25ª Sessão Ordinária - 27/03/2014
O SR. DEPUTADO SARGENTO AMAURI SOARES - Muito obrigado, sr. presidente, sra. deputada, srs. deputados, quem nos acompanha nesta manhã de quinta-feira pela TVAL, pela Rádio Alesc Digital ou pessoalmente.
Antes de mais nada, gostaria de falar sobre o lançamento do livro que ocorreu ontem nesta Assembleia Legislativa, no Plenarinho, que é uma iniciativa do nosso mandato e também do vereador Afrânio Boppré, cujo título é Gracias a La Vida - Memórias de Um Militante, de Cid Benjamim, que é jornalista atualmente. O livro conta um pouco da história da resistência à ditadura militar nas décadas de 60 e 70.
Pretendia falar ontem sobre o tema, mas não pude. E não tenho como fugir hoje ao debate acerca dos conflitos existentes na Universidade Federal de Santa Catarina, crise provocada por dois estudantes, com os quais foram encontrados três, quatro baseados na tarde de quinta-feira, dentro do campus da UFSC. Evidentemente o que provocou a crise não foi exatamente os quatro baseados, mas a motivação. O que provocou a crise foi a atuação da Polícia Federal e aí posteriormente, a pedido desta, a atuação também da Polícia Militar.
Quero registrar que a Polícia Militar foi atender a um chamado P11, ou seja, um pedido de socorro por parte da Polícia Federal naquele campus. E inclusive o representante do 4º Batalhão, o próprio comandante, antes mesmo de ser acionado o choque, tentou procurar uma saída negociada para a situação. Ele mesmo disse isso aos meios de comunicação e a este deputado pessoalmente. Aliás, integrantes e autoridades da UFSC testemunham que o comandante da Polícia Militar tentou e achava que era possível uma saída negociada para não precisar fazer uso da força, no entanto, nenhuma proposta possível foi aceita pelo delegado, superintendente, embora interino, da Polícia Federal em Santa Catarina.
No dia, ouvindo os relatos e lendo as notícias nos meios de comunicação, achei absolutamente estranha a situação, porque desconheço, em todo o tempo em que moro em Florianópolis - e já frequentei a UFSC, estudei e me formei naquela universidade -, qualquer ação desse tipo pela Polícia Federal, especialmente por causa de três baseados. Alguém policial militar conhece uma ação da Polícia Federal que redundou na surpreendente quantia de droga apreendida: três baseados? Agora, o que diz o delegado superintendente da Polícia Federal é que a UFSC é um antro de criminosos e que querem construir lá uma república de maconheiros. É muita desqualificação ética e profissional desse cidadão, que, aliás, é um funcionário público igual a cada um de nós. É, sim, delegado da Polícia Federal, uma instituição que precisa ser respeitada, mas ele precisa ser o primeiro a respeitar os outros.
Não tenho a menor dúvida de que a imensa maioria dos estudantes daquela universidade não usa drogas e que a imensa maioria inclusive é contra o uso de drogas. E ele próprio, contraditoriamente, informa para a imprensa que existia um acordo entre a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Universidade para que houvesse a investigação sobre o tráfico de drogas na UFSC, no seu entorno.
Ora, todos nós sabemos, especialmente, nós, policiais, todos os policiais investigadores da Polícia Civil, que se estamos investigando algo na intenção de combater, coibir, prender traficantes e apreender drogas e vamos in loco prender dois ou três maconheiros - e foi essa a prática, a ação de terça-feira, à tarde -, estragamos a investigação. Se é que há investigação!
Então, ficar jogando para a sociedade que a universidade é um antro de maconheiros é injusto, incorreto e desnecessário. Um delegado da superintendência federal, mesmo que interino, dizer que a universidade é um antro de criminosos é um ato de preconceito contra a universidade. Dizer que a reitora defende e quer construir uma república de maconheiros é uma posição ideológica, preconceituosa, tendenciosa, do pondo de vista político-ideológico. Dizer que uma deputada, a senhora deputada Luciane Carminatti, é um papagaio de pirata, quando a deputada foi lá para tentar garantir que não houvesse um enfrentamento como os professores que estavam lá, com os representantes da reitoria, é um desrespeito.
Não vou longe em dizer que muitos dos estudantes que se manifestaram naquele momento nem sabiam da droga e da motivação. Apenas acharam estranha a operação e a forma como foi feita. Aliás, não estavam identificados, somente se identificaram como policiais depois de cercados, porque até ali as pessoas não sabiam nem que se tratavam de policiais.
A atitude foi imprudente por vários aspectos, e antiproducente se o objetivo era combater o tráfico de drogas na UFSC. A ação e a forma como foi feita foi antiproducente, foi contrária aos objetivos informados e propalados. E qualquer policial sabe que a ação prejudicou o trabalho de investigação do tráfico de drogas na universidade, em seu entorno.
E se já na terça-feira, à noite, ouvindo e sabendo da situação, supus que poderia ter alguma coisa de diferente nessa ação, ao ouvir as declarações do delegado em questão no dia de ontem não tive dúvidas: querem jogar a sociedade contra a universidade, contra a reitora. Aliás, a operação quer dizer que as forças conservadoras políticas da universidade vão dizer que a reitora é incapaz de manter a ordem na universidade e os estudantes, inclusive aqueles que defendem o uso de drogas - e todo mundo aqui sabe que há um debate na sociedade brasileira inteira a respeito desse assunto e que eu tenho uma posição que já manifestei - vão criticar a reitora porque ela chama a polícia para dentro do campus. Passo a pensar, e para mim está claro, que se trata de uma provocação para criar uma cortina de fumaça - e não é só ironia, porque inclusive, literalmente, ao falar em maconha é uma cortina de fumaça mesmo - para que não saia ou não se torne notícia principal, outras questões relativas à Universidade Federal de Santa Catarina.
Assim, é uma cortina de fumaça muito maior do que proporcionaria três ou cinco baseados. Uma cortina de fumaça para omitir, esconder e não deixar aparecer para o grande público, através dos meios de comunicação, outras questões, com certeza, muito mais importantes para o futuro da referida universidade. Esse debate precisa continuar, essas questões precisam vir a público e a sociedade precisa ter os pés no chão, a tranquilidade e a sensatez, que o delegado não está tendo, para discutir todas as questões inclusive o uso e tráfico de drogas na universidade...
(Discurso interrompido por término do horário regimental.)
(SEM REVISÃO DO ORADOR)