Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado José Natal Pereira

51ª Sessão Extraordinária - 20/11/2007

O SR. DEPUTADO JOSÉ NATAL - Sra. presidente, deputada Ana Paula Lima, sras. deputadas, srs. deputados e catarinenses, quero, em primeiro lugar, agradecer a gentileza do deputado Silvio Dreveck por ter trocado de horário comigo para que eu possa me ausentar em seguida, em virtude de um compromisso que terei no município de São José.

Sra. presidente, eu ia fazer a leitura de um artigo sobre a consciência negra escrito para mim pelo professor e historiador Marco Caneta, um afrodescendente do município de São José. Mas como v.exa., deputada Ana Paula Lima, o deputado Pedro Uczai e os demais deputados já falaram que nós reconhecemos que este país tem uma dívida muito grande realmente com toda essa raça, eu farei diferente. Vou fazer a leitura do que ouvi na Assembléia Legislativa hoje pela manhã, numa audiência pública comandada pela deputada Ada De Luca, na qual estavam presentes o deputado Serafim Venzon, o nobre vereador e funcionário desta Casa, o dr. Juca, e alguns outros participantes afrodescendentes.

Quero fazer essa leitura porque fiquei encantado, realmente, pelo que ouvi, que não conhecia. E, portanto, gostaria de transmitir aos catarinenses. Diz o seguinte:

(Passa a ler.)

"'O que aconteceria se não existissem negros no mundo?

Essa é a história de um garoto chamado Theo, que acordou um dia e perguntou à sua mãe: 'Mãe, o que aconteceria se não existissem pessoas negras no mundo'? Sua mãe pensou por um momento e então falou: 'Filho, siga-me hoje e vamos ver como seria se não houvesse pessoas negras no mundo'. E então, disse: 'Agora vá se vestir e nós começaremos'.

Theo correu para seu quarto e colocou suas roupas e sapatos. Sua mãe deu uma olhada nele e disse: 'Theo, onde estão seus sapatos? E suas roupas estão amassadas, filho, precisa passá-las'. Mas quando ela procurou pela tábua de passar, ela não estava mais lá. Veja Sarah Boone, uma mulher negra, inventou a tábua de passar roupa. E Jan E. Matzelinger, um homem negro, inventou a máquina de colocar solas nos sapatos.

Então, ela falou: 'Por favor, vá e faça algo em seu cabelo'.Theo decidiu apenas escovar seu cabelo, mas a escova havia desaparecido. Veja, Lydia O. Newman, uma mulher negra, inventou a escova.

Ora, essa foi uma prisão... Nada de sapatos, roupas amassadas, cabelos desarrumados. Mesmo o cabelo da mãe, sem as invenções para cuidar dos cabelos feitos por Madame C. J. Walker... Bem, vocês podem vislumbrar...

A mãe disse a Theo: 'Vamos fazer nossos trabalhos domésticos e, então, iremos ao mercado'. A tarefa de Theo era varrer o chão. Ele varreu, varreu e varreu. Quando ele procurou pela pá de lixo, ela não estava lá. Lioyde P. Ray, um homem negro, inventou a pá de lixo. Ele decidiu, então, esfregar o chão, mas o esfregão tinha desaparecido. Thomas W. Stewart, um homem negro, inventou o esfregão.

Theo gritou para sua mãe: 'Não estou tendo nenhuma sorte'! Ela responde: 'Bem, filho, deixe-me terminar de lavar essas roupas e prepararemos a lista do mercado'. Quando a lavagem estava finalizada, ela foi colocar as roupas na secadora, mas ela não estava lá. Acontece que George T. Samon, um homem negro, inventou a secadora de roupas.

A mãe pediu a Theo que pegasse papel e lápis para fazerem a lista do mercado. Theo correu para buscá-los, mas percebeu que a ponta do lápis estava quebrada. Bem, ele estava sem sorte, porque John Love, um homem negro, inventou o apontador de lápis. A mãe procurou por uma caneta, mas ela não estava lá, porque William Purvis, um homem negro, inventou a caneta tinteiro. Além disso, Lee Burridge inventou a máquina de datilografia e W. A. Lovette, a prensa de impressão avançada.

