Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Sargento Amauri Soares

32ª Sessão Extraordinária - 02/12/2008

O SR. DEPUTADO SARGENTO AMAURI SOARES - Muito obrigado, sr. presidente, srs. deputados, sras. deputadas, telespectadores da TVAL, ouvintes da Rádio Alesc Digital, pessoas que nos acompanham nesta sessão.

Falava anteriormente nos traumas provocados pelos desbarrancamentos na região norte catarinense, especialmente nos vales que nascem na serra Geral e desembocam no oceano Atlântico, aqui no litoral norte, e nas pessoas que infelizmente morreram - e o número pode chegar perto de 150.

Não nos recuperaremos jamais, a dor da perda permanecerá para sempre, especialmente para os familiares e amigos mais próximos. Estivemos lá, como falávamos antes, vivenciando com aquelas pessoas, com aquelas famílias, na semana passada, durante quatro dias, juntamente com a equipe de voluntárias do Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Estado de Santa Catarina, SindSaúde, e acompanhamos de perto essa situação e os traumas.

As pessoas em geral, não só aquelas que perderam familiares e amigos, estão muito angustiadas, desesperadas até. Acredito e percebo que a vida para elas não será mais a mesma, pois a partir de agora há uma angústia diante dessa constatação, diante desse sentimento. Nós também percebemos que elas não serão mais as mesmas depois dessa tragédia, no entanto, temos a certeza de que elas serão muito melhores porque a tragédia também unifica, também cria relações de fraternidade, vizinhos que nunca se falavam agora convivem no cotidiano do mesmo abrigo, vivenciam o mesmo trauma, a mesma tragédia sendo solidários, ajudando os que precisam mais. Pessoas que perderam a casa, que perderam tudo, que saíram com a roupa do corpo estão nos abrigos ajudando os outros em situação igual.

Temos o trabalho incansável dos servidores públicos, policiais militares e civis, bombeiros militares, bombeiros voluntários, enfermeiras, técnicos em enfermagem, médicos, assistentes sociais, servidores públicos estaduais, municipais, federais, como o pessoal do Exército Brasileiro, que faz um excelente trabalho junto com a Polícia Militar naquelas comunidades.

Há comunidades que nunca haviam tido policiamento de forma organizada, de forma rotineira e as pessoas estão-se irmanando no trauma com os policiais militares, com os militares do Exército, formando comunidades com novas relações. Os bombeiros, claro, pelo número insuficiente no estado, estão lá nos desbarrancamentos tentando salvar as vidas diretamente no local dos acidentes.

Muitas pessoas do povo, servidores aposentados, servidores que estão no dia de folga, todos se apresentam para trabalhar; os meios de comunicação continuam chamando voluntários. E, estranhamente, embora tenhamo-nos prontificado a contribuir junto com companheiros praças da reserva remunerada, com servidores da Saúde, com outros servidores públicos, com estudantes universitários - e temos feito contato com as autoridades dizendo que estamos prontos a contribuir, a sair do oeste do estado, a sair de outras regiões e ir para lá -, parece que algumas ajudas, pela desorganização ou pela diferença de conceito, não são acionadas, vamos usar essa palavra.

Ajudar nem sempre é uma tarefa fácil, pois os conceitos são diferentes, o conceito de prevenção à doença é diferente, o conceito de assistência é diferente, e nós continuamos reiterando que queremos ajudar. Todos os dias os praças aposentados ou de folga inscrevem-se, perguntam como podem fazer para ajudar. Nós estivemos lá durante quatro dias e fomos, vamos dizer assim, porque queríamos efetivamente ir, fomos lá para a ponta do sistema. Se esperássemos o chamado, mesmo sendo do voluntariado, o chamado não teria vindo, e sabemos que as pessoas precisam de ajuda lá na ponta.

Não compreendo esses comportamentos. Muito foi perdido, principalmente mais de uma centena de vidas humanas. As pessoas do povo, as pessoas pobres perderam mais, porque tinham menos para perder, mas até mesmo algumas empresas perderam. Não há nenhuma objeção a que se possa discutir até alguma isenção para aquelas empresas que foram mais afetadas, mas é preciso fazer um estudo caso a caso, verificar efetivamente o que foi afetado, para que o dinheiro público e os muitos recursos que estão vindo não deixem de ajudar uma pessoa que precisa para ser usado pelo setor econômico, que tem um grande potencial.

É evidente que muitos empresários, especialmente os pequenos e médios, perderam tudo e vivem um drama individual. Mas a economia, na sociedade em que vivemos, é assim. E o deputado Elizeu Mattos falava da frieza, mas nós vivemos numa sociedade em que a emoção se generaliza e as iniciativas econômicas se individualizam. E aquele empresário que, eventualmente, vá falir por causa dessa tragédia, não tenhamos dúvida de que outro tomará o seu lugar no mercado imediatamente.

Portanto, é preciso, sim, incentivo, é preciso, sim, investimento, e fala-se aí em quantias vultosas que vêm para Santa Catarina. Mas um mero trocado disso pagaria a Lei n. 254 inteira, da qual tanto o governo já reclamou de não ter recursos para pagar.

A nossa categoria está trabalhando de manhã à noite, 24 horas por dia, para defender a sociedade. Queríamos, também, no meio de tanta fraternidade, de tanta solidariedade e de tanta sensibilidade, a sensibilidade do governo para que não precisássemos sequer mobilizar a categoria. Porque neste momento isso ainda está impossível de fazer, porque a metade dos nossos companheiros praças da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros está na região atingida, especialmente no vale do Itajaí e na foz do rio Itajaí.

Tenho pontos importantes, fundamentais de discordância daqueles que dizem que é uma tragédia, que agora o estado vai perecer, porque a economia não se recupera mais. Não é verdade! A perda de receita, em Santa Catarina, só vai acontecer agora, no mês de novembro próximo passado, e não chega ao final do ano. Ainda antes do Natal a economia começa a se recuperar, porque nós estamos numa sociedade capitalista, deputado Dirceu Dresch, e no capitalismo o azar de muitos é a alegria de alguns.

Sim, muita gente vai ficar muito mais rica do que era por causa dessa tragédia. Isso é frio, mas essa é a realidade da sociedade capitalista. A microempresa que falir vai ser suplantada por uma grande empresa, talvez de outra região, mas que se implantará na região atingida. Se 80% da cidade de Itajaí ficou submersa pelas águas, imaginemos quantos eletrodomésticos terão que ser comprados! Mesmo que apenas um terço dessa população tenha condições de comprá-los agora, outros serão ajudados pela solidariedade de parentes de outras cidades. As lojas não vão conseguir fechar neste Natal nem para que os funcionários comemorem a data de tanta gente procurando eletrodomésticos para comprar.

E aqui se fala em perda de receita. Essa perda de receita não demora 15 dias para ter uma reversão. É preciso que se analise isso, porque esta sociedade não é uma sociedade da fraternidade, da comunhão, é uma sociedade em que quem puder produzir mais vai vender mais nos próximos dias, porque a população vai precisar comprar mais. Essa é a realidade que estará valendo nas próximas semanas.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)