19ª Sessão Ordinária - 05/03/2001
O SR. DEPUTADO NELSON GOETTEN - Sr. Presidente e Srs. Deputados. Estava acompanhando a leitura que a Deputada Ideli Salvatti realizava sobre o histórico do sucesso deste nordestino, estudante da escola pública, e pensava comigo: realmente temos muitos valores que se sobressaem da escola pública.
Agora, quando falamos da escola pública hoje, cabem muitos questionamentos e muitas perguntas. O que realmente fizemos com a nossa escola pública? Aonde o nosso País quer caminhar? Por que caminho queremos caminhar? O que planejamos para o futuro desta Nação, se não priorizamos a reorganização da nossa escola pública, do nosso ensino público. Se não pensamos primeiro em mudar as nossas ações, principalmente buscando priorizar e valorizar primeiro o nosso professor.
Penso que é impossível sonharmos com um País melhor se não investirmos com prioridade nisto que é fundamental na vida de uma sociedade, na vida de uma pessoa e na vida de uma família, que é o conhecimento. O conhecimento, penso que é a maior riqueza que tem um cidadão. E o conhecimento vem de um banco escolar, vem quando temos uma professora bem preparada, um professor bem preparado, um professor bem motivado, um professor bem remunerado.
Sem dúvida alguma é um País que não reconhece até hoje, depois de 500 anos de Nação brasileira, a importância do professor. É verdade que nos questionamos se de fato temos um projeto sério para o País. Não é só na questão da falta de motivação, da falta de remuneração, da falta, até, de respeito ao professor.
Também desorganizamos toda a estrutura quando, de repente, alguns iluminados pensavam que para melhorar a educação devíamos começar a oferecer comida de graça nas escolas, material gratuito, transporte gratuito para o aluno. Pensávamos que assim estávamos melhorando a educação nesse País. Causamos foi o caos na educação desse País.
Gastamos milhões e milhões de reais para transformar a escola em filantropia. Em local onde o cidadão, na maioria das vezes, pela miséria em que vive, busca um local para se alimentar. É impossível tratarmos o sistema educacional desta maneira.
Sou um cidadão nascido nas costas da Serra do Mar, filho mais velho de 11 de uma família de agricultor, me limitei ao estudo até o meu primário. Mas quando eu estudava, não havia a preocupação dos Governos em oferecer transporte escolar gratuito, comida gratuita na escola, em oferecer material gratuito.
O pai, com dificuldade, sim, ele e a família, através do seu trabalho, buscavam ganhar o dinheiro para que o filho pudesse ter a condição de estudo.
Mas também acontecia uma coisa importante. O filho era fiscalizado pela própria família, o pai, porque tinham que trabalhar para pagar o estudo do filho. Tinham que trabalhar para pagar o ônibus para o filho estudar, se tivesse, na oportunidade.
Então, a educação era vista com muito mais seriedade. Agora estamos numa época em que estamos criando uma geração de dependentes. O filho nasce e, conforme a mãe, não precisa mais nem limpar a bunda do filho em casa, porque vai para uma creche, para um jardim, onde limpam a bundinha da criança e colocam comidinha na boca.
E assim estamos criando isso. Ninguém mais se preocupa com o resultado do final do ano, do filho, se foi bem ou foi mal, porque o Estado paga tudo, é tudo gratuito.
E a professora, como está? A professora não tem condições de nem de levar a comida para Casa, para a sua família. A professora não tem condições nem de se vestir dignamente. A professora vive desesperada, estressada, porque o País resolveu priorizar gastos em áreas que não era a grande prioridade. O País tinha que criar oportunidade para que o cidadão não precisasse de nada gratuito, para que tivesse a oportunidade de ganhar o necessário para ter o seu auto sustento.
Esta prática de dar, esta prática de oferecer gratuitamente as coisas, só ocorre quando queremos manter um povo na miséria, na ignorância. Precisamos é de oportunidade neste País. Precisamos é que os Governantes nos dêem oportunidade de trabalho. Pagamos como o nosso trabalho aquilo que é necessário para a nossa família.
Podemos, com o nosso trabalho, oferecer o que é dignamente necessário para preparar a nossa família para o futuro.
