a oficial, segue para a Itália, servindo na Toscana como oficial de ligação junto V Exército Norte-americano, e sofre um acidente em missão durante a ofensiva final dos aliados no Norte da Itália.
Em 1946, ganha o prêmio Franklin D. Roosevelt, do Instituto Brasil-Estados Unidos, com o ensaio Trajetória da Democracia na América. Viaja para a França, inscreve-se no curso de doutoramento em economia da Universidade de Paris-Sorbonne e no Instituto de Ciências Políticas. Envia reportagens para a Revista da Semana, Panfleto e Observador Econômico e Financeiro, entre outras, narrando sua experiência como integrante de uma brigada francesa de reconstrução de uma estrada na Bósnia, e sua participação no Festival da Juventude em Praga.
Em 1948, é feito doutor em Economia pela Universidade de Paris. De volta ao Brasil retoma o trabalho do Dasp e junta-se ao quadro de economistas da Fundação Getúlio Vargas, trabalhando na revista Conjuntura Econômica.
Em 1949, instala-se em Santiago do Chile para integrar a recém-criada Comissão Econômica para a América Latina, a Cepal, órgão das Nações Unidas que se transformará na única escola de pensamento econômico surgida no terceiro mundo.
No ano seguinte, quando o economista argentino Raúl Presbisch assume a secretaria executiva da Cepal, é nomeado Diretor da Divisão de Desenvolvimento e até em 1957 cumpre missões em diversos países do continente, como Argentina, México, Venezuela, Equador, Peru e Costa Rica, e visita universidades norte-americanas onde se inicia o debate sobre os aspectos teóricos do desenvolvimento.
É de 1950 seu primeiro ensaio de análise econômica, ‘Características Gerais da Economia Brasileira’, publicado na revista brasileira de economia, da Fundação Getúlio Vargas.
Em 1952, ‘Formação de Capital e Desenvolvimento Econômico’ é seu primeiro artigo de circulação internacional, traduzido para o International Economic Papers, da Associação Internacional de Economia.
Em 1953, preside no Rio o Grupo Misto Cepal-BNDE, que elabora um estudo sobre a economia brasileira, com ênfase especialmente nas técnicas de planejamento.
O relatório do Grupo Misto, editado em 1955, será a base do plano de metas do Governo de Juscelino Kubitschek.
Em 1954, com um grupo de amigos cria o Clube de Economistas, que lança a revista Econômica Brasileira.
Em 1956, mora na cidade do México em missão da Cepal. Passa o ano letivo de 1957, 1958 no King’s College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, a convite do professor Nicholas Kaldor. Aí escreve a Formação Econômica do Brasil, que será seu livro mais difundido internacionalmente.
De volta ao Brasil desliga-se definitivamente da Cepal e assume uma diretoria do BNDE. É nomeado pelo Presidente Kubitschek interventor no Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste.
Elabora para o Governo Federal o estudo ‘Uma política de desenvolvimento para o Nordeste’, origem da criação, em 1959, da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste - Sudene -, com sede no Recife.
Em 1961, como seu superintendente, encontra-se em Washington com o Presidente John Kennedy, cujo Governo decide apoiar um programa de cooperação com o órgão, e, semanas depois, com o Ministro Ernesto Che Guevara, chefe da delegação cubana, vai à conferência de Punta del Este, para discutir o programa da Aliança para o Progresso.
Em 1962, é nomeado no regime parlamentar o primeiro titular do Ministério do Planejamento, quando elabora o Plano Trienal apresentado ao País pelo Presidente João Goulart por ocasião do plebiscito visando a confirmar o parlamentarismo ou restabelecer o presidencialismo.
No ano seguinte deixa o Ministério do Planejamento e retorna à Superintendência da Sudene, quando concede e implanta a política de incentivos fiscais para os investimentos na região.
O Ato Institucional nº 1, publicado três dias depois do Golpe Militar de 31 de março de 1964, cassa os seus direitos políticos por 10 anos. Têm início seus anos de exílio. Ainda em abril, aceita um convite para dar seminários em Santiago do Chile. Meses depois, em New Haven, Estados Unidos, será pesquisador graduado do Instituto de Estudos de Desenvolvimento da Universidade de Yale. Faz conferências em diversas universidades norte-americanas e participa de vários congressos sobre a problemática do Terceiro Mundo.