Theo e sua mãe decidiram, então, ir direto para o mercado. Ao abrir a porta, Theo percebeu que a grama estava muito alta. De fato, a máquina de cortar grama foi inventada por um homem negro, John Burr. Eles se dirigiram para o carro, mas notaram que ele simplesmente não sairia do lugar. Isso porque Richard Spikes, um homem negro, inventou a mudança automática de marchas, e Joseph Gammel inventou o sistema de supercarga para os motores de combustão interna. Eles perceberam que os poucos carros que estavam circulando batiam uns contra os outros, pois não havia sinais de trânsito. Garret A. Morgan, um homem negro, foi o inventor do semáforo.

Estava ficando tarde e eles, então, caminharam para o mercado, pegaram suas compras e voltaram para casa. Quando eles iriam guardar o leite, os ovos e a manteiga, notaram que a geladeira havia desaparecido. É que John Standart, um homem negro, inventou a geladeira. Colocaram, assim, as compras sobre o balcão.

Nessa hora, Theo começou a sentir bastante frio. Sua mãe foi ligar o aquecimento. Acontece que Alice Parker, uma mulher negra, inventou a fornalha de aquecimento. Mesmo no verão eles não teriam sorte, pois Frederick Jones, um homem negro, inventou o ar condicionado.

Já era quase a hora em que o pai de Theo costumava chegar em casa. Ele normalmente voltava de ônibus. Não havia, porém, nenhum ônibus, pois seu precursor, o bonde elétrico, foi inventado por outro homem negro, Elbert R. Robinson.

Ele usualmente pegava o elevador para descer de seu escritório, no vigésimo andar do prédio, mas não havia nenhum elevador, porque um homem negro, Alexander Miles, foi o inventor do elevador.

Ele costumava deixar a correspondência do escritório em uma caixa de correio próxima ao seu trabalho, mas ela não estava mais lá, uma vez que foi Philip Downing, um homem negro, o inventor da caixa de correio para a colocação de cartas e Willian Berry inventou a máquina de carimbo e de cancelamento postal.

Theo e sua mãe sentaram-se na mesa da cozinha com as mãos na cabeça. Quando o pai chegou, perguntou-lhes: 'Porque vocês estão sentados no escuro?' A razão disso? Pois Lewis Howard Latimer, um homem negro, inventou o filamento de dentro da lâmpada elétrica.

Theo havia aprendido rapidamente como seria o mundo se não existissem as pessoas negras. Isso para não mencionar o caso de que pudesse ficar doente e necessitar de sangue.

Charles Drew, um cientista negro, encontrou uma forma para preservar e estocar o sangue, o que o levou a implantar o primeiro banco de sangue do mundo. E se um membro da família precisasse de uma cirurgia cardíaca? Isso não seria possível sem o dr. Daniel Hale Wilians, um médico negro, que executou a primeira cirurgia aberta de coração.

Então, se você um dia imaginar como Theo, onde estaríamos agora sem os negros? Bem, é relativamente fácil de ver. Nós ainda estaríamos na escuridão, com certeza, se não fossem os homens negros."

Srs. deputados e catarinenses, quem nos transmitiu isso, hoje de manhã, na Assembléia Legislativa, foi a professora Uda Gonzaga, que é professora há muitos anos em Florianópolis, numa escola pública de Monte Serrat.

Foi com muita satisfação que ouvi isso de manhã e fiz questão de transmitir para todos os catarinenses. E confesso que não tinha conhecimento, só da primeira cirurgia cardíaca.

Com certeza absoluta nós todos temos o dever, como legisladores, de cada vez mais proporcionarmos políticas públicas para a inclusão social daqueles que deram o desenvolvimento a este país e ainda não são reconhecidos. Uma única minoria, srs. deputados, é que é reconhecida.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)