4ª Sessão Ordinária - 11/02/2009
O SR. DEPUTADO CESAR SOUZA JÚNIOR - Sr. presidente, manifestantes que aqui estão, que daqui a pouco terão a oportunidade de se manifestar nesta Casa, todos que nos vêem e nos acompanham pela TVAL, servidores da Assembléia Legislativa, no dia de hoje foi deflagrada, pela Polícia Federal, em outros estados do Brasil, uma operação de combate ao tráfico internacional de drogas. Foram mais de oito estados que receberam essa grande operação que investiga o envio de cocaína para Amsterdã, na Holanda, e a entrada em território brasileiro das drogas sintéticas, notadamente o ecstasy, cápsula do vento e outras drogas químicas.
E foi com surpresa para alguns que Santa Catarina hoje é considerada, em toda mídia nacional, como um dos maiores pontos de jovens recrutados por esse tráfico internacional, que é um tráfico feito via aérea, em que os jovens, a maioria de classe média e classe média alta, muitos inclusive com visto americano, levam do Brasil para a Europa a cocaína, trazendo de volta as drogas sintéticas, que são as drogas mais consumidas hoje pelas classes médias e altas do nosso país.
E essa quadrilha internacional tinha aqui em Santa Catarina, certamente ainda tem, um ponto forte, e a maioria dos jovens que ia para a Europa era catarinense, da Grande Florianópolis, jovens inclusive envolvidos na área esportiva. Isso serve para que tenhamos a absoluta noção de que o tema de abuso de drogas é hoje a maior chaga social do nosso estado.
Srs. deputados, nós costumamos associar a droga apenas ao jovem carente, ao jovem usuário de crack que estampa as páginas policiais, ao uso de drogas que correspondem por mais de 90% dos homicídios ocorridos em Santa Catarina. Agora, há outra face da droga parcialmente desvendada por essa operação da Polícia Federal, que é a droga de elite, de alto nível, a droga sintética, que alguns julgam ser uma droga "limpa", entre aspas, mas é uma droga tão deletéria, tão nociva, tão escravizante quanto as drogas tradicionais, quanto o crack, que é a droga das classes baixas. E Santa Catarina tem hoje uma situação pior ainda do que a média nacional.
Estudos dão conta de que cerca de 20% dos estudantes catarinenses da rede pública estadual utilizam algum tipo de droga ilícita e cerca de 86% consome, pelo menos quatro vezes por mês, a droga lícita, não menos nociva, que é o álcool.
Então, srs. deputados, é importante que esta Casa não perca esse tema de vista. O Brasil hoje vê Santa Catarina como um ponto de arrecadação de jovens para o tráfico de drogas.
Em geral, as políticas públicas, sobretudo no município que tem como primeiro atendimento o jovem dependente na prevenção, são muito frágeis. Mas temos aqui, por outro lado, um exemplo para o Brasil de política preventiva de grande valia, que é o Proerd, comandado pela nossa Polícia Militar. Agora, quando o jovem entra na droga e quer sair dela é muito difícil de encontrar um tratamento. As clínicas cobram valores altíssimos, mais de R$ 2 mil mensais, e o jovem que precisa sair da droga não consegue auxílio, a menos que tenha condições financeiras.
Outra questão que eu quero relatar, que me chamou atenção, é a seguinte: geralmente quando temos uma apreensão, deputado Antônio Aguiar, de drogas envolvendo jovens de áreas carentes do nosso estado, da Grande Florianópolis, o rosto deles aparece estampado em todos os jornais e na televisão. Agora, quando a apreensão e a prisão são feitas em jovens de famílias abastadas, jovens que tiveram alternativas na vida e mesmo assim optaram pelo caminho do tráfico de drogas, aí o rosto é ocultado, não aparece.
Pois bem: se a polícia tem de expor aquele jovem de família carente, que é preso traficando drogas, crack, tem de expor também aquele de família abastada! Não há motivo para ter dois pesos e duas medidas! Mas me espanta ver que em lugar de diminuir o uso da droga pela juventude, em vez de diminuir a disposição do jovem em recorrer a um divertimento fugaz, ilícito, escravizante, só tem aumentado.
Então, srs. deputados, me assusta saber que nós podemos estar perdendo uma geração por falta, primeiro, de políticas efetivas de combate à entrada desses entorpecentes e, segundo, por uma questão social, que faz com que a droga hoje perpetue em todas as faixas de renda da sociedade. Essa operação deflagrada hoje pela polícia deixa claro que droga não tem classe social, que as políticas de combate têm que ser efetivas, mas, sobretudo, nós precisamos colocar o combate a essa grande moléstia no centro das políticas públicas, o que, infelizmente, hoje não temos.
A ação policial não pode ser deixada de lado, mas sabemos que apreensões como a acontecida hoje pelo Brasil, incluindo a que houve aqui em Santa Catarina, são uma gota no oceano. O perigo é nós nos acostumarmos com essa situação de ver a juventude cada vez mais próxima da droga e longe de uma vida mais digna, juventude essa que não se sente incluída pela economia e pelas políticas públicas e acaba recorrendo a uma fuga por um momento que acaba se tornando escravidão para toda uma vida.
Muito obrigado!
(SEM REVISÃO DO ORADOR)