Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Professor Grando

81ª Sessão Ordinária - 22/10/2008

O SR. DEPUTADO PROFESSOR GRANDO - Sr. presidente, sra. deputada e srs. deputados, gostaria de fazer uma pequena análise, porque estamos falando muito da questão da crise mundial como se ela estivesse distante, como algo que a Europa está resolvendo entre seus 27 países o problema deles; que os Estados Unidos também está resolvendo o seu problema, mas já estamos nos preocupando em como está a bolsa asiática na noite, já não é mais no amanhecer.

Então, o que é que está acontecendo? O mundo globalizado fez com que todos os países, através da ciência e da tecnologia, uns mais e outros menos, se interligassem num sistema financeiro, que foi o que comandou a globalização. Esse sistema financeiro valorizou muito certos produtos, como as casas, que eram hipotecadas, e deixavam de corresponder ao seu valor. Isso começou a ser devolvido.

Ora, quando vemos que a bolsa começa a cair, e que o governo federal investiu nos últimos 15 dias R$ 23 bilhões para fazer com que o dólar não seja muito valorizado, e como conseqüência disso desvaloriza o real, nós ficamos pensando: primeiro, que as reservas do Brasil são R$ 235 bilhões, e quando se gasta R$ 23 bilhões, já queimou, já gastou 10% dessas reservas que poderiam ser investidas em geração de emprego. Por exemplo, R$ 23 bilhões daria empregos em muitos estados e solucionaria um dos grandes problemas, que é também o grande problema do nosso estado, secular, eu costumo dizer, que é a questão do saneamento.

Sobrariam muitos recursos desses R$ 23 milhões se fosse para o saneamento de Santa Catarina. Poderia fazer mais, em no mínimo mais dez estados, gerando empregos, saúde e dando qualidade de vida que essa é a função dos governos.

E quando se fala em recursos do Banco Central, o que são? São os recursos que ele recolhe diariamente dos depósitos bancários, R$ 23 bilhões, no caso, dinheiro do povo, dinheiro nosso! E isso tem que começar a ser pensado. Não é dinheiro do ministro Guido Mantega nem do Meirelles e nem do Lula, nós sabemos que é do sistema econômico, e esses recursos são provenientes do povo que tem as suas economias gastas por causa de uma crise que começou nos Estados Unidos, pelas hipotecas sem sustentação, e que se alastrou por causa do sistema de segurança das empresas que ofereciam seguros e não tinham lastro, que foram principalmente para um país chamado Inglaterra, que tinha tradição em seguros e resseguros.

Ora, tudo isso não basta apenas criticar, porque essa foi a solução encontrada para que a situação não fosse ainda pior, mas literalmente, verdadeiramente, foi injetado dinheiro público para os banqueiros, sim! Para os banqueiros, inclusive, que estavam com dificuldades, porque neste país já se dizia que o melhor negócio do mundo é ser banqueiro, o segundo é ser banqueiro, e o terceiro é ser banqueiro de um banco falido.

Nós mostramos politicamente que, como se fala há muito tempo, a socialização do prejuízo é inerente ao sistema capitalista. Foi socializado o prejuízo que é o pior tipo de capitalismo. Porque se fosse para salvar uma indústria que gera empregos, que exporta produtos, que pedisse moratória, tudo bem, já que existe uma forma para fazer isso. Nós sabemos que o dinheiro público, o financiamento do BNDES, do BRDE, do Badesc e de tantos outros bancos às vezes se faz necessário. Mas para financiar um banco que não pode declarar moratória, porque todas as pessoas que têm conta corrente vão retirar o dinheiro e aí seria a falência do sistema, isso não pode ser feito.

Volto a dizer que isso talvez vá sacrificar uma juventude. É o desemprego, é a ciência, vocês imaginem a quantia de recursos. Se os R$ 23 bilhões que o Brasil investiu nesses últimos 15 dias para manter, para tentar baixar o preço do dólar e não conseguiu, que evaporou, que foram queimados, R$ 2,3 bilhões, 10%, se fossem aplicados na ciência para pesquisar as principais doenças, o DNA, na agricultura, no genoma, o quanto, isso sim, democratizaria e o quanto beneficiaria o povo brasileiro e a humanidade?

Vocês imaginem 2,3 trilhões de dólares na Europa para salvar os bancos europeus, se 10% fossem investidos na ciência. E podem investir na ciência hoje com toda garantia, porque há a democratização da pesquisa, o sistema de informática traz isso, e eu falo isso sem medo, até cito um exemplo: se amanhã uma ilha isolada lá do Pacífico, que sequer saibamos o nome, descobrir a cura da AIDS todo mundo vai saber, porque a ciência se democratizou através da Internet, através da tecnologia, através do ser humano. Não é mais um cientista pesquisando atrás da cortina de ferro, ou outro pesquisando isoladamente. Hoje, em qualquer situação, ou qualquer setor, seja o que for de mais avançado na ciência, há comunicação mundial entre as universidades, entre os institutos de pesquisas, entre os pesquisadores. Quanto esse mundo poderia evoluir, mas faltam recursos, opções políticas.

No entanto, esse é apenas um exemplo de recursos do povo que estão sendo gastos por causa de uma crise mundial. O Brasil também já queimou 10% das suas reservas, que poderia muito bem ter aplicado esses recursos em saneamentos ou pesquisas. E há muitos outros exemplos na geração de empregos, na agricultura, na infra-estrutura de estradas, na tecnologia. Está aí o carro elétrico, que não emite dióxido de carbono; o carro de hidrogênio que já existe em todas as partes do mundo. São protótipos que já existem e que poderiam se adaptar a nossa indústria.

São questões como essas que nos levam a pensar como podemos continuar com o nosso ideal e lutando por um mundo melhor. E a nossa luta cada dia tem que ser maior, tem que estudar cada vez mais, não basta mais o discurso de ser contra por ser contra, mas oferecer alternativas. Também não basta o discurso do ufanismo de que tudo ia bem, desde as pesquisas até o sonho que iria resolver todos os problemas, do pré-sal que iria ter petróleo jorrando e sobrando, e que hoje já estão reconsiderando se vale a pena explorar ou não, pela baixa do petróleo. Mas, enfim, temos essas reservas que é um patrimônio de todo o povo brasileiro.

Há também a questão do PAC, já está-se analisando certas obras que são de cunho social, são importantes, fundamentais e sempre defendemos.

Sem sombra de dúvidas são muitas as idéias, as alternativas, e nós do PPS queremos que o Brasil sofra o menor impacto. Se possível nenhum, se possível que tenha criatividade para aproveitar esta crise e dar condições melhores do país se desenvolver com novas alternativas, o que é possível.

Mas gostaríamos de dizer que estamos querendo que o Brasil supere esta crise começando pela lição de casa como todo e qualquer cidadão vai ter que fazer, começando a economizar aquele dinheiro, aquele recurso para que possa ser bem aplicado em projetos que gerem empregos, divisas, harmonia, e isso começa, sem sombra de dúvida, pelos novos prefeitos que aí estão vindo. Que usem a sua criatividade, que nós chamamos de poder local, porque começa pelo poder local, que é onde a pessoa nasce, cresce, trabalha, produz, se torna cidadão e pode ter uma qualidade de vida melhor.

É isso que nós desejamos a todos os prefeitos eleitos, aos parlamentares, aos nossos governos de estado, ao governo federal, pois nesse momento todos temos que estar junto e encontrar a melhor solução possível. Começa pela discussão e pela nossa inteligência, e com certeza iremos conseguir.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)