Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Nelson Goetten

8ª Sessão Ordinária - 06/03/2003

O SR. DEPUTADO NELSON GOETTEN - Sr. Presidente e Srs. Deputados, assomo à tribuna nesta manhã de quinta-feira para deixar registrado um assunto que me preocupa muito e que causa muita tristeza ao cidadão brasileiro, a cada um de nós e, principalmente, aos homens públicos que têm uma responsabilidade maior com o País.

No decorrer dessas últimas semanas, estarrecidos, acompanhamos o que a marginalidade, a criminalidade produzia como notícia para o País com suas ações no Rio de Janeiro. Que coisa triste para cada um de nós, que temos a responsabilidade de ajudar a construir um lugar melhor, mais justo, para a população e que temos a responsabilidade também de proteger o cidadão! Estamos vendo a população desesperada, desprotegida, assustada, temerosa. E cabe-nos fazer uma análise do que conduziu a isso.

Há muito tempo acompanhei o depoimento de um cidadão que condenava uma mãe que tinha quatro filhos e não tinha condições de criá-los porque a sua situação era de verdadeira miséria. E escutei do cidadão: "Por que essa mãe coloca um filho no mundo se não tem condições de cuidar? Isso é uma irresponsabilidade, e não temos nada a ver com isso! Eu não tenho nada a ver com isso! Essa mãe é uma irresponsável!".

Penso que assim, mais ou menos, foi o que cada um de nós pensou no decorrer do tempo, quando víamos uma criança na rua: "Mais uma mãe sem condições financeiras colocando mais um filho no mundo ou neste País; mais um brasileiro nascendo de uma família sem a mínima condição de oferecer o básico".

Penso que a maioria dos brasileiros foi dizendo assim: "Isso não é problema meu! O meu problema é a minha família, os meus filhos! Essa é a minha responsabilidade".

Foi com esse pensamento que levamos o País para o ponto que está, por não entendermos que aquela criança ou aquela família era um problema nosso. O tempo foi passando e fomos dando as costas àquela família, àquele ser humano. O tempo continuou a passar e aquele menino, para sobreviver, começou com um pequeno roubo, até pela necessidade de se alimentar. Foi crescendo, e logo colocou na sua cintura um 38 para buscar o que era necessário para a sua sobrevivência. E hoje vemos um número exagerado, assustador de pessoas, discriminadas, marginalizadas, jogadas na verdadeira miséria, abandonadas. E estão nos ameaçando. E agora vemos que isso era, sim, um problema nosso.

O que mais me assusta não são as imagens estarrecedoras do Rio de Janeiro, que em poucos lugares deste planeta vimos, em tão pouco tempo, ações tão fortes do crime organizado, mas, quando vemos em um Estado, que é exemplo para o Brasil e o mundo, o nosso querido Estado de Santa Catarina, um pequeno território cravado dentro do Brasil, onde a qualidade de vida é considerada uma das melhores do País e do mundo, onde o cidadão tem oportunidade de trabalho porque é um Estado empregador, um Estado que possui gente esclarecida, de bem, com uma boa formação, de repente, em apenas uma semana, mais de 20 assassinatos, desde assalto com morte até, simplesmente, a estupidez do assassinato por uma razão banal.

É isso que nos assusta muito, porque estamos vivendo uma situação parecida com a do Rio de Janeiro. Se fizermos uma análise vamos ver que a nossa situação é estarrecedora também.

Não temos o direito de criticar esse ou aquele, mas precisamos fazer um exame de consciência, uma avaliação da atuação e da ação do Poder Público, o que estamos fazendo com o nosso País e com a nossa Santa Catarina.

Então, precisamos de uma ação forte do Governo para amenizar um pouco aquilo que construímos no decorrer de décadas e que hoje nos assusta muito.

Ao fato do Rio de Janeiro, preciso fazer uma citação. É necessário reconhecer uma ação importante do Presidente da República, que agiu naquele momento com presteza, com rapidez.

Vamos enfrentar o crime da forma como tem de ser, ou seja, se é bárbaro, se é bruto, vamos ter que enfrentar de igual para igual! Não podemos deixar o crime tomar conta!

Dessa vez, pelo menos, tivemos uma ação forte para intimidar o crime no Rio de Janeiro. Buscamos soluções, transferindo criminosos para cadeias que não têm comunicação. Todos sabem quem comanda o crime no Rio de Janeiro, como, por certo, sabem quem comanda em Santa Catarina. Essas pessoas têm que estar incomunicáveis!

É triste termos que colocar o Exército nas ruas, mas, como último recurso, faz-se necessário. Em outras oportunidades já dissemos que não há outra saída que não essa, porque não podemos é deixar a população intimidada!

Mas, por não estar preparado, Deputada Ana Paula, um soldado matou estupidamente um professor. Isso é triste. A imprensa se sensibilizou e até condenou a ação do Exército. É claro que não está preparado para isso! É óbvio que temos de lamentar essa morte. Agora, quantas vidas foram salvas devido a presença forte do Exército nesses dias no Rio de Janeiro?

Sabemos muito bem que não pode persistir a necessidade no País de colocar o Exército brasileiro nas ruas para ajudar a proteger o cidadão, mas do jeito que a coisa está indo, penso que é a única maneira de podermos sair nas ruas, daqui a pouco, em algumas cidades.

Quero registrar a minha tristeza, a minha preocupação com a situação que estamos vivendo no País que construímos.

O cidadão pensou tanto na ganância, mesmo não podendo usar tudo o que adquire - até um ponto o dinheiro ajuda porque dá para comprar uma boa mansão, uma boa casa de praia, um avião ou um helicóptero, mas daí para cima não tem mais o que fazer com o dinheiro - mas continua querendo.

Daí começa a levantar paredões ao redor da sua mansão; não bastando isso, começa a colocar grades eletrificadas; não bastando isso começa a contratar seguranças treinados lá em Israel e não bastando isso, coloca câmaras de televisão em cada cômodo da casa. Cometeu a idiotice de criar essa cadeia rica.

As duas Mercedes e o Puma que ele tem, não pode usá-los e compra um fusquinha velho e veste-se como a maioria dos cidadãos, bem humilde, para poder sair na rua!

Foi isso que fizemos, foi isso que a maioria daqueles que a ganância cegou, que não souberam ajudar a distribuir um pouco melhor a renda, que pensaram que só o dinheiro é que contava - e muitos ainda continuam assim - , que nos conduziram a essa situação desesperadora que vivemos hoje.

Essa é a lição que tiramos neste País. Ou aprendemos a distribuir a renda e aprendemos a entender que todos nós somos responsáveis pelo que estamos vivendo hoje e cada um faz a sua parte, ou em breve teremos um País onde vamos ter que pedir licença e autorização aos marginais para podermos andar livremente nas ruas; para podermos mandar o nosso filho para a aula; pedir autorização aos marginais para podermos ir e vir. Isso não é possível! E a mudança depende, sim, de ação política forte, de distribuição de renda mais justa e da participação de toda a sociedade.

É o momento, sim, de solidariedade!

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)