Em 1965, muda-se para a França a convite da Faculdade de Direito e Ciências Econômicas da Universidade de Paris e assume a cátedra de professor de Desenvolvimento Econômico.
É o primeiro estrangeiro nomeado para uma universidade francesa, por decreto presidencial do General de Gaulle. Permanecerá nos quadros da Sorbonne por 20 anos. Em junho de 1968 vem ao Brasil pela primeira vez após sua cassação, a convite da Câmara dos Deputados. No correr do decênio de 1970, faz diversas viagens a países da África, Ásia e América Latina, em missão de agências das Nações Unidas.
No mesmo decênio é professor-visitante da American University, em Washington, da Columbia University, em Nova York, da Universidade Católica de São Paulo e da Universidade de Cambridge, onde é o primeiro ocupante da cátedra Simon Bolívar e é feito Felloy do King’s College. Entre 1978-81, integra o Conselho Acadêmico da recém-criada Universidade das Nações Unidas, em Tóquio. No mesmo período, recebe um mandato do Commitee for Developement Planning, da ONU.
Entre 1982-85, como diretor de pesquisas da Ecole des hautes Éutdes em Sciences Sociales, dirige em Paris seminários sobre a economia brasileira e internacional.
A partir de 1979, quando é votada a Lei da Anistia, retorna com freqüência ao Brasil, reinsere-se na vida política e é eleito membro do Diretório Nacional do PMDB. Casa-se com a jornalista Rosa Freire d’Águiar. Em janeiro de 1985 é convidado pelo recém-eleito Presidente Tancredo Neves para participar da Comissão do Plano de Ação do Governo. É nomeado Embaixador do Brasil junto à Comunidade Econômica Européia, em Bruxelas, assumindo o posto em setembro. Integra a Comissão de Estudos Constitucionais, presidida por Afonso Arinos, para elaborar um projeto de nova Constituição.
Em março de 1986 é nomeado Ministro da Cultura do Governo do Presidente José Sarney; sob sua iniciativa é aprovada a primeira lei de incentivos fiscais à cultura. Em julho de 1988 pede demissão do cargo, retornando às atividades acadêmicas no Brasil e no exterior.
De 1987-90 integra a South Commission, criada e presidida pelo Presidente Julius Nyerere e formada por países do Terceiro Mundo para formular uma política para o Sul.
Entre 1993-95 é um dos doze membros da Comissão Mundial para a Cultura e o Desenvolvimento, da ONU/Unesco, presidida por Javier Pérez de Cuéllar. Entre 1996-98 integra a Comissão Internacional de Bioética da Unesco.
Em 1997 é organizado em Paris, pela Maison des Sciences de l’Homme e a Unesco, o congresso internacional ‘A contribuição de Celso Furtado para os estudos do desenvolvimento’, reunindo especialistas do Brasil, Estados Unidos, França, Itália, México, Polônia e Suíça.
No mesmo ano é criado pela Academia de Ciências do Terceiro Mundo, com sede em Trieste, o Prêmio Internacional Celso Furtado, conferido a cada dois anos ao melhor trabalho de um cientista do Terceiro Mundo no campo da economia política. É Doutor Honoris Causa das Universidades Técnica de Lisboa, Estadual de Campinas - Unicamp, Federal de Brasília, Federal do Rio Grande do Sul, Federal da Paraíba e da Université Pierre Mendès-France, de Grenoble, França. Em agosto de 1997 é eleito para a cadeira nº 11 da Academia Brasileira de Letras.
Por tudo isto este brasileiro de território e alma é merecedor desta singela homenagem que nós catarinenses podemos lhe oferecer."
Peço a todos Deputados que apóiem esta iniciativa, que vai certamente elevar a ciência e a auto-estima nacional, concedo-lhe o título de Prêmio Nobel de Economia. E que aqui nesta Casa possamos colaborar nesta campanha, também lhe concedendo o título de cidadão catarinense.
Sr. Presidente, esta é uma iniciativa com a qual Santa Catarina certamente poderá colaborar com a campanha organizada pelo economista Teutônio dos Santos. Creio que aqui contará com o apoio, o reconhecimento, e poderemos daqui alguns dias ter a presença do Ministro Nelson Furtado no Plenário desta Casa.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)