Sessões Plenárias

Pronunciamento

Deputado Ronaldo Benedet

7ª Sessão Ordinária - 05/03/2002

O SR. DEPUTADO RONALDO BENEDET - Sr. Presidente e Srs. Deputados, assomo à tribuna desta Casa para falar do tema da Campanha da Fraternidade neste ano, que é Fraternidade e Povos Indígenas, que tem como lema: Por uma Terra sem Males.

(Passa a ler)

“A Igreja católica, ao refletir sobre a realidade dos povos indígenas, convida a todos, Governo e sociedade, para a solidariedade com os nossos irmãos e irmãs indígenas e ao resgate da dívida social que temos com os primeiros habitantes do nosso País. Essas conquistas seriam alcançadas combatendo toda a forma de discriminação e marginalização contra eles, defendendo o seu direito à terra e atendendo às suas legítimas necessidades sociais e culturais.

O tema e o lema da Campanha da Fraternidade lança novamente o desafio a todos nós, brasileiros: construir uma sociedade onde todos, criados à imagem de Deus e com destino eterno, sejam respeitados em seus direitos, tendo condições de vida conforme sua dignidade de filhos de Deus e irmãos em Jesus Cristo.

A Campanha da Fraternidade de 2002, ao tratar dos povos indígenas, recorda-nos que podemos também aprender com as culturas indígenas, por exemplo o sentido comunitário da vida, a valorização da terra como fonte de recursos para a sobrevivência humana, o estilo de vida próprio e solidário”.

Esta Campanha da Fraternidade é muito própria. Para que possamos aprender com a vida que vivemos hoje, nós, os ditos civilizados homens brancos, a forma como encaramos uns aos outros, os nossos concidadãos, o nosso próximo, na nossa relação nas cidades, no acúmulo de pessoas onde vivemos, os problemas que causamos, as misérias, a falta de solidariedade, de sensibilidade com o próximo, o não dividir o pão, o deixar o outro passar fome quando muitos têm fartura...

No livro da Campanha da Fraternidade é dito o seguinte:

(Continua a ler)

“Esta Campanha da Fraternidade tem como objetivo motivar a conversão das pessoas, da sociedade e da própria Igreja para a solidariedade, para a justiça, o respeito e para a partilha, dando especial destaque, desta forma, aos povos indígenas.

É um convite a todos os cristãos para se engajarem na esperançosa luta pela conquista e garantia dos direitos dos povos indígenas.

É também uma oportunidade para compartilharmos valores, sabedoria, conhecimento e formas de ver a realidade. Ao refletirmos sobre a causa indígena vamos assumir um compromisso concreto com suas lutas, em defesa de suas identidades étnicas, ‘suas organizações sociais, costumes línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam’.

Para uma sociedade como a nossa, sequiosa de bens materiais e avara, a terra é mercadoria e sinônimo de poder. Para os diversos povos indígenas, no entanto, a lógica de relacionamento com a terra é completamente diferente. Ela é o lugar de viver, de se fazer gente, é o campo da história, é o espaço onde se reencontra a força dos ancestrais e onde se realiza o mito, o rito, o contato com Deus, manifesto na própria criação. Xicão, Xukuru, líder indígena, assassinado em 1998, na luta pela terra explica: a gente tem a terra como nossa mãe. Então, se ela é nossa mãe é ela quem nos dá todo o fruto da sobrevivência, ela deve ser zelada e preservada a partir das pedras, das águas e das matas.

A terra é ocupada com cuidado para que os seus recursos não sejam depredados. Toda a produção se fundamenta nas necessidades e no bem-estar do povo e não no lucro. A organização social visa assegurar os direitos de todos e nãos os privilégios de alguns. Dessa forma, o coletivo prevalece sobre os interesses individuais.

Nailton Muniz Pataxó Hã-Hã-Hãe explica como se concretiza este modo de viver para o seu povo:

Dizem que nós não somos civilizados. Os índios são civilizados, mas não com a civilização dos brancos. Temos o jeito de ser de cada povo. Hoje, nós olhamos quando chegamos numa cidade, muita gente se diz civilizada, mas que maltrata seu semelhante, que deixa suas crianças pedindo esmola, passando dificuldades.

Você entra nos órgãos públicos, vê tanto luxo, depois lá fora vê gente passando fome, gente igual, só que pobre.

Então, o medo que nós temos de perder nossas terras é de ver realmente o nosso povo na rua, dormindo debaixo de viaduto, caído em marquises, mendigando. Porque essa não é a nossa maneira de ser civilizado. Nós somos de um pensamento diferenciado, não ensinamos os nossos filhos a competir, a repartir e a lutar. Nós não deixamos nosso povo sofrer. Como vocês podem ver suas crianças na rua? Como podem ver famílias sem ter o que comer, revirando lixo? Nós não deixamos. Nós temos alegria em repartir. Se uma família tem para comer e chega outros que não têm, ela faz alimento suficiente para todos.

Nós não temos coragem de deixar um parente sair com fome se temos comida guardada. Nós comemos juntos, depois nos apegamos com Deus para, com certeza, irmos adquirir. Por isso também, se temos a nossa terra demarcada e nas nossas mãos, temos condições de adquirir o nosso alimento e de repartir entre nós.

Nós não temos cadeia nas nossas aldeias, temos conselhos para dar ao nosso povo e eles acatam. Nós procuramos educar os nossos filhos para acatarem os conselhos dos mais velhos.

A sociedade branca tem que entender e respeitar o nosso jeito de viver. Nós não estamos lutando contra eles, somos também parte dessa sociedade, só que com nossas diferenças.”

Portanto, a Campanha da Fraternidade busca não só a nossa visão na questão do índio, porque na maioria das regiões do nosso Estado não temos índios, até porque eles eram mais de cinco milhões quando foi descoberto o Brasil, hoje não passa de 500 mil. Mas o que temos de aprender com o índio é exatamente o seu modo de vida, a sua fórmula de relacionamento, entre eles o respeito, a solidariedade.

Por isso a campanha da fraternidade. Nós, que somos católicos e cristãos, temos que ter essa visão da mensagem que quer a Igreja Católica trazer: por uma terra sem males. A nossa terra em que vivemos, dita civilizada, é uma terra em que não se pode mais dizer que somos civilizados, é uma terra que tem o índice de criminalidade mudando e triplicando ou aumentando 90% a cada três anos, como é Santa Catarina, uma terra em que um irmão mato o outro apenas para tirar uns poucos reais.

Quanto custa uma vida, qual é o custo da criminalidade, o custo de uma terra que precisamos construir sem males?

Mas inspirados na vida do índio, que diz que não compete, não ensina o filho a competir, a fazer o outro humilhado, porque não tem, queremos deixar esta mensagem, solidarizando-nos com a Igreja Católica, dando-lhe os parabéns por essa Campanha da Fraternidade, que é muito atual e importante para que o homem branco, ou seja, nós, ditos civilizados, possamos aprender os ensinamentos com o índio.

Muito obrigado!

(SEM REVISÃO DO ORADOR)