Mas hoje vivemos uma verdadeira humilhação. Basta você ver o que acontece com os pais quando um filho passa num curso de vestibular. Quando passa no vestibular vem o verdadeiro desespero das famílias. Famílias inteiras desesperadas, até porque hoje o nosso aluno vê uma monstruosidade de umas universidades que estão se formando, e este é até um ponto positivo, você ver uma bonita universidade.
Só que a grande maioria dos milhares e milhões de brasileiros não podem chegar até ela. O filho do brasileiro não pode porque o custo de um curso universitário neste País é uma verdadeira aberração.
De um outro lado temos as universidades federais que não foram feitas para pobre. Numa universidade federal custeada pelo povo, mesmo esse sofrido e esse miserável, só chega o filho de papai, só chega aquele que pode cursar os melhores cursinhos para se preparar, para poder cursar a faculdade.
Esta aberração que é a Universidade Federal! Que País estamos construindo. Onde estão os nossos Governantes. A covardia para tomar posição fica evidente. A covardia dos governos, a covardia que nos assusta, em não conseguir entender que escola pública federal tem que ser gratuita para aqueles menos favorecidos.
Mas se oferece, neste País, escola pública gratuita, universidade gratuita para filho de papai, para os mais bem aquinhoados, para aqueles mais bem remunerados, para aqueles que têm os melhores salários. Enfim, para aqueles que podem bancar os melhores cursos para os seus filhos.
E, hoje, vemos, então, este absurdo de chegar aos arredores de uma universidade federal e ver esta mesma universidade investindo na comprar de mais áreas para o estacionamento dos belos veículos daqueles que cursam nessas faculdades.
E aquele pobre coitado, desesperado, está a ponto de passar a corda no pescoço, porque para ele e seu filho só resta a universidade particular, onde o custo universitário mensal estaria em torno de R$500,00 a R$600,00.
Como é que pode, neste País, onde quer se construir uma Nação com expectativa de futuro, não se dar oportunidade às pessoas, não se respeitar aqueles menos favorecidos e não se preocupar com aquele que sofre mais?! Então, quando falamos de escola pública, não acredito que iremos ter uma solução a curto prazo para o nosso professor, quando estamos desperdiçando uma barbaridade de dinheiro, oferecendo aquilo que na maioria das vezes a família não precisava, não era prioritário.
Prioridade para nós é uma professora bem remunerada, motivada, preparada, um colégio bem preparado com estrutura física necessária, para que os nossos filhos possam estudar dignamente. Isto é que prioridade para nós! Era aí que tinha que se concentrar os recursos da educação deste País! Mas estamos patrocinando a busca do lixo dos ônibus velhos que existem nesta Nação! Essa nucleação patrocinada neste País, onde cada aluno, hoje, vale R$500,00. Fizeram um desmonte do sistema educacional que nós tínhamos neste Estado!
Hoje, tem aluno andando em cima da caçamba; tem 29 alunos andando em cima de kombis; tem 150 alunos dentro de ônibus velho, e quem faz alguma coisa? Quem protege o nosso filho? O que queremos com a educação? Que barbaridade nós vivemos! Onde nós estamos? Precisamos ver o que está acontecendo! E nós, muitas vezes, fizemos os nossos discursos na valorização do homem do campo, da necessidade de manter o homem no campo.
Como é que nós podemos pensar num Estado que prioriza o homem no campo, que quer o homem no campo, que quer continuidade no campo, se arrancamos os nossos filhos, a nossa criança, o nosso estudante da sua comunidade para o centro urbano, para dar vocação urbana para essa criança?!
Este é o País da vergonha, é um País da covardia, que não está preocupado com o futuro, porque País que se preocupa com o futuro, investe na educação, prioriza, motiva, remunera bem o professor e, acima de tudo, prioriza aquilo que é mais fundamental para atingir o nosso objetivo, que é o de conseguir preparar bem o cidadão, para que no futuro possa ter a esperança de viver num País onde todos tenham a oportunidade de viver dignamente.
Que parem com essa humilhação de nos transformar em mendigos, em pedintes! Nós não queremos ser pedintes, só precisamos de uma oportunidade...
(Discurso interrompido por término do horário regimental)
(SEM REVISÃO DO ORADOR)