2ª Sessão Ordinária - 18/02/2003
O SR. DEPUTADO AFRÂNIO BOPPRÉ - Sr. Presidente, Sras. Deputadas e Srs. Deputados, venho à tribuna no dia de hoje, e não poderia ser diferente, para tratar sobre as críticas que estão sendo desferidas com relação à situação dos últimos acontecimentos que a imprensa vem divulgando do Governo Federal.
Antes, porém, quero dizer que sou daqueles que ainda não se cansaram de sonhar, e espero ser, sinceramente, Sr. Presidente, como Florestan Fernandes, Mário Lago, Lélia Abramo, Milton Santos, Mário Bastos - o nosso catarinense - Nésio Jacques, companheiro homenageado na semana passada, fundador do PT, com 80 anos de idade, que levaram até nos seus últimos dias de vida a esperança pela construção de uma sociedade socialista.
Eu quero seguir este exemplo. O exemplo de Jacó Gorender; o exemplo de todos aqueles que tombaram na busca da construção de uma utopia. Da utopia de que uma outra sociedade é possível.
E para isso eu quero dizer que o nosso projeto político não se resume a um projeto de Governo, mesmo que seja o de um Governo Federal. O que nos move a cada dia, a cada passo, a cada ação política, é a firme disposição de construir um projeto de sociedade, um projeto que supera as mazelas da injusta sociedade capitalista que vivemos - uma sociedade geradora de desigualdades, que engendra um modo de desenvolvimento, que gera, a cada dia, um grupo seleto, pequeno, cada vez mais rico, mais endinheirado, mais poderoso e, do outro lado uma massa crescente de excluídos e miseráveis.
Esse é um projeto de sociedade, esse é um projeto de poder. A sociedade capitalista é um projeto de poder que encontra aqui neste Parlamento um espaço de luta política, que ficou muito bem expresso nas falas dos Deputados que nos antecederam. O que nós conseguimos recentemente no Brasil com a luta dos trabalhadores foi a conquista de um Governo Federal que está há poucos meses tratando de alterar o rumo desta sociedade. Mas, ainda assim, estamos no Governo ainda administrando uma sociedade produtora de desigualdades sociais.
Portanto, nós somos Governo, mas não somos poder. O poder em uma sociedade capitalista é exercido pelos latifundiários, pelos banqueiros, pelos industriais, pelos tecnocratas dos aparelhos do Estado, seja no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. O que o PT conseguiu na eleição de 2002 foi o Governo Federal! O PT não tem todos os Governos Estaduais, o PT não tem as Prefeituras, o PT não tem maioria no Congresso Nacional! O PT conseguiu importante conquista, mas um espaço ainda insuficiente para fazer as mudanças que queremos fazer, gestar nesta sociedade o projeto de uma nova sociedade.
Fiz referência a isso para dizer que o PFL parece estar isento de poder nesta sociedade, parece que ele não tem resultado nenhum, parece que ele não tem responsabilidade alguma com o lucro dos bancos, um resultado, inclusive, que atende aos gurus que satisfazem as fontes de financiamento das campanhas milionárias do PFL, que estão contentes com esse resultado e que, mais cedo ou mais tarde, haverá de lamentar, haverá de reclamar porque estamos preparando a mudança deste modelo econômico!
E digo: o que eu consigo ver no sorriso do Deputado Antônio Ceron, do Deputado João Rodrigues, dos Deputados do PFL, o que eu percebo nas suas manifestações no Plenário, quando chegam na tribuna, é um profundo ódio! Falam com ódio, mas não é nenhum ódio com relação ao PT! É um ódio que expressa uma diferença de classes sociais! É um ódio entre classes! É um ódio de uma disputa política disfarçada num discurso de terceiro escalão, falando da cervejinha e do futebol do Presidente nos finais de semana, querendo desqualificar, desfazer o debate, diminuir a estatura!
Eu só respeitaria, Sr. Presidente, os discursos do PFL, se viessem aqui criticar o Governo com a sua plataforma política em punho! Com a plataforma do PFL, do neoliberalismo, dizendo que o Governo deveria tomar a atitude "a", "b" ou "c". Mas não! Eles vêm aqui fazer a crítica pela própria forma historicamente defendida por nós, do Partido dos Trabalhadores. Esta é a nossa plataforma. Estamos tendo dificuldades de colocá-la em prática, é verdade, mas nós nunca vendemos aqui discurso fácil!
É bom que se diga - e todos nós sabemos disso - que Lula só ganhou a eleição de 2002 pela catástrofe que estava sendo gestada historicamente nos Governos anteriores. O principal cabo eleitoral da eleição de 2002 foi o desastre social, o desastre econômico que estava sendo engendrado pelos Governos anteriores, por toda a política econômica, pelos donos do poder que estavam apenas gestando na lógica de incrementar cada vez mais lucros e mais lucros!
Sr. Presidente, não posso aceitar este tipo de crítica factual, tentando macular a imagem de um Partido como um PT, através de um assessor que, pela forma como os Deputados do PFL aqui falaram, Deputado Francisco de Assis, parece que tinham muita intimidade com ele. Eu só o fiquei conhecendo na semana passada! Mas o Deputado João Rodrigues só faltou chamá-lo de "Mirinho", de "Waldomirinho Diniz"! Falaram com tanta intimidade, com tanta amizade, que eu não sei a serviço de quem, exatamente, esse senhor estava no Governo! Sabe-se perfeitamente, inclusive, que já foi defenestrado da administração pública!
E quero dizer: nós não vamos apaniguar ninguém aqui! Doa a quem doer, toda a investigação tem que ser feita necessariamente para esclarecer os fatos.
Era isto o que tínhamos, Sr. Presidente.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)