Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Sargento Amauri Soares

48ª Sessão Ordinária - 19/06/2013

O SR. DEPUTADO SARGENTO AMAURI SOARES - Sr. presidente, srs. deputados, sras. deputadas, telespectadores da TVAL e da Rádio Alesc Digital, começo refletindo sobre a diferença que faz 100 mil pessoas na rua no estado do Rio de Janeiro, algumas centenas de milhares em algumas cidades do país e a possibilidade de termos no dia de amanhã, 20 de junho, quinta-feira, mais de um milhão de pessoas nas manifestações em todo o Brasil. Só aqui no estado de Santa Catarina trinta e poucas cidades, inclusive cidades em que nunca houve uma manifestação de rua, estão chamando para a mobilização popular. Então, parece-me que passaremos mais de um milhão no dia de amanhã. E isso faz uma diferença bastante grande, inclusive para definir o posicionamento de lideranças políticas formadoras de opinião e outros grandes arautos, daquilo que pode e daquilo que não pode numa sociedade como a nossa.

Tudo o que era feio até a última sexta-feira de repente ficou bonito. Tudo o que não podia até na semana passada agora pode e é elogiado justamente por aqueles que criticavam.

Então, é pensar de fato a força que tem a organização popular. E nesse caso nem é a força de organização popular, mas é a manifestação popular na tomada de decisões, na formação da opinião pública inclusive. Isso é uma reflexão com aspectos de ironia, evidentemente, mas que serve para mostrar o que é a força da vontade popular, quando ela cresce e existe efetivamente.

Quem nos chamava de arruaceiros até ontem hoje enche a boca para elogiar os movimentos que fazem aquela mesma coisa que era tão proibida até o dia de ontem.

Muitos viram pela primeira vez ontem. Parece-me que muitos viram pela primeira vez no dia de ontem. Eu já vi aquelas pontes serem fechadas algumas vezes, nas últimas décadas, nesta capital, fechada pelos estudantes, pela luta do passe livre, fechada pelos praças da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, em 2004, fechadas pelas organizações do movimento popular, em 2007. Depois disso, não. Aí se tornou de novo um tabu. E todo mundo encheu a boca para gritar, a ponte não, a ponte não. E usaremos todas as forças do mundo para que a ponte não.

Aqui foram dez mil, mas somados a todos os lugares chegaremos a um milhão, em breve.

Lembro-me que em março de 2007, quando tinha recém-assumido o mandato nesta Casa, participei de um movimento das organizações populares, das centrais sindicais dos trabalhadores etc. E num determinado momento, pela presença dessa enorme manifestação na cabeceira do lado de cá das pontes, as duas estavam paradas, os manifestantes vieram até ali, e a Polícia Militar se colocou na frente e ficou um impasse.

A pedido das principais lideranças do movimento, sugeri um acordo ao secretário da Segurança, na época deputado Ronaldo Benedet e ao comandante da Polícia Militar, coronel Eliezer Rodrigues, para liberar uma faixa da ponte para os manifestantes irem e na volta outra faixa, assim teríamos menos transtornos para todos. Então, eles botaram a responsabilidade nos meus ombros, e assim foi feito. E foi cumprido o acordo por ambas as partes, pela Polícia Militar e pelos manifestantes.

No outro dia, aqui, neste plenário, alguém me disse que eu poderia ser convocado para uma comissão de ética por ter ajudado a fechar a ponte no dia anterior. Não sei se falou brincando, evidentemente, porque a imprensa caiu em cima, chamando-me de arruaceiro etc. E repito, a ponte já estava fechada. Enfim, fui chamado de diversos nomes feios pelos mesmos formadores de opinião que de ontem para hoje estão descascando elogios.

Estou dizendo isso só para fazer uma reflexão a respeito da diferença que fazem 100 mil pessoas nas ruas. Repito, amanhã chegaremos a um milhão, acredito que passaremos desse número, se somarmos todas as cidades do Brasil.

É legítimo o movimento. E quero parabenizar o comandante da Polícia Militar, coronel Nazareno, e o comandante do 4º Batalhão da PM, tenente coronel Araújo Gomes, pela postura que tiveram, como falei ontem. Eles mudaram a história e o comportamento da Polícia Militar diante da possibilidade de confrontos com movimentos populares. E tiveram uma postura digna de aplausos, não obstante as divergências no trato da questão salarial que estamos tendo neste momento, pois estamos discutindo junto ao governo as divergências existentes na política salarial e de direitos para os próximos anos para os militares estaduais.

Então, quero parabenizá-los pela capacidade de ter avaliado o momento político nacional. Sei das dificuldades, porque o movimento vai crescer, e tomara que continue pacífico, mas não podemos ter certeza. Aliás, a forma tranquila de ontem indica que quando também os órgãos públicos contribuem, não criminalizam a priori, os manifestantes também se comportam de forma mais pacífica.

Outra questão importante que quero registrar ainda neste tempo que falta é que estava lendo hoje na coluna do Moacir Pereira, no Diário Catarinense, a importante frase, com a qual concordo plenamente: "Transporte ruim, moroso e caro"

Agora não é mais apenas algumas pessoas da sociedade que estão falando isso. É Moacir Pereira, na sua matéria principal da coluna do Diário Catarinense de hoje.

Que bom que se está percebendo isso, porque se esse foi o pavio que ascendeu esse mar de descontentamentos existentes, hoje, na sociedade brasileira, é preciso que isso seja refletido. Porque a mobilidade urbana é um dos principais problemas nacionais, ou pelo menos é o reflexo do problema nacional de uma sociedade dominada pelos monopólios, pelo latifúndio, pelo imperialismo do sistema bancário na sua associação com o próprio latifúndio e com o setor industrial, porque no Brasil há décadas definiram como prioridade o automóvel particular, e as indústrias automobilísticas mandam e desmandam nos sucessivos governos deste país.

Eu falo aqui em transporte público e gratuito e alguém se espanta. Não precisa se espantar - e deputado Kennedy Nunes, parabéns pela sua defesa nesse sentido também na cidade de Joinville -, porque se tirar os imensos benefícios que o estado brasileiro, com dinheiro público, tem dado ao monopólio do automóvel dá para fazer transporte gratuito para todo mundo no Brasil. E também gera emprego, evidentemente.

Basta definir, então, qual é a prioridade nacional e quem define a política e as necessidades do povo brasileiro. Esta é a reflexão que precisa ser feita para que possamos entender o que está acontecendo.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)